UMA RESPONSABILIDADE HISTÓRICA, por ALEXANDRE ARAGÃO DE ALBUQUERQUE

Os números da PNAD – Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio – publicada em abril deste ano vêm mais uma vez denunciar o escândalo da concentração de renda no Brasil onde 1% (um por cento) dos ricos ganha cerca de 40 vezes mais do que a metade da população brasileira. Salários acima de R$40 mil. Uma concentração absurda, regional e estrutural. Como acusa o índice GINI, que é um parâmetro internacional para medir desigualdades, numa escala de zero a um, de quanto mais próximo do zero menos desigual é a distribuição da riqueza de um país. O nosso índice GINI é na casa de 0,549, ou seja, bem mais próximo de 1.

Com base nesses dados poderíamos pensar, na antevéspera de mais uma eleição presidencial, aquilo que o instituto DATAFOLHA publicou em sua pesquisa de intenção de votos no dia de hoje.

Em primeiro lugar, constata-se um crescimento vertiginoso, em apenas três semanas de campanha, do candidato Fernando Haddad, saindo 9% para 22%, ficando já tecnicamente EMPATADO, com o candidato que figura em primeiro lugar das intenções, no quesito VOTO FEMININO; Haddad ainda alcança o DOBRO das intenções de voto na região Nordeste e ganha folgadamente no eleitorado declaradamente de cor preta.

Por sua vez, o candidato do PSL tem grande vantagem no eleitorado masculino de cor branca, com escolaridade universitária e renda acima de 10 salários mínimos. Ou seja, machos brancos, ricos e de nível superior, das regiões sul e sudeste.

Fazendo uma breve viagem num tempo não tão longe, voltando para junho de 2013, iniciavam uma série de manifestações de juventudes, capitaneadas pela capital paulista, de forma desorganizada e sem uma identificação explícita de onde partia o comando dessas convocações. A marca de quase todas elas era a negação da política e dos partidos políticos. Mas, mesmo assim, surpreendentemente, aconteceu que os partidos de direita, cujo expoente era o PSDB, não apenas endossaram essas manifestações violentamente antipartidárias, como as apoiaram publicamente ao prestigiarem-nas por meio da participação in loco de várias suas lideranças nacionais. Vislumbraram a possibilidade de por meio delas desestabilizarem o governo Dilma Rousseff e faturarem a eleição de 2014.

Eis que então começam a surgir algumas organizações financiadas economicamente e com direção política organizada, tais como MBL (campeão em produção de “fakenews”) e VEM PRA RUA. O Instituto Millennium, criado em 2009, coordenado por Paulo Guedes (conhecido também como Posto Ipiranga) e Armínio Fraga, é o cérebro desta organização responsável pela criação do MBL, Vem para Rua, entre outras iniciativas que atuaram na gestão anterior para o sucesso daquelas mobilizações. Estava aberta a avenida para a articulação em grande escala de uma nova direita no Brasil. Uma direita agressiva, violenta, que utiliza a força simbólica e física como método de imposição de suas ideias. Uma direita negadora da política como espaço do diálogo entre diferentes para a conquista de sínteses civilizadas e civilizadoras. Uma direita de pensamento único que não aceita ser contrariada em seus pressupostos: tudo o que lhe for contrário é taxado de ideológico.

O segundo capítulo desta estratégia foi evidentemente o assalto ao Poder por meio da deposição do PT do governo federal com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, num processo cuja culpa material não foi sequer produzida. Um evidente golpe a soberania popular que a elegeu. Este movimento foi trabalhado exaustivamente pela grande mídia nacional na desconstrução dos símbolos positivos e históricos do Partido dos Trabalhadores, materializados nas conquistas sociais e econômicas dos seus 12 anos de governo federal, infiltrando nos corações e mentes de seus telespectadores dos jornais nacionais televisivos o discurso moralista e a mentira em forma de verdade. Lições do nazismo?

E por fim, era preciso ridicularizar pública e midiaticamente a maior expressão viva da política democrática nacional, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, enquadrando-o num processo arbitrário e sem precedentes no Brasil. O papel de atores do judiciário e ministério público foi fundamental para a execução desse desfecho.

Com esses três atos estava aberta a porteira para o crescimento de uma novo pensamento de direita, cujo representante aparente é Bolsonaro, integrante de um partido inexpressivo. De início era apenas o Anti-Lula. A partir de agora ganhou vulto encarnando o papel desempenhado outrora por Collor de Mello, o então “ilibado” caçador de marajás. A novidade é que se Collor representava um pensamento neoliberal contra a socialdemocracia petista nascente, Bolsonaro alimenta hoje diuturnamente o ovo da serpente a fomentar o ódio e a violência social e de Estado como forma de solução dos problemas de distribuição de renda, de saúde, de educação, de moradia, de diversidade cultural. Uma moldura tipicamente fascista endossada pelos machos brancos, ricos e nível superior, e pela massa apolítica gestada em 2013.

Dia 07 de outubro o povo brasileiro tem nas mãos uma responsabilidade histórica: garantir por meio de sua soberania o voto maciço para retorno do Brasil ao caminho da democracia. Ele Não!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *