Tércia Montenegro – impulsos artísticos em plena luz



 

Nossa entrevistada é Tércia Montenegro – professora, escritora e fotógrafa. De curiosidade implacável e com todas as  escolhas pautadas por paixões, é a mulher que realizou os sonhos da menina que foi.


O ano é 1986, onde morava e o que fazia a menina Tércia Montenegro?

Morava em Fortaleza e tinha o estudo como um tipo de diversão, por assim dizer. Sempre adorei ler; os livros me faziam descobrir coisas, e eu tinha uma curiosidade implacável (que espero não ter de todo perdido). Brincava muito de ficção inventando histórias, fosse através de desenhos ou de pequenos teatrinhos com bonecos. Também me sentia perfeitamente feliz na natureza, perto de bichos e plantas.

O ano é 2020, Tércia Montenegro, professora, escritora e fotógrafa, me fala um pouquinho sobre esta mulher. 

A mulher que sou realizou os sonhos da menina que fui. Porque todas as minhas escolhas foram pautadas por paixões que desde cedo se manifestaram: os livros e os encontros com o mundo, com seus aprendizados. Sou professora do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará, e é claro que não poderia ter melhor ambiente para dialogar sobre textos e idiomas. Como escritora, realizo meus impulsos artísticos principais – e, creio, também uso as narrativas como modo de investigar a existência. Como fotógrafa, escrevo com essa outra ferramenta mágica, a luz, e aí capturo o que as palavras não alcançam. Acho muito importante trabalhar com mais de uma linguagem na arte; amplio os meus horizontes e fujo de fórmulas, através dessa estratégia. 


Como define sua escrita e quais as primeiras influências literárias?

Sou uma escritora de tendência realista, que gosta de sondar o universo íntimo dos personagens, descobrir suas tramas e segredos. Minha grande influência foi Lygia Fagundes Telles, autora que até hoje me fascina. Quando li o seu Antes do baile verde, aos 12 anos, percebi um novo jeito de escrever contos, de contar histórias. Ela é uma grande mestra, com quem continuo a aprender a cada releitura.

 

Foi difícil publicar o primeiro livro?

Comecei a escrever ficção na adolescência, e as primeiras publicações foram contos que divulgava em jornais de Fortaleza. Quando entrei no curso de Letras, estava com meu primeiro livro pronto, O vendedor de Judas, que foi lançado inicialmente pela Alagadiço Novo, da Universidade Federal do Ceará. Este já tinha sido um livro selecionado pela Funarte em 1997, no projeto Oficina do Autor, então não foi muito difícil publicá-lo. A partir de sua segunda edição, ele passou a ser impresso pela Demócrito Rocha.


Uma dica, conselho ou recomendação daria para os iniciantes?

Leia muito. Mas leia o que há de melhor. Um(a) escritor(a) só se constrói a partir de modelos que são introjetados por leituras. É um processo que vai se firmando no inconsciente e por isso se torna eficaz. Estratégias racionais, dicas técnicas que tanto encontramos disponíveis hoje servem muito mais para a hora da revisão e dos ajustes no texto.


Existe um capítulo, trecho ou frase favorita ou que mais te marcou dentre os seus livros já publicados? Conta.

Vou citar um trecho do meu mais recente livro, o romance Em plena luz, que foi publicado pela Companhia das Letras em 2019. É o seguinte: 

“Somos todos sobreviventes de alguma coisa”, eu disse a Igor e Alícia, logo que voltei da viagem. Mas recebem esse título os que estiveram por um triz – ou souberam disso, deram-se conta de estar inteiros; perceberam com espanto a própria respiração enquanto ao seu lado trouxas compridas se largavam na poeira, e eram pessoas aqueles rolos de pano nas posturas esdrúxulas, caídos como se um caminhão houvesse perdido pelo caminho a carga que ia na caçamba. Os que podem acordar nesse tipo de cenário formulam a palavra milagre, é a primeira que pronunciam, muito antes de horror, desgraça. É a palavra egoísta de quem se salvou.

 

O que te alegra e o que te angustia quando imersa na escrita? Você tem algum ritual de preparação?

Não tenho rituais, exceto pela necessidade de silêncio e privacidade. Em geral, a escrita é um processo de alegria e entusiasmo. Posso ficar angustiada quando não acho a palavra certa, às vezes – mas aprendi a relaxar e adiar escolhas cruciais. Não insisto, quando a fluidez acaba; em outro momento, ela voltará.


Quando se fala em Literatura Cearense, qual a primeira coisa que vem a tua cabeça?

O nome de Rachel de Queiroz, autora admirável não só pela qualidade de texto, mas por suas atitudes pioneiras. Pude mergulhar bastante na vida e obra dela para escrever a biografia Rachel: o mundo por escrito (ed. Demócrito Rocha), e essa experiência fez com que eu a admirasse por diversos aspectos.

 

  • Em que outra época gostaria de ter vivido?

Não sei se gostaria de ter vivido numa época anterior, porque historicamente a situação das mulheres sempre foi pior. Quanto ao futuro, não há garantias sequer de que a humanidade continue a existir. Então, acho que estou bem no meu século.

A palavra que você mais e a que menos gosta? Por quê?

Cada palavra que escolho é a de que mais gosto na ocasião – porque me permite dizer o que preciso ou pretendo. As palavras que repudio são as que deixo de usar, às vezes por razões sonoras, rítmicas; às vezes, simplesmente por associação com temas que me desagradam no momento.



 

    • Politicamente, eu sou… uma pessoa em permanente exercício de desconfiança.

    • Quem você ressuscitaria (não vale parente) –  Guimarães Rosa

    • O livro que já li várias vezesLavoura arcaica, de Raduan Nassar, Dom Quixote, de Cervantes, Amryk, de Ana Miranda, O homem sem qualidades, de Robert Musil… Gosto muito de reler. Todo reencontro é ainda melhor que o primeiro contato, quando se trata de uma coisa boa.
    • Eu me acalmo com… meditação, banho, crepúsculo, dança.

    • Eu me irrito com… barulhos altos.

    • A emoção que me domina é a tranquilidade, em geral.

    • Um dia ainda vou viajar muito mais do que já planejei (risos).
  • Existem heróis? Qual o seu? Já encontrei inúmeras pessoas praticando atos de heroísmo cotidianos, seja no resgate de um animal, na proteção a uma árvore… ou seja simplesmente salvando a própria vida, em casos extremos.
    • Religião para mim é algo que não se confunde com espiritualidade.

    • Dinheiro é um trampolim. O mais importante é saltar a partir dele.

    • A vida é um mistério com muitas ironias.

    • Se você tivesse o poder absoluto para mudar qualquer coisa, o que mudaria? Extinguiria todo e qualquer tipo de indústria bélica. Os instrumentos de violência são a grande vergonha da humanidade.


  • Quem você gostaria de ser?

Gostaria de ter a capacidade de fazer “estágios” nas vidas alheias, para compreender exatamente como é viver de um jeito, de outro, de outro ainda… Creio que se cada pessoa tivesse a chance de um rodízio assim, a empatia levaria o mundo à paz. Talvez a ficção, no fundo, seja um meio de exercitar essas alteridades – mas é claro que existem limites, porque o real sempre vai ultrapassar o imaginável.


  • Não perco uma oportunidade de… rir. Digo, como o Buñuel, que cada dia sem uma gargalhada é um dia perdido.

  • A solidão e o silêncio são… meus combustíveis.

  • O Ceará é… o meu principal território de afetos.

  • O ser humano vai… continuar repetindo os mesmos erros até evoluir.

  • Minha mensagem é…viva e deixe viver!

 

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, escritora, pesquisadora, coordenadora de Cultura em SegundaOpinião.jor Um cronópio num mundo repleto de Famas. Metade de minha alma tem quinze, a outra, duzentos anos.

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