UM POVO PARA CHAMAR DE “SEU” – por Emanuel Freitas

Na semana que passou vimos, mais uma vez, o presidente Bolsonaro dirigir-se ao eleitorado evangélico através da promessa de nomear um ministro “terrivelmente evangélico” para uma das vagas do STF que surgirão durante seu mandato.

Antes de tudo, parece mais uma digno de nota que, para pôr em marcha o plano de “cristianização” da sociedade brasileira o presidente não recorra ao qualificativo “cristão”, que aglutinaria também católicos e espíritas, mas faz uso do qualificativo “evangélico” para mostrar como, no plano em marcha, não conta qualquer cristão, mas tão somente aquele que for “evangélico”.

Tratei disso aqui, nesse mesmo espaço, anteriormente (o texto pode ser lido aqui:  https://segundaopiniao.jor.br/catolico-pero-no-mucho-por-emanuel-freitas/). Mostrava aos católicos, sobretudo os carismáticos, o desapreço por meio do qual o presidente os tratava, dando mostras de que a moral católica, por assim dizer, não seria suficiente para assegurar um país em que “Deus” estivesse “acima de tudo”; urgia sermos um país “evangélico”. Lembrei, também, das inúmeras idas do presidente a cultos evangélicos, o que não se observava com relação às missas e, também, o simbólico fato de não ter ele pronunciado o “ato de consagração ao coração de Maria”, organizado pela RCC. Como vimos na semana passada, durante a sessão de homenagem aos 42 anos da Igreja Universal na Câmara dos Deputados, é com os evangélicos que Bolsonaro se sente “à vontade”, discursando e fazendo promessas, confiando aos deputados evangélicos a votação da Reforma da Previdência e, no dia seguinte, com eles operando seu desjejum.

Importa lembrar ao leitor que o uso do qualificativo “evangélicos” para o ideal de Brasil almejado pelo presidente é um feito de 2019. Durante a campanha víamos o então candidato falar de um país de “maioria cristã”, sem especificação de vertente, o que lhe traria votos dessa “maioria”. Agora, com a caneta bic em mãos, é à minoria da maioria (evangélicos) que o presidente se dirige, e com quem conta para a sua “revolução”. Terrível revolução, diga-se.

Ao que me perece, o presidente busca, com isso, tornar esse eleitorado preso a si. Esse povo já flertou com Collor, FHC, Lula e até Dilma que, em 2010, teve em seu palanque figuras do quilate de Eduardo Cunha, um dos irmãos importantes na conversão de Dilma em figura palatável aos evangélicos. Em 2014 foi a vez de Pastor Everaldo buscar ancorar-se junto ao seguimento, mas não saiu-se bem. Como disse no artigo a que fiz referência, em 2018 Bolsonaro partiu na frente. Uma vez empossado, tem tomado decisões que acenam para o seguimento.

Com a promessa de um ministro do STF “terrivelmente evangélico” o presidente parece buscar tornar o seguimento evangélico grato a ele por ter posto alguém na Suprema Corte que seja “do senhor”.  Mesmo que venham outros momentos de agenda progressistas, ou que os ministros continuem chancelando uma pauta progressista no campo dos costumes, por meio de legislação, o “homem do Senhor” lá estará para, como o presidente mesmo disse, “sentar encima” de qualquer avanço, pedir vistas etc. A isso o povo evangélico será “eternamente” grato, o que talvez acarrete a formatação, já observada no pleito de 2018, de um novo “povo” fiel a uma liderança: se o Nordeste permaneceu/permanece como foco de resistência do lulismo, talvez os evangélicos venham a ser o front bolsonarista par excelence.

Obs: Em 2018, Bolsonaro prevaleceu sobre Haddad com pouco mais de 164 mil votos entre os católicos, ao passo que entre os evangélicos a diferença foi de 11 milhões. Aqui, pois, não é Freud, mas o resultado religioso das urnas, o que explica a escolha de Bolsonaro por dirigir-se aos evangélicos. Terrível constatação!

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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