Um aforismo respirável de Pascal

Mas como é que se explica saudade?
Como é que se explica a coisa
Que nunca tem sentido e sempre tem razão?
Como é que se explica o ar quando se respira
E como é que se explica quando falta?
Surgiu feito uma planta inesperada;
Feito tudo que sempre foi desde que surge;
Surgiu e se instaurou na memória de antes;
Invadiu o tempo que não lhe pertencia.
Pois que a terra já esperava a raiz repentina;
Pois que a raiz já nasce familiarizada com a terra.
Eu mesmo já lutava numa antiagricultura,
Na permanente vigilância para que nada brotasse,
Para que não mais houvesse
Secretos investimentos em formas improváveis.
Surgiu. Como se explica? Não sei.
Surgiu. E desde então esteve sempre lá.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.