UM CONSERVADORISMO CÍNICO, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Passadas apenas três semanas da eleição presidencial, a produção de narrativas desastrosas advindas tanto do capitão eleito como de sua claque aliada, neste breve período de tempo, vem confirmar o que muitas análises políticas detectavam sobre a natureza do processo golpista instalado em 2016 no Brasil: o viés conservador fundamentalista.

Já em 2014 a narrativa golpista ganhava força e dimensão agressivas, orquestrada pela mídia hegemônica, em um espetáculo deplorável de ofensa pública na abertura da Copa do Mundo de Futebol pelo cinismo advindo dos camarotes de luxo do estádio mandando aos gritos a instituição presidência do Brasil na pessoa da presidente Dilma Rousseff “tomar no c.”.

Desde então essa narrativa cresceu em radicalismos preconceituosos por meio de expressões ameaçadoras às minorias e às liberdades civis e políticas brasileiras mediante o protagonismo encenado pelo capitão eleito em sua campanha. Por exemplo, no dia 21/10/18, uma semana antes da votação do segundo turno, ele narrou pela internet: “Vocês, petralhada, verão uma polícia civil e militar, com retaguarda jurídica, pra fazer valer a lei no LOMBO de vocês. Bandidos do MST, bandidos do MTST, as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo”. Ou seja, o exercício da força bruta pelo estado a todos os que se lhe opuserem. Um estado de violência, não de direito.

Novas declarações emergiram na cena pública, confirmando o aprofundamento do golpe. Primeiramente pode-se destacar a entrevista concedida pelo comandante do exército brasileiro ao jornal Folha de São Paulo no dia 11/11/18, na qual ele afirmava haver em 03/04 ameaçado o STF – Supremo Tribunal Federal – no caso de a votação do “habeas corpus” vir a garantir a liberdade do presidente Lula até o trânsito em julgado do seu processo. Afirma o general na entrevista: “Eu reconheço que houve um episódio em que estivemos no limite. Sentimos que a coisa poderia fugir ao nosso controle se eu não me expressasse. Me lembro, a gente soltou o post no twiter no dia 03 de abril, às 20h20, e no fim do jornal nacional William Bonner leu a nossa nota”. Qual a consequência deste post? O STF negou o “habeas corpus” a Lula, em um processo cujas provas razoáveis até o presente momento não apareceram, impedindo-o de concorrer às eleições presidenciais. O que dizer de um Supremo submisso à força das armas, em um estado que se prefigura como um estado de violência?

Outra declaração que chamou muita atenção foi a do futuro ministro da justiça, juiz implacável no processo contra Lula, condenando-o sem a apresentação de prova material razoável, conforme atestam vários juristas. Questionado na entrevista coletiva concedida em 06/11, sobre o braço direito do capitão eleito, o futuro ministro da casa civil Onyx Lorenzoni, integrante da bancada da bala, que admitiu haver recebido 100 mil reais em propina da JBS, o juiz afirmou: “Tenho grande admiração pelo Lorenzoni. Admitiu o erro e pediu desculpas”. Ou seja, o juiz sinaliza com esta sua narrativa a parcialidade com que julga procedimentos e de como agirá à frente do novo governo.

Por último, nesta semana, fomos achincalhados pela confirmação de algo que já vinha sendo construído durante a campanha eleitoral do capitão: o desmantelamento do sistema de saúde básico do qual um dos alicerces é o “Programa Mais Médicos”, que atende os milhões dos MAIS POBRES entre os pobres da população brasileira. Em junho de 2018, num vídeo publicado em sua rede social, o capitão fez circular a seguinte ameaça: “Em 2019, ao lado de vocês, vou dar uma canetada, mandando 14 mil médicos, lá de volta pra Cuba”. As ameaças não só se mantiveram, como se açodaram, num total desrespeito ao povo cubano e a seus profissionais. Nesta semana Cuba, soberanamente, anunciou a retirada dos seus médicos do Brasil.

A linguagem não é algo neutro. O alimento que sustenta o Ser é o logos. Como propõe Wittgestein, nossa linguagem delimita o nosso mundo, expressa aquilo que nós somos, pessoalmente e coletivamente. Pensar e ser são a mesma coisa. Portanto, no momento em que estas narrativas emergem de forma aberta, sem nenhum constrangimento de serem expressas em suas contradições e orquestrações, não podemos esperar um cenário promissor deste novo governo. É preciso criar novas palavras capazes de nos unir e conduzir a novas ações que consigam reparar os danos produzidos pelo “logos cínico” instalado na cena pública brasileira desta última quadra política. Dar um salto existencial em busca de um novo tempo-espaço humanizado pela solidariedade e pela responsabilidade diante da vida de todos os viventes.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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