UMA ILHA CHAMADA BRASIL

Uma semana rica de revelações, como esta passada, com os áudios publicizados da Operação Spoofing, sobre as mazelas do submundo da Lava Jato, e com a divulgação do livro do general Villas Bôas, no qual afirma que a ameaça ao Supremo Tribunal Federal foi resultado de um consenso entre generais, permite-nos enxergar um pouco melhor o concreto. Enxergar um pouco mais no presente contribui na revisão de nossas percepções (convicções) passadas, possibilitando-nos atualizações necessárias para a coerência de uma vida minimamente equilibrada. Afinal, não é o sofrimento por uma decepção, uma vergonha ou um arrependimento que desintegra a personalidade; mas a dissolução de esquemas de sentido. Importante, depois de uma queda, é aprender com ela, reerguer-se renovado no presente, em direção ao futuro.

Por exemplo, em 2017, boa parte do PSOL ligada àliderança de Luciana Genro (ex-PT) (https://www.sul21.com.br/colunas/paulo-muzell/2017/04/o-psol-luciana-genro-e-lava-jato/), havia adotado como tática política a de concentrar esforços em ataques ao PT, um partido bombardeado diuturnamente, desde 2013, pelo complexo jurídico-midiático-financeiro cujo objetivo estratégico era a consolidação do Golpe de 2016 por meio do aniquilamento daquela sigla partidária e de suas lideranças. O equívoco histórico dessa ala do PSOL corroborou com Sérgio Moro (codinome Russo) na sua ação criminosa, abrindo caminho para a chegada de um capitão reformado de extrema-direita à presidência da República, com todo o seu staff militar. Somente em julho de 2019, o deputado federal Glauber Braga (PSOL – RJ), na Comissão de Constituição de Justiça e de Cidadania, veio a declarar Moro como um juiz ladrão.(https://web.facebook.com/alexandrearagao.dealbuquerque/videos/2782546608673332).

Ontem, 13, o professor José Luís Fiori publicou um excelente artigo “A confissão do General” no site “A terra é redonda”. Do artigo, gostaria de destacar a segunda parte, sobre a análise realizada por Fiori da desastrosa política externa brasileira desde a chegada ao poder do capitão e seus militares.

O chanceler Ernesto Araújo, empossado em 2019, é um servidor público de carreira cujo pensamento político divide o mundo numa bipolaridade: um mundo cristão e um mundo não cristão. Para Ernesto, “a fé em Cristo significa lutar contra o globalismo cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus (cristão) e o homem. O projeto metapolítico (por ele defendido) significa abrir-se para a presença de Deus (cristão) na politica”. Portanto, é essa a pessoa, com uma leitura medieval dos textos bíblicos, com uma concepção de política teocrática, para quem a soberania vem do alto, que foi escolhida para conduzir nossa política externa no concerto das nações. (https://exame.com/brasil/as-opinioes-polemicas-do-novo-chanceler-sobre-raca-fake-news-e-8-temas/).

Fiori destaca que em 04 de janeiro de 2019, Araújo compareceu à reunião do Grupo de Lima carregando de volta consigo para o Brasil a estratégia de Mike Pompeo, à época Chefe do Departamento de Estado estadunidense, com vistas ao cerco e à derrubada do governo venezuelano de Nicolás Maduro, recém-eleito com 67,8% dos votos.Era uma estratégia agressiva, envolvendo inclusive a possibilidade de invasão militar do território venezuelano.

Depois disso, segundo Fiori, pelas mãos de Ernesto, o Brasil esteve envolvido diretamente na derrubada do governo de Evo Morales, da Bolívia, apoiando a instalação de um governo títere que imediatamente rompeu relaçõesdiplomáticas com a Venezuela. O chanceler brasileiro foi colocado à frente dessa operação que resultou na autoproclamação de Juan Guaidó como presidente da Venezuela, reconhecida imediatamente pelo Brasil de Bolsonaro e pelos EUA de Trump. E Ernesto ia de vento em popa em sua luta cristã contra o não-cristianismo globalista, enchendo o peito e atacando verbalmente a China, juntamente com o Zero Três e o ex-ministro, de triste lembrança, Weintraub. Com Ernesto, a política externa brasileira tornou-se pura agressão aos vizinhos _hermanos_ sul-americanos.

Mas se a história para alguns é uma seta, para outros ela é concebida como uma espiral, dá voltas. O México elegeu um governo de esquerda em 2018; na Argentina, a chapa Fernadez-Kichner, em outubro de 2019, foi a vitoriosa; em outubro de 2020, com o apoteótico retorno de Evo Morales ao país, com a fuga dos golpistas de direita para os EUA, a Bolívia elegeu novamente um governo de esquerda; agora em fevereiro, as forças de esquerda venceram no primeiro turno no Equador; em abril o Chile irá eleger sua nova Assembleia Constituinte, grande vitória das forças progressistas chilenas. Por fim, a União Europeia decidiu retirar seu reconhecimento oficial ao autoproclamado presidente Guaidó.

Idiotice ideológica e geopolítica custa caro. Um chanceler cuja visão é de um mundo bipolar, dividido entre cristãos e não-cristãos, fundamentada numa leitura medieval do texto bíblico, achando que Adão foi literalmente feito do barro e que a serpente conversou com Eva, só pode trazer como consequência o isolamento internacional ao qual o Brasil está submetido. Uma ilha no oceano das nações. Agrega-se gravemente a isso o tremendo fracasso administrativo desse governo de militares.

Somente um grande arrependimento civil nacional, com uma consequente mudança profunda de rumo político, poderá nos devolver o sentido de fraternidade, de respeito à diversidade e atitudes concretas de solidariedade para nos reerguermos como nação.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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