Tempos hobbesianos

NESTE SETE DE SETEMBRO temos um território e um povo submetido a um governo de direita, eleito com medo de participar de debates públicos e televisivos ao vivo, em 2018 durante o processo eleitoral, para não apresentar ao eleitorado brasileiro sua incapacidade intelectual bem como sua escória vocabular e visão autoritária do poder. Afinal, para ele, os e as jornalistas são “bundões”, exceto Alexandre Garcia: o importante é encher de “porrada a boca de alguns jornalistas”. Desde a eleição até a presente data, seus ataques à liberdade de expressão são rotineiros. Boa parte da gente brasileira elegeu alguém que não o conhecia de fato: foi conduzida pela manipulação midiática global e pela podridão jurídica de Curitiba.

Ele, para ganhar as eleições teve de recorrer à pressão de setores das Forças Armadas, na pessoa do general Villas Bôas ao ameaçar o Supremo Tribunal Federal (STF) quando da sessão de julgamento do Habeas Corpus impetrado pela defesa do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O voto sob a ameaça pública do general prolatado pelos ministros do STF amputou o direito político de LULA de participar da eleição em 2018, surrupiando do povo brasileiro sua soberania popular de livremente escolher seu presidente. E agora o STF, depois de tornada pública a lama das repugnantes manobras processuais perpetradas por Moro e Dallagnol, vê-se na obrigação de declarar a nulidade de todos os processos contra Lula sob o comando “dessa dupla dinâmica” que agia sempre bem juntinho na calada da noite, um ao lado do outro, juiz e procurador.

Hoje, sete de setembro, o Brasil conta com cerca de 130 mil pessoas mortas pela Covid-19 (nos EUA de Trump são 190 mil). Nesta semana uma amiga minha vive a tragédia pela perda de seu esposo de apenas 55 anos de idade.

Além disso, segundo o cientista político Cleyton Monte, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lapem), somente em um estado da Federação e no Distrito Federal, o número de trabalhadores formais é superior ao cadastro ao de pessoas cadastradas no auxílio emergencial. No Ceará, por exemplo, tem-se um milhão e cem mil trabalhadores com carteira assinada contra três milhões e meio de beneficiários do auxílio aprovado pelo Congresso Nacional. Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), cerca trezentos e dez mil famílias cearenses estão SUBVIVENDO apenas com essa ajuda do Estado brasileiro. É um quadro devastador, mascarado pela grande mídia, a falta de uma Estratégia de Governo para enfrentar o desemprego estrutural alavancado desde o Golpe de 2016. Para eles o importante é acumulação de riqueza auferida pela burguesia brasileira e internacional colocada em marcha pelo neoliberalismo de Paulo Guedes.

Um dos filósofos políticos, pensador fundante de uma estrutura política para garantir a acumulação de riqueza ilimitada da burguesia, é o inglês Thomas Hobbes (1588-1679) com sua obra Leviatã. Ele estrutura seu organismo político a partir do novo homem – o burguês – preconizando que o interesse privado burguês se identifica com o interesse público. Sendo assim, para o filósofo, não existe espírito de companheirismo nem reponsabilidade entre os homens. Ou como disse a primeira-ministra britânica nos anos 1980, a hobbesiana Margareth Thatcher, “a sociedade não existe”. O objetivo de Hobbes em sua teoria é assegurar o máximo de estabilidade para os assuntos burgueses. Segundo ele, para pertencer à burguesia o indivíduo deve conceber a vida como um processo de aumentar ilimitadamente sua riqueza pessoal, considerando o Dinheiro como algo Sacrossanto que de modo algum deve ser usado como um simples instrumento de consumo: o Dinheiro é a porta de entrada em um Paraíso terrestre sem limites. Assim o novo tipo humano hobbesiano é alguém que Idolatra o Poder porque o Poder é o Controle que permite estabelecer os preços, regular a oferta e a procura, de modo que tudo seja vantajoso a quem o detém. Para tanto Hobbes elabora uma apologia à Tirania identificando-a com a Soberania: muito embora ela houvesse ocorrido muitas vezes na História, nunca havia sido homenageada como um fundamento filosófico como o pensador britânico fez.

Quem possuir lentes mais apuradas poderá perceber nesse Sete de Setembro a tirania oficial do descompromisso com o outro, bem ao gosto de Hobbes, como marca patente deste governo. Não há um projeto de solidariedade social, de sensibilidade às dores e injustiças sofridas pelos nossos concidadãos e concidadãs. Há sim um projeto de destruição das solidariedades, de louvação ao hiperindividualismo, incentivado pela propaganda ao uso de armas mortíferas por parte da população, elevando a uma escalada exponencial o estado de natureza original no qual “o homem é o lobo do homem”. O pior que toda essa violência ideológica é defendida e apoiada por pessoas que se proclamam cristãs, não obstante os 70 milhões de empobrecidos e as 130 mil pessoas mortas pela ausência de seriedade federal no enfrentamento à Covid-19, tachando de “uma simples gripezinha”. É essa a pátria bolsonarista.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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