Sobre Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

SIGNO-SINAL

Um dia vou morrer
Isso diz muito
Ou mesmo tudo
Pensamos mesmo a morte
Quando pensamos a morte
Que até esquecemos
Que mesmo pra pensar na morte
Ainda é preciso estar
Minimamente vivo
Um dia vou morrer
Isso é certeza
Tão certa quanto a filosofia
E a besteira
Um dia vou morrer
Até lá

SÍSIFO

Em trabalharmos esperamos
Que os dias sejam curtos
E que sejam eternos
Os domingos
Que não duram mais que os outros dias
Que apenas anunciam o retorno
Em trabalharmos contamos
As horas os dias as semanas
Como se o fim de um mês concluísse junto um ciclo
Como se

AMOR FATI

Há no samba um amor fati
Um carinho amargo maturado
Por aquilo que é como é
Ainda que não tenham lido
Nietzsche
(Que é difícil crer que soubesse dançar
Mesmo uma valsa)
E nem falem latim
Há no samba um amor fati
Marítimo e telúrico
Um apego desesperador
Às razões misteriosas
Do

ÁGUA, LÚPULO E CEVADA

A cerveja é um complexo composto químico
Nascido de um emaranhado entrançado
De uma viva colônia paciente e urgente
Uma mínima forma que domina o tempo
Do qual em determinado momento da história
O sr. Vicente Monteiro tirou seu sustento
Seu protesto e sua revolta social
A

Heliana Querino

O PEQUENO LIVRO DOS OLHOS

Para Heliana Querino
Uma amiga
Esses grandes olhos serenos de chuva futura
Esperançosos de ver o que será, por saber mesmo
As notícias distantes do futuro
Olhos com voz delicada do sertão
Voz de muitos dedos invisíveis mas sensíveis, voz
Sobretudo e primeiramente
De raízes tão antigas e

Duelo

Ser poeta
Perfeito
Preciso
Exato
Não se concretiza
Antes que um bardo
Pretenso e mais jovem
Nos jure de morte

Ornitologia

Amor
Mil vezes
Ou dez se tanto
Passou pela mera vida
Que o pássaro raro confundi
Com o pardal invasor
Que ainda assim tem
Sua cinza beleza
A vida hoje
A gaiola arrebentada
Que é de justiça
O céu muito vazio
Que é de liberdade
O coração muito sem nada
Que é de solidão
Negro

Belchior

Para Reginaldo da Silva Domingos,
O Metafísico, ou
Melhor,
O professor nosso
De melancolia
Meu caro amigo imenso
De eras tão distantes
A quem mesmo revelei
O nosso oculto judaísmo
De tirar os sapatos
Bem após a festa
Eu lhe digo simplesmente:
Como eu precisava
Rejuvelheci
Espalha pois a boa notícia e —
Manda lembranças

O Espelho

Ao fantasma de G. D.
Este homem
— Nascido no subúrbio nos melhores dias —
Diante de si
A própria foto
(Achava que era o pai e era ele mesmo destronado)
Vai forjar uma espada entre as pernas
Ou derreter uma já feita
À águia aguda pedirá os