UMA MOBILIDADE POLÍTICA OUTRA

O Imperialismo, como administrador e centro do padrão mundial de poder (Aníbal Quijano), controla a mobilidade política pelo centro de tal forma que o movimento político de produção e reprodução que permite acumular capital é efetivado pelos lados. Diante do padrão mundial de poder, ou sistema-mundo colonial moderno, os explorados, os dominados, os excluídos e os condenados da terra (Fanon) não podem encontrar alternativas para suas condições de vida  sendo de direita, de centro, de esquerda ou suas derivações (centro-direita, centro-esquerda, extrema-direita, etc.) porque se trata de movimentos políticos articulados em torno da manutenção da acumulação do capital, seja na sua forma neoliberal ou keynesiana (desenvolvimentismo, Estado do bem-estarsocial).

Os empobrecidos, os explorados, os renegados, os subalternos, os dominados, os invisibilizados pelo movimento de reprodução do capital e pelo padrão epistêmico do saber moderno e a colonialidade do saber não  se encontram nos lados, mas nas margens, estão embaixo. Logo, quando fazem política, manipulados pelo sistema político lateral, jogam na manutenção do poder os seus interesses. Portanto, os que estão embaixo devem se movimentar a partir de baixo, como corpos políticos geolocalizados, para destruir as estruturas que mantêm os de cima, à custa do desgaste constante de suas vidas, para criar condições e possibilidades de alternativas de outros modos de vida.  Ao deslocar o movimento político dos lados para a relação de baixo para cima, a estrutura hierárquica do poder começa a ficar visível, ficando mais perceptível como os de cima vampirizam os de baixo.

O movimento político lateral é uma forma de manutenção do poder inventado pela modernidade durante a Revolução Francesa, fundamentado na ideia universal abstrata de que somos todos iguais filosófica e juridicamente. Todavia, a expressão da liberdade pelo agir político deve ser limitada ao movimento lateral que garante a manutenção do sistema-mundo colonial moderno, o sistema do homem branco europeu, cristão, patriarcal, heterossexual e patrimonial, que passou a ser vendido como universal e civilizador.

O movimento político pelos lados é uma metáfora da geopolítica da colonialidade do poder adaptada da narrativa cristã que afirma que, depois de vir à terra e morrer pela libertação dos homens, Jesus ressuscitou, subiu ao céu e ficou sentado à direita de Deus Pai todo poderoso. Assim, com a modernidade, o deus capital, que promete a liberdade, a igualdade e a fraternidade, coloca-se no centro para realizar o fim da história, tendo a sua direita o mercado neoliberal e a sua esquerda o mercado keynesiano.  O que a narrativa moderna não revela é a colonialidade como sua parte constituinte, o que significa que não pode existir o céu, a promessa impossível de emancipação, sem os condenados da terra. Não existe acumulação de riqueza, que possibilita liberdade e igualdade para uma minoria, sem a situação de exploração, dominação de diversas modalidades (classe, gênero, sexo, cor, etnia, religiosa, língua, territorial, dentre outras), pobreza e miséria para a maioria.  Operacionalizar a política a partir dos lados dificulta que essa relação seja explícita. A democracia moderna é um movimento lateral.

Assim como a narrativa de que Deus enviou o seu filho para salvar a humanidade do pecadopara reconduzir o homem ao paraíso, para a terra prometida onde escorre leite e mel, condição parecida com a descrição do comunismo feita por Marx e Engels na Ideologia Alemã fracassou e colocou o cristianismo como sujeito de várias atrocidades e ações bárbaras ao longo da história, a racionalidade moderna também fracassou na sua promessa de efetivar a emancipação humana. Portanto, encontramo-nos em um momento epocal que nos desafia a construir um outro padrão civilizatório, e um dos caminhos é o de deslocar a política dos lados para relação de baixo para cima.

Se deslocar de um fazer político lateral para um momento a partir de baixo, contra as estruturas que sustentam os de cima, é uma atitude que implica a ressignificação das lutas políticas. Como bem lembra o movimento zapatista: “as grandes transformações começam não por cima nem por feitos monumentais e épicos, mas com movimentos pequenos em sua forma e que aparecem como irrelevantes para os políticos e para certos analistas”.

Os analistas que olham do centro para os lados, numa postura neutra, como cientistas, portando suposto saber verdadeiro e objetivo, são os intelectuais autorizados pelo poder, mesmo que apenas pela vaidade e narcisismo,ficam focados no movimento lateral, esforçando-se para desvendar as narrativas dos agentes que se movimentam lateralmente pela conquista, manutenção e perpetuação do poder. Bem, mas o que nos desafia em um momento de crise do padrão civilizatório moderno é uma mobilidade política outra.

Uribam Xavier

Uribam Xavier

Graduado em Filosofa Política e Doutor em Sociologia, professor da área de Ciência Política do Departamento de Ciências Sociais. Autor do Livro “O Capital e a Política”, editora Livro Novo, São Paulo, 2012.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.