Católico, pero no mucho, por EMANUEL FREITAS

O processo de impeachment de Dilma Rousseff (PT) ainda dava passos iniciais, em 2015, quando o então deputado Jair Messias Bolsonaro imergia nas águas do Rio Jordão, em Jerusalém, pelas mãos do Pastor Everaldo (PSC, que havia sido candidato à presidente em 2014) e, assim, sinaliza ao segmento evangélico que poderia ver nele uma alternativa à cadeira presidencial.

Dias antes havia votado a favor da cassação da presidenta a partir de uma homenagem ao coronel Ustra (acusado de inúmeras sessões de tortura durante os anos de chumbo da ditadura), finalizando com o bordão “Brasil acima de tudo, Deus acima de tudo” com o qual conduziria sua campanha presidencial em 2018.

Um ano antes, em 2017, votou contra a abertura de processo contra o então presidente Michel Temer (MDB) dizendo que o país precisava de um “presidente cristão, patriota e honesto”, falando mais de si do que do emedebista, e encerrando com o mesmo bordão. Assim, entrou na campanha, já iniciada nas águas de seu segundo batismo (pois sempre se disse católico), utilizando-se do nome divino, selando, já bem antes da partida, o apoio de seguimentos religiosos cristãos. Sobretudo, lembre-se o leitor, por ter incorporado os elementos elencados como os mais importantes para o país pelos atores do campo religioso: oposição ao que nomeiam de “ideologia de gênero”, freio aos avanços da legislação sobre o aborto e os direitos das populações LGBT dentre outras.

Sempre enunciando-se como “católico”, Bolsonaro partiu com apoio selado dos evangélicos e de parte considerável dos setores mais conservadores do catolicismo, sobretudo a Renovação Carismática e as Novas Comunidades que, em 2014, haviam cantado em prosa e verso o apoio ao candidato tucano Aécio Neves e, em 2010, a José Serra. Tratei desse apoio no espaço desse site (ver:  https://segundaopiniao.jor.br/os-soldados-de-cristo-batem-continencia-para-o-capitao-parte-ii-por-emanuel-freitas/)

Bolsonaro usava e abusava, durante a campanha, do versículo 32 do capítulo 8 do Evangelho de João: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Assim, convenceu os irmãos, protestantes e católicos, da viabilidade de sua candidatura. Sobrevindo o episódio da facada, estava dada a possibilidade de exploração da campanha em termos mistagógicos.

Pois bem, além de rejeitar (simbólica e materialmente) o sacramento católico ao batizar-se novamente em 2015, não se viu o candidato em nenhum evento ou ritual do catolicismo durante a campanha, como se observou com relação ao segmento evangélico. A única imagem de Bolsonaro em templo católico durante a campanha é aquela em que se vê ao lado do arcebispo do Rio, Dom Orani. Conversa formal, apenas; nenhuma presença no ritual, aquele a que chama de “santa missa”.

No dia de sua eleição, lá estava o irmão Magno Malta a “entregar o Brasil” nas mãos de Deus e de Jair, momento onde não se viu nenhuma autoridade do catolicismo que Jair diz professar. Dias depois visitaria a sede da Comunidade Canção Nova, em Cachoeira Paulista (SP), onde veria a cúpula da comunidade e da Associação do Senhor Jesus diante de si. Eram os carismáticos buscando marcar posição.

Na cerimônia de diplomação foi um pastor, e não um padre, a autoridade por ele convidada para orar nos instantes que antecediam. O tal ato ecumênico da posse não saiu. Nenhum parlamentar católico consta como ministro ou líder no Congresso. Pelo contrário, vários nomes foram vetados na composição do governo pela bancada evangélica.

O propalado “ato de consagração do Brasil ao coração de Maria”, de iniciativa do deputado Eros Biondini (PROS-MG), nem mesmo contou com a leitura, por parte do presidente, do texto utilizado por lá, o que causou frustração em meio aos organizadores, contando mesmo com a presença de dois bispos. Era, como se viu, uma mera tentativa, frustrada mais uma vez, de marcação de lugar da RCC frente ao visível avanço de evangélicos na condução do governo.

Quando a equiparação da homofobia ao racismo foi aprovada no STF, Jair indagou se não era a hora de se ter “um ministro evangélico” por lá. Ora, o presidente disse, em outras palavras, que a agenda moral, da moral cristã, só se sustenta pela presença de evangélicos, e não de católicos, no STF. Será preciso desenhar para os católicos que, na agenda em que eles militam Bolsonaro não confia entregar-lhes a condução?

Ao dizer que “o Estado é laico” mas ele é “cristão” foi ao protestantismo, e não ao catolicismo, que Jair remeteu seus interlocutores como o credo a que se refere.

No dia em que escrevo esse texto, feriado de Corpus Christi, de vital importância para o catolicismo – pois é dia de guarda-, foi nos braços dos evangélicos que o presidente caiu, sorridente que estava na Marcha para Jesus de São Paulo. Evento que, anteriormente já aclamou Eduardo Cunha como salvador do país, há muito já se tornou político, utilizado para mostrar o peso desse segmento, sobretudo nos processos eleitorais. Foi lá, para evangélicos, que disse: “Deus nos deu a presidência”.

Ficamos assim: temos um presidente que se diz católico, mas que não frequenta as “santas missas”, não convida autoridades do clero para seu convívio, não demonstra confiança em juristas católicos, não lê o ato de consagração à Maria e, ainda por cima, vê com muita desconfiança a realização de um sínodo dos bispos aqui, na Amazônia.

Sem falar na diametralmente agenda oposta à do papa Francisco. Mas isso seria tema para um outro texto.

Sim, com a eleição de Jair parecer que “Deus” está “acima de todos”; mas, não se trata do deus “católico”. “Protestantismo acima de tudo”, caros católicos!

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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