UM OLHO D’ÁGUA CRISTALINA, por Alexandre Aragão de Albuquerque

No mês de abril recebi uma ligação de Socorro perguntando-me se eu saberia de alguma oferta de emprego, porque ela e seu marido continuavam desempregados, passando por muitas necessidades materiais. Comentei com minha irmã sobre a situação e ela a contratou para o trabalho de cuidadora noturna de nossa mãe que se encontra com diagnóstico de Alzheimer.

Ontem, dia 13 de junho, tivemos o prazer de assistirmos à histórica entrevista do Presidente Lula à Rede TVT: eu, minha mãe e Socorro. Era a primeira vez que Socorro assistia na íntegra a um pronunciamento político de tamanha profundidade e amplitude. A pergunta que me fez: Por que a Rede Globo não transmitiu uma entrevista tão importante como esta? Seria tão bom que as pessoas vissem isso!

Essa é uma pergunta importante, Socorro, porque a Rede Globo é uma concessão pública, ou seja, ela foi autorizada pelo Estado brasileiro para prestar um serviço de informação idôneo e isento de partidarismo, para que a população ao ter acesso a conteúdos corretos possua condições de fazer discernimentos justos. Acontece que a Globo é uma empresa reacionária, hegemônica, concentrando fortíssimo poder político, tendo apoiado inclusive o outro golpe militar de 1964-1985. Define a seu bel prazer tanto o conteúdo quanto a forma de comunicar os fatos, sem nenhuma advertência por parte dos Poderes republicanos quando sistematicamente com sua interpretação jornalística privilegia setores da sociedade em evidente manipulação dos fatos, publicando os acontecimentos segundo os seus interesses corporativos. No caso da Lava Jato, as reportagens do site Intercept estão a demonstrar claramente que a Rede Globo fez e continua a fazer parte do conluio montado pelo juiz e pelo procurador de Curitiba.

Mas isso o que Lula está dizendo é muito importante para a gente entender a verdade sobre a maracutaia que Moro e Dallagnol armaram contra ele. Essa entrevista parece um olho d’água cristalina, que além de saciar a nossa sede de verdade, recompõe as nossas forças alimentando a esperança de que é possível fazer política de forma diferente, com orgulho, com soberania e voltada para as necessidades da população. Eu vou dizer uma coisa: quando eu vejo Bolsonaro, Villas Boas, Guedes, Moro e Dallagnol falando lembram uma boca de esgoto a transbordar aquela água contaminada pelos dejetos fecais e sujeiras de todo tipo, argumentou Socorro.

Você imagina, eu lhe disse, que desde 2013, várias armadilhas estavam sendo montadas, com a Rede Globo à frente, para derrubar o patrimônio político-social construído pelo PT desde o início deste século XXI. Antes do PT, Socorro, o Brasil vivia de pires na mão pedindo esmola ao FMI. Hoje nossas reservas internacionais são da ordem de US$380 bilhões. Até a chegada do PT ao poder o salário mínimo nunca chegou a valer sequer US$80; com a política de valorização vinculada ao crescimento do PIB chegou a valer US$300 nos governos do PT. Uma das políticas mais estruturais desenvolvidas nesse período foi a criação de dezenas de Universidades públicas e Institutos Federais tendo como objetivo a valorização estratégica dos territórios, consequência dos estudos apresentados nos Planos Plurianuais. Isso sem falar na política de defesa do Pré-Sal, que colocaria o Brasil na liderança do Bloco Latino-Americano dentro de uma geopolítica multipolar que vinha sendo construída com os diversos organismos internacionais e com o BRICS.

Pois é, eu sinto uma vergonha como é que pode um presidente do Brasil prestar continência à bandeira dos Estados Unidos. Eu não acreditei quando vi essa imagem na Globo. Um presidente brasileiro de verdade tem de fazer reverência à bandeira brasileira, defender a soberania nacional e não se ajoelhar feito um capacho diante dos estrangeiros. Lula jamais faria isso, afirmou Socorro.

Hoje, 14 de junho, estou em casa cuidando de minha netinha. O pai e mãe dela estão militando na Greve Geral, fortalecidos e renovados pelos sais minerais da água cristalina de ontem que brotou naturalmente nas palavras de Lula.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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