UM MESSIAS DA CASA GRANDE, por Alexandre Aragao de Albuquerque

O humano é um ser de desejo. Desejo é sintoma de privação. A saudade só aparece na distância e na ausência. A fome não se tem com o estômago cheio, ela só surge quando o corpo é privado de pão. Fome de justiça só emerge quando alguém está sendo oprimido por outrem. Desejo pertence aos seres que não encontram prazer, sentido ou justificação naquilo que o espaço-tempo concreto presente lhes oferece. Assim, o humano constrói objetos (cultura) para criar um mundo que possa amá-lo.

Além disso, como tão bem discorre o teólogo Rubem Alves, os humanos, diferentemente dos outros animais, não se reduzem aos seus corpos. Tomam posse destes e a partir deles tornam-se inventores, construindo tambores, flautas, harpas, compondo poemas, cobrindo seus corpos com tintas, tecidos e metais. Inventam bandeiras, constroem altares e enterram seus mortos preparando-os para sua última viagem. Em sua ausência, entoam cantos de lamentos, pelos dias e pelas noites. O ser humano é a única criatura que recusa ser o que ela é. Inventa sonhos, acordado. Quando a dor bate à porta e esgotam-se os recursos da ciência e da técnica, as pessoas transformam-se em videntes, exorcistas, benzedores, sacerdotes e profetas. Portanto, a religião está mais próxima de nossa experiência pessoal do que desejamos admitir.

Nenhum fato, coisa ou gesto é encontrado já com as marcas do sagrado. Coisas, gestos, fatos e pessoas se tornam religiosos quando os humanos os balizam como tais. A cruz que era o sinal de horror e humilhação para os antigos, a pior das mortes aos condenados pelo poder político, há dois mil anos tornou-se símbolo sagrado dos cristãos. Logo, a religião nasce do poder que os humanos têm de dar nome às coisas, fazendo uma discriminação entre coisas de importância secundária e coisas nas quais seu destino, sua vida e sua morte se dependuram. Com símbolos, os humanos discriminam objetos, tempos, espaços, pessoas, construindo uma abóbada sagrada com a qual recobrem seu mundo. Sem ela o mundo humano seria por demais frio e escuro. Com seus símbolos sagrados, o humano constrói um sentido de viver e de morrer. Como lembra Albert Camus, ninguém está disposto a morrer por verdades científicas. Assim, o sagrado se instaura graças ao poder do invisível. Ninguém jamais viu a Deus.

Maquiavel inaugura a ciência política moderna em sua busca da verdade efetiva das coisas e não daquilo que elas deveriam ser. Ele examina a religião a partir dos seus efeitos práticos, ou seja, pela capacidade de despertar o MEDO. Religião é, antes de tudo, temor de Deus. Mas ela também possui a capacidade de despertar o AMOR dos cidadãos em favor do Príncipe e da vida das repúblicas. Para o pensador florentino, a função e a importância de uma religião consistem em sua força normativa, ensinando os cidadãos a reconhecer e a respeitar os símbolos e as regras políticas a partir dos mandamentos religiosos. Esses mandamentos podem assumir tanto o aspecto coercitivo e punitivo, típico de uma disciplina militar, como o caráter persuasivo do imaginário interior para a produção de consensos coletivos. De fato, o Príncipe precisa possuir a “virtù” de servir-se de modo sagaz da fé do povo para levá-lo a obedecer. Somente um Príncipe “virtuoso” é capaz de fazer o povo temer a desobediência a suas ordens.

No Brasil recente, a partir do Golpe de 2016, uma campanha midiática diária está conduzindo o imaginário popular a acreditar em verdades não comprovadas: Dilma foi golpeada sem cometer crime de responsabilidade; Lula está preso sem prova e sem objeto determinado. E desde que foi eleito em 2018, manipula-se um clima por meio da elaboração de um discurso em torno da pessoa do presidente como sendo portador de “desígnio divino”. Essa campanha busca atingir a todos os brasileiros, mas principalmente seu expressivo eleitorado religioso de perfil conservador, como evangélicos e católicos carismáticos.

Recentemente em uma cerimônia no Instituto Rio Branco, tivemos mais um movimento dessa orquestração, desta feita promovida pelo chanceler Ernesto Araújo que em seu discurso na formatura dos novos diplomatas comparou Bolsonaro a Jesus Cristo, chegando até a chorar. Imagina-se que o vídeo desse discurso deve estar sendo compartilhado em milhares de redes sociais desses grupos de fiéis. Um messias que defende a tortura, que autoriza a defesa do latifúndio pela bala, que implanta a precarização da previdência social dos pobres, que promove entrega da soberania nacional aos EUA, que propagandeia a comercialização turística dos corpos femininos brasileiros, entre outras coisas.

Para se entender a política, é preciso entender a religião com seus efeitos práticos. Para se entender a religião, é preciso entender o caminho da linguagem. A linguagem desempenha um papel fundamental na construção de mundos. A disputa que hoje se trava no Brasil é a disputa de uma comunicação que seja capaz de revelar a verdadeira face nefasta destes que estão no poder, arvoram-se a ser deus, mas na verdade são demônios, lobos em pele de cordeiros.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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