UM DELITO CHAMADO APATIA

Para a psicanálise o sadismo é uma perversão, de origem sexual, que está ligada ao sofrimento e à humilhação que uma pessoa pode infligir à outra. Mas a psicanálise estende a noção de sadismo, para a perversão descrita por sexólogos, reconhecendo-lhe outras numerosas expressões mais disfarçadas, fazendo do sadismo um componente fundamental do caráter de um indivíduo. O objetivo do sádico é o exercício de domínio total sobre a vida de outra pessoa.

A sensação de dor provocada no outro produz no sádico extrema excitação, levando-o a um estado de gozo. Esse grau de perversão ganha ainda uma maior escala patológica quando o sádico tem o prazer de promover a tortura como um espetáculo público, a exemplo do imperador Nero que o fazia ao conduzir cristãos para serem devorados por leões na arena do Coliseu romano, diante da multidão. E nestes casos, o público assistente também é cúmplice de tal perversidade.

Na última segunda-feira, 28 de dezembro, em mais uma de suas transmissões gravadas por seus seguidores, o dito cristão católico-evangélico Jair Bolsonaro fez questão de publicamente ironizar sarcasticamente sobre os três anos de prisão e tortura sofridos pela presidenta Dilma Rousseff durante o período da ditadura militar dos anos 1960-1980. Sorrindo para as câmeras, Bolsonaro afirmou: “Dizem que Dilma foi torturada. Que fraturaram a mandíbula dela. Traz o raio-X para a gente ver o calo ósseo”.

Em nota, a presidenta Dilma registrou: “É triste, mas o ocupante do Palácio do Planalto se comporta como um fascista. E no poder tem agido exatamente como um fascista. Ele revela, com a torpeza do deboche e as gargalhadas do escárnio, a índole própria de um torturador. Ao desrespeitar quem foi torturado quando estava sob custódia do Estado, escolhe ser cúmplice da tortura e da morte, insultando as outras vítimas torturadas e mortas pelo regime militar”.

Este deplorável episódio me fez recordar um discurso do Papa Francisco em um encontro com refugiados vindos da Ilha de Lesbos, em 19 de dezembro de 2019, no Pátio do Belvedere. No discurso Francisco deixava claro que é preciso ter os olhos bem atentos, manter o coração aberto para assumir o compromisso imperativo de salvar cada vida humana: um dever moral que une crentes e não crentes.

O Papa acentuou: “Como não ouvir o grito desesperado de tantos irmãos e irmãs que preferem enfrentar um mar tempestuoso que morrer lentamente em campos de detenção dos líbios, lugares de tortura e de escravatura ignóbil? Como podemos permanecer indiferentes aos abusos e violências de que são vítimas inocentes? Como podemos passar ao lado, como o sacerdote e o levita na parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 31-32), tornando-nos assim responsáveis pela sua morte? A nossa apatia é um pecado!”.

É preciso comprometer-se seriamente. O que está sucedendo no Brasil acontece diante dos nossos olhos, fatos diariamente transmitidos pelas câmeras de diversos veículos de comunicação. E não basta apenas a denúncia ou o repúdio a todos estes fatos. É preciso uma solução eficaz contra tudo isso. Afinal, de uma forma ou de outra, todos somos responsáveis pelos rumos da nação: governadores, prefeitos, deputados, senadores, juízes, ministros de estado, trabalhadores, empresários, estudantes, religiosos. Estaremos todos cegos e surdos ou coniventes com este estado de coisas?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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