TUDO É RELIGIÃO?

Domingo, 04, em conversa com uma grande amiga, intelectual e militante política, voltando nas lembranças do tempo, ela recordou a época que ministrava ensino religioso para crianças e jovens adolescentes na região do ABC paulista nos anos 1970. Todos os alunos eram filhas e filhos de trabalhadores metalúrgicos. Era período natalino e minha amiga professora perguntou para a turma se conseguiria dizer onde é que estava a judia Maria quando o Espírito Santo lhe anunciou que seria a mãe de Jesus. Uma menina levantou-se e respondeu: “Maria estava em casa, esperando José voltar do trabalho na fábrica para lhe comunicar a novidade”.

Só que a garota não parou por aí. Perguntou a professora se poderia ela também fazer-lhe uma pergunta. Com o pleno consentimento da mestra, a menina indagou: “Professora, por que Deus também não enviou o Espírito Santo para alertar outras mulheres judias de que os nazistas alemães estavam construindo um campo de extermínio em Auschwitz e assim ter livrado da tortura e do genocídio milhões de judeus? Onde estava Deus naquele momento?”.

Ao fim, minha amiga comentou comigo: “Alexandre, não é interessante? A religião situa-se no coração da sociedade, portanto, na cultura. As manifestações e estímulos vindos de outras realidades sociais, econômicas, políticas e culturais afetam diretamente esse coração, o movimento da religião conectado com esses contextos. Mas, ao mesmo tempo, como a religião tem o seu próprio ritmo, dialeticamente ela exerce sua influência nas outras áreas da vida humana. A pergunta que te faço, diante da banalidade do mal do tempo presente, é: Onde Deus está? E por que explode o sentimento religioso nesse Brasil neofascista bolsonarista?”.

No dia 03, sábado, o prefeito de Belo Horizonte-MG, Alexandre Kalil, reagiu prontamente à decisão monocrática do recém-empossado ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Kássio Nunes Marques, de liberar missas e cultos religiosos em todo o país, no momento em que o Brasil atinge seu pior momento no avanço da pandemia, com uma previsão de mais de 100 mil mortess somente neste mês de abril. O prefeito afirmou textualmente que “em Belo Horizonte acompanhamos o Plenário do Supremo Tribunal Federal: o que vale é o decreto do prefeito. Estão proibidos cultos e missas presenciais”. Afinal, o Estado democrático de direito é laico, ou seja, totalmente separado e desvinculado de qualquer  credo religioso, não podendo o poder civil submeter-se ao poder eclesiástico.

Também no mesmo dia, abundou nas redes sociais o autoproclamado cristão Roberto Jéferson ensinando, de forma bem didática neste Tempo Pascal, como cristãos devem enfrentar por meio de violência armada (diga-se, milícias e grupos paramilitares) as polícias estaduais, por ele denominadas de “satanás”, que porventura queiram fechar seus templos, alimentando a lógica bolsonarista de enfrentamento a prefeitos e governadores que estão responsavelmente adotando o distanciamento social como estratégia de combate à covid-19. Não se sabe quantos outros vídeos foram produzidos e distribuídos pelas milícias digitais bolsonaristas com este mesmo conteúdo de incentivo político à violência.

No dia 05, segunda-feira, a Câmara Federal promoveu um debate sobre o projeto do deputado Lincoln Portela (PL-MG) que visa criar o Ensino Domiciliar (Homeschooling), sob a responsabilidade dos pais. Diversas questões surgiram no debate: Quem serão os professores? O pai e a mãe trabalhadores? Em que horário farão este ensino, à noite, depois do jantar? De que forma poderão preparar as aulas? Como vão poder dominar e se atualizar diante da multiplicidade de conteúdos? No caso de tutores pedagógicos, quem os contratará e pagará pelo seu trabalho? Quem serão estes tutores, profissionais habilitados em cada área? Como fica a questão da merenda escolar?

A Constituição Federal, lei máxima de nosso país, estabelece que a educação é dever do Estado, com a obrigatoriedade do ensino fundamental e médio para indivíduos dos quatro aos dezessete anos. O Ministério Público já vem processando famílias que descumprem este preceito constitucional, ao não levarem seus filhos para as escolas, por crime de abandono intelectual.

“Implantar a educação domiciliar, de forma abrupta, neste momento absolutamente inadequado da pandemia, é ignorar as vozes que se erguem a favor da infância e da juventude, e de toda a trajetória de construção das legislações que envolvem a educação no Brasil”, afirmou Maria Helena de Castro, Presidente do Conselho Nacional de Educação.

Para a deputada Ângela Amin (PP-SC), a partir de suas pesquisas a documentos de pedagogos e psicopedagogos, o isolamento social ocorrido nesse período da pandemia trouxe um prejuízo muito grave para as crianças pela não socialização, além do não alcance do conhecimento.

Mas para o pastor presbiteriano e ministro da educação, Milton Ribeiro, favorável a implantação imediata da educação domiciliar, a socialização da criança, pela falta de vivência escolar, pode ocorrer na igreja. Por que não?”. E aqui está o busílis. A ala fundamentalista religiosa do bolsonarismo ao desmantelar a estrutura educacional brasileira, visa claramente ampliar a presença e a influência de suas igrejas na formação dessas crianças e juventudes que estarão órfãs da educação laica e socialização plural que deveria ser dever do Estado brasileiro em relação aos seus cidadãos. Uma tática muito sutil.

Por ser complexo, é muito importante que os saberes se envolvam e digam suas palavras no entendimento do evento religioso contemporâneo. Por meio da pluralidade dos saberes consegue-se mais luz para o entendimento desse fenômeno. Em muitos textos publicados(https://segundaopiniao.jor.br/author/alexandre-aragao/), tenho tido a oportunidade de externar diversas reflexões acerca do fato religioso e sua relação com a política. Ocorre-me por ora grafar, para dialogar com a pergunta acima dirigida a mim pela amiga mestra militante, que o fenômeno religioso tem a ver, entre outras coisas, com preenchimento de vazios.

Imaginemos uma multidão de pessoas sedentas por alguns dias. O que farão quando as colocarem diante de uma fonte de água cristalina? Com voracidade, sem pestanejar ou pensar, correrão para saciar-se. A tática políticaportanto, é criar esses vazios via estrutura do sistema capitalista, verdadeiros buracos, e depois oferecer com que preenchêlos temporariamente. Então fica fácil a conquista e o domínio das populações.

O teólogo jesuíta João Batista Libânio afirma em seu livro “O paradoxo do fenômeno religioso no início do milênio” que se os humanos não conseguem fazer com que a vida na Terra seja justa, livre e fraterna, então resta às pessoas carentes confiar em milagres do Céu, nas religiões que exorcizam os diversos demônios, para se embevecerem nos ambientes carismáticos e pentecostais, com suas versões atualizadas nas tradições católicas e evangélicas.

Constata-se, como reação à trituração dos países da periferia pelos países ricos em Davos e pelo neoliberalismo econômico sem alma, a adesão religiosa aumenta como tábua de salvação, consolo provisório e imediato, única via de esperança. Para ampliar o buraco da frustação, o capitalismo aguça violentamente o desejo de consumo de bens conspícuos. O desejo insaciável de possuir cada vez mais esbarra com duas fontes de desilusão: 1) impossibilidade econômica do consumo por parte dos indivíduos empobrecidos; 2) e vingança contra aqueles poucos possuidores. Diante dos monstros do capitalismo financeiro como o desemprego estrutural, achatamento salarial, concentração de renda e riqueza, necropolítica, especulação financeira, violência do Estado contra populações empobrecidas e da cultura hiperindividualista, a maioria das pessoas impotentes, diante destes monstros, ou mergulham no cinismo (hedonismo, narcisismo, relativismo e permissividade) ou adentram acriticamente uma fé religiosa. Esta é, muito provavelmente, uma das razões da explosão da religião no Brasil.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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