UM LEITOR DE THOMAS BERNHARD II

Areia? Areias, era mais adequado no plural, por causa de um eco literário, passado distante, e por causa também do eco das próprias areias, sua migração, o vento. A palavra poderia ser estilisticamente corrigida, posta no plural mais significativo: os ressentimentos da poesia podem ser ocultados assim, através da rescrita de cada palavra. É a vida que não pode ser refeita, o passado que não pode ser mudado. Posso até fingir pela palavra que já estou na praia repleta de sol, que já é sábado e amanhã não há trabalho, por mais que ainda seja quinta-feira. Imageticamente é interessante; o leitor não perde nada se imaginar comigo, ou não perderia, já que já neguei a farsa que nem sequer comecei de verdade. A imagem da praia, suas areias, ainda me tenta: eu poderia ainda corrigir a última palavra, solitária, do texto anterior, mas não: ficará lá inalterada e, como os verdadeiros ressentimentos da vida, inalterável. E era mesmo de ressentimentos furiosos, ou a partir deles, que falava Thomas Bernhard, que morreu em 1989, salvo engano pela própria força e vontade, suicidado. Não eram os pensamentos mais adequados para um homem que pensa que está velho e que o caminho da velhice continua. Mas o leitor não se preocupe, não sou desses radicais, apenas penso e, no máximo, quase me faço perguntas. A falta que me faz, de verdade, o hálito salgado da praia. Não sou capaz de detestar a terra natal como esse senhor austríaco de que acumulei seis títulos, três traduzidos para o espanhol, dois para o português, um para o francês. As traduções em língua espanhola e francesa pertenceram à mesma pessoa, pelas marcas deixadas nos volumes, a caneta no sempre mesmo tom vermelho. Deles li apenas dois, que falavam de suicidas e suicídios. O autor, salvo engano, teria escolhido para si o mesmo fim. São coisas mesmo que era melhor ter pensado na praia; o mar e o sol me davam o contrapeso e o contraponto necessários. Mas o mar secou. Secou? Não. Mas se encontra distante demais; é mais forte a minha preguiça. A preguiça, aliás, é quase mais forte que as saudades. Praia haverá, é só uma questão de que a terra continue girando e os dias passem. Quando o mais lógico era desejar que tudo parasse, mas ainda assim que maravilhoso que isso acontecesse à beira da praia: eu poderia colocar sobre a mesa da barraca seis títulos de Thomas Bernhard, olhar muito para eles, a tarde toda, e dessa vez não ler nenhum. Não. Não sou capaz desse ódio entranhado pela origem. As esperanças malogradas ainda me agarram pelo pé e o resto do corpo tem preguiça. Mas como se sentia o leitor ou leitora original de quatro desses seis volumes? Leu em línguas estrangeiras livros de Thomas Bernhard quando não havia ainda, salvo engano, nenhuma tradução para o português do Brasil. Viajou. Durante as leituras marcou o livro como quem desejasse tatuar o corpo dormente de um amante. E prudentemente não assinou o próprio nome em parte alguma. Penso: quem leu pela primeira vez esses mesmos títulos já deve ter morrido e talvez tenha se matado. Os livros manuseados e alterados, encapados por segunda vez e marcados com sublinhados e anotações, foram vendidos a um sebo por herdeiros que queriam algum lucro fácil, para se livrar de uma lembrança dolorosa ou simplesmente porque precisavam de mais espaço numa casa que fizesse também parte do espólio. A luminosidade invasiva do sol faz falta nesse momento. O mesmo sol que me castiga na semana de trabalhador, os dias úteis de uma pessoa útil. De repente os ódios de Thomas Bernhard começam a parecer compreensíveis. Mas como seria possível sentir o mesmo ódio diante do movimento do mar? E se eu ficasse aqui durante muitas horas? Aqui: falo como se fosse uma verdade de agora estar diante do mar. Quase como se a companhia que desejo estivesse ao meu lado e estivessem os seus pés nas minhas mãos como no meu peito. Pois mesmo em solidão era preferível o sol e a praia. Agora mesmo, é noite. Quando eu ficar enfim diante dessas águas moventes posso querer ficar mais tempo do que aquele que convém e esquecer que um dia será de novo segunda-feira. Se fizesse isso durante horas sem fim ao ponto de as vibrações do oceano se tornarem as mesmas minhas e a minha própria pele, como a de um morto-vivo num filme, assimilar o seu verde peristáltico, será que nem então esse ódio não será mais que uma impressão e uma mera capacidade solidária de compreender? Terá sentido isso esse leitor ou leitora do passado de quem não vou saber nada além do seu gosto por livros encadernados em capas duras aveludadas e canetas vermelhas? Estará viva essa estranha pessoa? Ou sob quais forças terá perecido? Sob que incidente. Sob que mãos. Sob que areias.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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