TERRIVELMENTE EVANGÉLICOS, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Na Câmara Federal, assim como os ruralistas e os membros da bancada da bala, a quase totalidade dos membros evangélicos apoia o governo Bolsonaro. A Frente Parlamentar Evangélica é composta por 195 deputados federais – 38 % do total da Câmara – entre os quais o deputado ator-pornô Alexandre Frota (PSL-SP), o defensor da tortura deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), a deputada Benedita Silva (PT-RJ), o líder do MBL deputado Kim Kataguiri (DEM-SP). No ato de eleição e posse da diretoria, em 27 de março de 2019, o presidente empossado deputado Silas Câmara (PRB-AM) ressaltou que “a Frente Parlamentar Evangélica existe para defender nossas bandeiras em defesa da vida e da família e dos nossos princípios judaico-cristãos”.

Diante do assalto ao Poder pela direita brasileira perpetrado com o Golpe de 2016, a bancada evangélica inverteu a sua postura de ação política. Outrora na defensiva, lutando para barrar as pautas progressistas democráticas, agora vai avançando rapidamente com suas bandeiras restritivas conservadoras. Dessas pautas pode-se destacar: a não criminalização da homofobia e a preservação exclusiva do casamento monogâmico formado por macho e fêmea; a defesa do endurecimento da legislação anticrime e das escolas sem partido; pelo fim da ideologia de gênero e contra o direito da mulher ao aborto; a liberalização da posse e do porte de armas.

A igreja que mais elegeu parlamentares foi a Assembleia de Deus; em segundo lugar aparece a Universal. Esta é uma das maiores empresas religiosas do país, possivelmente o mais representativo grupo neopentecostal brasileiro, com 6.000 templos e quatro milhões de fiéis espalhados por todo o Brasil. Um dos braços de internacionalização desta organização é a TV Record, cujo presidente é o bispo Renato Cardoso, genro do presidente do Grupo Universal, Edir Macedo.

Por outro lado, desde maio de 2019, correndo na outra margem do rio, está a Frente Parlamentar Mista Católica Apostólica Romana, composta por 206 deputados federais, entre os quais o novamente deputado ator-pornô Alexandre Frota (PSL-SP), os deputados comunistas Daniel Almeida (PC do B – BA) e Orlando Silva (PC do B – SP), que tem por objetivo defender princípios doutrinários da Igreja Católica Apostólica Romana: “entendemos ser necessário que as Casas do Congresso criem uma Frente Parlamentar com intuito de defender o que preconiza a Bíblia Sagrada”, conforme o requerimento de instituição da referida frente. A sua primeira grande ação foi no campo simbólico ao consagrar, no Palácio do Planalto, em rede de televisão, o Brasil ao imaculado coração de Nossa Senhora de Fátima, colocando o Capitão no mesmo patamar de João Paulo 2 em relação à proteção de Maria às suas vidas, nas palavras do deputado Eros Biondi (PROS-MG). Entre as associações religiosas católicas presentes ao evento e apoiadoras de Bolsonaro estavam Rede Vida de Televisão, Fazenda Esperança, Orionitas (Filhos da Divina Providência), Rede Canção Nova, Gospa Mira TV, Educadoras de Santa Marcelina, Irmãs de Madre Teresa, entre outros.

Na última quarta-feira, em plenos debates da reforma da previdência e após haver defendido pelo menos por duas vezes a legalização do trabalho infantil, o Capitão anunciou no culto semanal que a bancada da bíblia realiza na Câmara que “dos juízes que pretende nomear para o Supremo Tribunal Federal (STF), um deles será terrivelmente evangélico, afinal o Estado é laico, mas nós somos cristãos”. Na sexta-feira, dia 12, ao lado de Valdemiro Santiago, o dono da igreja Mundial do Poder de Deus, voltou a defender em transmissão pelas redes sociais o voto impresso (como se sabe, de fácil adulteração pelos poderes políticos locais) além de anunciar o filho como próximo embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

Para Maquiavel, o objetivo de todo príncipe é o de reduzir seu povo à obediência. Em seus Discursos, analisa a religião como ferramenta de dominação, explorando-a a partir dos seus efeitos práticos de despertar o MEDO e o AMOR dos cidadãos em relação aos chefes de Estado e ao status quo. Para o florentino, a religião ensina a respeitar e a obedecer as regras políticas a partir do ensinamento religioso, assumindo tanto o procedimento coercitivo da disciplina e hierarquia militar, quanto o caráter persuasivo dos condicionamentos pedagógicos cívicos para a produção de pensamento único. O organismo político, ao utilizar-se da religião como forma dominação popular, torna-se capaz de levar o povo a TEMER a desobediência do Estado como se fosse uma OFENSA A DEUS, uma vez que o mandamento divino contém uma eficácia maior para submeter os humanos.

O uso da religião como dominação é estratégico uma vez que fazê-lo por meio da força resultaria em algo provisório, criando um movimento de reação por parte da população. Com o uso da religião a MINORIA consegue a obediência necessária, garantindo à comunidade política coesão e duração, porque a religião fundamenta-se no TEMOR DE DEUS. Portanto, enquanto para a minoria dominante a religião é um instrumento político, meio eficiente para submeter os dominados à obediência, para a maioria dos crentes ela representa e contém o TEMOR SAGRADO que os faz respeitar os preceitos legais – reforma da previdência, reforma trabalhista, trabalho infantil, continência à bandeira estadunidense, liberação da violência etc. – como se fossem mandamentos divinos.

Como disse Maquiavel, a religião é a paixão útil que existe para alimentar o amor civil pelo Estado, mas não representa um patrimônio de verdade. Entre a verdade e a religião não há uma medida comum. Dominadores e dominados conhecem a religião de modo diferente: para o Príncipe ela é apenas útil; para o povo ela significa a exteriorização de um mandamento divino. Daqui dá para imaginar o que será a ação de um ministro do STF “terrivelmente evangélico” indicado pelo Capitão.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.