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The Strokes: um novo álbum para um “novo anormal”

Nosso período de pandemia certamente gerou (e continua a gerar) diversos trabalhos saídos dos infinitos sentimentos/contextos psíquicos e sociais oriundos do isolamento. Artistas descobriram diversas inspirações novas; outros se aventuraram por outras vertentes e paragens – artísticas ou não; no ramo da economia, empresários quebraram, outros iniciaram um novo negócio; muita gente perdeu o emprego, mas muitos (re)começaram do zero e deram a cara à tapa pra virar empreendedores, e muito mais. Muitas histórias novas terminaram; outras histórias velhas (projetos na gaveta) finalmente viram a luz do dia, e assim seguimos nessa onda de renovação e muita, muita inovação.

O importante é que, não importa se na vida ou na arte, a vazão dada ao poder criativo foi lindamente imensa – talvez menos para este que vos escreve, cujo ostracismo da escrita vem sendo quebrado só agora! Mas no meu papel de observador, acredito que um dos bons exemplos que dialogam muito bem em sua proposta musical com “estes tempos” é o novo álbum do The Strokes, banda nova iorquina que aprendi a apreciar recentemente.

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Da esquerda para direita, Nick Valensi (guitarra), Julian Casablancas (voz), Albert Hammond Jr (guitarra), Fabrizio Moretti (bateria) e Nikolai Fraiture (baixo)

Seu novo trabalho de estúdio não poderia ter outro nome: The New Abnormal (ou “O Novo Anormal”, em tradução livre). O álbum é o primeiro desde Comedown Machine, marcando a quebra de um hiato criativo que durou quase 8 anos, já que este último foi lançado lá no distante 2013. Produzido antes da pandemia da Covid-19, foi lançado no dia 10 de abril de 2020. Teria a banda profetizado muitas das temáticas que hoje nos rodeiam?

Pra quem não conhece, a banda é altamente consagrada no mundo, tendo estourado no início dos anos 2000 passeando com maestria pelo post-punk/indie rock/rock de garagem, principalmente a partir de alguns dos seus maiores sucessos: “Last Nite”, “Reptilia” e “You Only Live Once”, que se tornaram instantaneamente grandes hits radiofônicos. Em sua formação, temos a inconfundível voz de Julian Casablancas, o baixo de Nikolai Fraiture, o baterista brasileiro/radicado nos EUA Fabrizio Moretti e as guitarras de Nick Valensi e Albert Hammond Jr.

A banda tornou-se “cult” o suficiente para sentenciar um tipo de estilo bastante atemporal, sem muito compromisso com estéticas elaboradas mas que acabou por cravar sua própria estética. Bastante calcados num rock “de garagem” mesmo, sem nenhum virtuosismo ou comprometimento com notas “certinhas” ou muitos arranjos elaboradíssimos, a banda faz à sua maneira uma aula de ruído, flerte com a música eletrônica, rebeldia e um quê de psicodelia. Como disse acima, aprendi a gostar do The Strokes justamente por ser uma banda que, em sua relativa simplicidade sonora, acaba gerando uma complexidade que – felizmente – não foge da diversão prazerosa de se ouvir um som que nos remete a uma boa e velha banda de um bom e velho rock rebelde.

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Capa do álbum “The New Abnormal” (2020)

Mas vamos à obra. O disco abre o play com a gostosíssima “The Adults Are Talking”. A voz de Julian Casablancas permanece numa região confortável, sem subir muitas notas, quase num sussurro em muitos momentos. A letra é meio anárquica, sobre pensamentos conflitantes dentro de si mesmo, mas chamando atenção implicitamente para a atualidade do “novo anormal”, como no interessante trecho “When you’re trying hard to do the right thing / But without recompense / And then you did something wrong and they said it was great” (“Quando você tenta muito fazer a coisa certa / Mas sem recompensa / E aí você faz algo errado e eles dizem que foi ótimo”). Não lembra tanto as discussões atuais sobre cloroquina-máscaras-distanciamento que ninguém defende e todo mundo defende?

Passando pela baladinha “Selfless”, chegamos na terceira faixa, “Brooklyn Bridge To Chorus” – particularmente, minha favorita do disco. Aqui nela se vê sim a genialidade de trazer um rock dançante e que baila brilhantemente de rosto colado com a Disco Music, pois permeia em toda a canção uma safadíssima e pegajosa frase de teclado que faz você se jogar na pista de dança nem que não queira, e nem que a própria pista não exista! A letra também traz uma semvergonhíssima metalinguagem: “And the eighties bands? / Where did they go? / Can we switch into the chorus right now?” (“E as bandas oitentistas? / Pra onde elas foram? / Podemos chegar ao refrão agora?”). Se der preguiça de ouvir o disco todo (o que não recomendo), pode pular logo pra ela!

“Bad Decisions” também é bem legal pra sacudir o esqueleto – aliás, até minha esposa comentou comigo o quanto esse disco deve estar muito legal pra se ver sendo executado num show ao vivo. O divertidíssimo clipe da canção (assista aqui) traz uma estética total de anos 1970. Os mais desavisados podem inclusive, ao assistir sem nunca ter ouvido falar da banda, achar que eles pertencem àquela década. Enfim, genial e muito criativo!

Aliás, por falar em criatividade, a capa do disco traz a obra “Bird on Money”, do artista novaiorquino neo-expressionista Jean-Michel Basquiat (1960 – 1988), amigo e contemporâneo de importantes nomes como Andy Warhol e namorado de uma cantora ainda não muito conhecida à época chamada… Madonna.

O disco dá uma desacelerada com “Eternal Summer” e “At The Door” (cujo videoclipe também é uma emocionante obra de arte de animação – assista aqui), mas não perde o clima reflexivo ao qual seu título se propõe. Na sequência final, “Why Are Sunday’s So Depressing” já começa fazendo jus ao título com o verso “I sing a song, I paint a picture / My baby’s gone, but I don’t miss her / Like a swan, I don’t miss swimming / All my friends left, and they don’t miss me” (“Eu canto uma canção, pinto um quadro / Meu amor se foi, mas não sinto falta dela / Como um cisne, não sinto falta de nadar / Todos os meus amigos foram embora, e eles não sentem minha falta”).

Pra finalizar a audição, fechamos com as tristinhas “Not The Same Anymore” e “Ode To The Mets”, que encerra o disco – e sua proposta temática – com o excelente trecho “The only thing that’s left is us / So pardon the silence that you’re hearing / It’s turnin’ into a deafening, painful, shameful roar (“A única coisa que sobrou fomos nós / Então perdão pelo silêncio que você está ouvindo / Ele está virando um ensurdecedor, doloroso e envergonhado rugido”).

Recomendadíssimo (assim como toda a discografia do The Strokes), The New Abnormal traz um quê melancólico e introspectivo nas letras mesmo nas faixas mas agitadinhas, resgatando muito das raízes inventivas e do despretensioso tom “de garagem” que dialoga com muitos de seus melhores discos anteriores, mostrando uma banda que parece não ter tempo ruim pra esse tal novo normal/anormal.

 

Te vejo no próximo play!

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: [email protected]

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