TOCARAM FOGO NO ARRAIAL

Hoje são 24 de junho. No calendário cristão dedica-se à festa de João Batista, primo de Jesus de Nazaré. João tornou-se um pregador itinerante entre os judeus de sua época, advertindo-os a serem justos e honestos para evitarem a ira de Deus. Para a cultura semita, um nome, muito mais que um sinal de identificação, carrega em si um significado com referência a sua relação com a deidade. “Jochanan” ou “Yohanan” carrega, portanto, uma definição como sendo “Alguém que abençoa”, um “Sumo Sacerdote”. Assim, João Batista é reconhecido como o precursor do cristianismo.

Trazida de Portugal para o Brasil, a festa de São João foi incorporada aos costumes e culturas indígenas e afro-brasileiras, ganhando particular expressão nos estados brasileiros da Região Nordeste, pelo fato de no mês de junho ocorrerem chuvas nas lavouras, possibilitando aos seus habitantes fazer várias colheitas, principalmente a do cultivo do milho do qual produzem pratos típicos como canjica, pamonha, munguzá, farta variedade de bolos de milho, pipoca, milho cozido e assado na brasa.

O local onde ocorrem as festas juninas nordestinas é o Arraial, um largo espaço ao ar livre, todo decorado com os temas típicos e fogueiras, no qual barracas são erguidas e onde acontecem as danças dos forrobodós, dos arrasta-pés e das quadrilhas, juntamente com a queima de fogos de artifício. As cidades de Caruaru (PE) e Campina Grande (PB), no agreste nordestino, destacam-se por serem consideradas como os locais onde se dá a maior concentração de pessoas no Brasil a celebrar a brincadeira.

A festa de São João deste ano conta com um ingrediente político da mais alta importância. Em nosso último artigo “Nada é por acaso”, apontamos para o Ministério da Saúde como o local onde fortes indícios de interesses inescrupulosos estarem se desenvolvendo, desde a implantação da política de produção em altíssima escala e distribuição, a partir de 2020, da cloroquina como um suspeitíssimo “tratamento precoce” (ou seja, antecipado) para o combate à Covid-19, tendo como o maior defensor e garoto propaganda Jair Messias Bolsonaro, até às denúncias de irregularidades em hospitais federais no Rio de Janeiro praticadas por organizações sociais (OS) envolvidas em ações fraudulentas.

Foram estes fatos acima, em virtude da inação e omissão de instituições republicanas que deveriam realizar as devidas investigações, como por exemplo, a Procuradoria Geral da República (PGR), que motivaram a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), no Senado Federal, com o objetivo de encontrar a essência da verdade obliterada pela aparência dos discursos, propagandas e narrativas construídas em torno dessas tramoias e cambalachos inescrupulosos, que já ocasionaram a morte de mais de meio milhão de brasileiros e brasileiras até o presente momento.

A CPI do Genocídio desenvolveu duas linhas de investigação. No primeiro momento trabalhou na busca de obtenção de provas dos crimes deliberados contra a saúde pública, praticados por autoridades federais no combate à Covid-19. Tendo já obtido uma farta documentação comprobatória destes delitos. Sua segunda linha de investigação se dá pela obtenção de provas documental e testemunhal da existência de forte esquema de corrupção (passiva e ativa) e ganhos ilícitos no desenvolvimento dessas suspeitas políticas de enfrentamento da pandemia. O lema adotado nessa segunda fase investigatória é: “Seguir o caminho do dinheiro”.

Ontem, 23/06, pela manhã, o deputado bolsonarista Luís Miranda (DEM-DF), pelo motivo de haverem vazado um áudio de uma conversa sua com o Ministério Público Federal (MPF), foi aos meios de comunicação social tornar pública a denúncia que corria em segredo de justiça numa investigação nas mãos do MPF e do Tribunal de Contas da União (TCU). Em seu pronunciamento às televisões, o deputado Miranda disse ter procurado, em março deste ano, Jair Messias Bolsonaro para alertá-lo do superfaturamento – 1.000% a mais – do contrato intermediado por uma empresa na compra das vacinas Covaxin. O valor original do medicamento é de US$1.34 tendo sido faturado no valor de US$15.00. Ou seja, largaram o patamar da rachadinha para almejarem a rachadona. Sintetizou o parlamentar em suas declarações: “Em março, o presidente da República ficou ciente de que havia crime naquilo”.

Ao final da tarde, em resposta às denúncias do deputado bolsonarista, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), cometeu pelo menos dois atos falhos em sua manifestação à coletiva de imprensa. Primeiramente, Lorenzoni disse que Miranda havia traído Jair Bolsonaro. Ora, ninguém trai alguém com mentiras, porque mentiras não se sustentam, são fáceis de derrubar. Portanto, tudo indica que a partir do espanto público de Lorenzoni, há muita verdade naquilo que foi manifesto pelo deputado em suas declarações. É preciso agora que a CPI faça com muita competência a devida arguição na próxima sexta-feira, 25.

O segundo ato falho cometido por Lorenzoni foi a ameaça pública dirigida ao parlamentar. Disse o secretário na coletiva de imprensa: “Deputado Luís Miranda, Deus tá vendo tudo. Mas o senhor não vai se entender só com Deus. Vai se entender com a gente também”. Quem é “a gente”? Há mais traídos nesse pacote do que o presidente da República? Trata-se de um grupo, uma organização? E o que significa: “Vai se entender com a gente”? Lembrando que “vai se entender com a gente” é um reconhecido jargão miliciano. Logicamente, a partir de agora, tudo o que vier acontecer quanto à segurança física do deputado Miranda, e de seus familiares, recairá na responsabilidade de quem o está ameaçando publicamente, ou seja, Lorenzoni e sua gente.

Importante registrar que somente em outubro de 2018, quatro anos após, Onyx Lorenzoni, depois de se ter tornado público pela delação premiada da empresa JBS, homologada em maio de 2017, confirmou haver recebido Caixa Dois daquele grupo empresarial para sua reeleição em 2014. Na época ele afirmou que o mais importante era “se resolver com Deus”. Mas agora está exigindo e ameaçando o deputado Miranda a “ter de se entender com a gente”. De fato, diferentemente dos R$200 mil do Caixa Dois em 2014, para um montante de R$1,6 bilhão (valor anunciado pelo deputado) do superfaturamento da Covaxin, não dá para resolver apenas com Deus. Parece haver muito mais gente envolvida nessa trama.

Isso me fez lembrar uma passagem que a minha avó Cecília me contava. Dizia ela que lá pelos anos 1930, num arraial em Santa Cruz do Capibaribe (PE), um jovem desavisado soltou um rojão que acabou incendiando o arraial e deixou muita gente chamuscada: “Eita menino danado, tocou fogo no arraial e acabou com a quadrilha!” dizia ela. Fiquemos de olho na CPI.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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