Tempo-Rei

     

  Há exatamente um ano eu o vi pela primeira vez. Foi como se já o conhecesse de outras eras. Talvez eu me esqueça de infinitas coisas ao longo da minha existência, mas eu jamais vou esquecer seu olhar. 

    Eu não sei quantos sentimentos cabem em um maternar, nem quantas mulheres eu ainda serei ao longo da vida mas sei bem que, para além de romantizações e sacralizações do “ser mãe”, ser mãe do Fernando tem sido, em minha vida, algo muito especial.

    De todas as coisas que aprendi ao longo dessa volta ao Sol, encarar o tempo de frente tem sido a mais desafiadora, sem dúvidas. Fernando reinventa o tempo, o tempo inteiro e eu tento seguir seus passos. Tenho tentado aprender a controlar menos, a respirar mais, a lidar melhor com relógios.

    Um pouco antes de engravidar, eu sonhei com o tempo, duas vezes. Em um sonho ele era um velho e no outro, um menino. O velho tinha a calma de uma árvore grande e entre seus cabelos grisalhos, a mansidão de um mar em calmaria. Nada parecia afetá-lo. Já o menino, corria em círculos dentro de uma mata densa e sorria. Sorria como se nada mais se importasse além dos próprios passos que, a cada círculo, desenhava pegadas na terra. Seu sorriso era encantador.

    Quando Fernando chegou, o velho e o menino me visitaram novamente. O tempo para todas as coisas, por hora passa de pressa e por outras, vai e vem lentamente.

    Não faço mais nada em “meu tempo”. Não produzo como gostaria, não escrevo quanto queria escrever e não dou conta das tarefas invisíveis do lar como gostaria de dar. Mas tá tudo bem. Fernando, por outro lado, parece correr e sorrir com o menino-tempo. De mãos dadas. Em um ano foram tantas as transformações em pouco mais de 60 centímetros de ser humano que os vários registros que tento fazer não dão conta. É dente, é fala, é corpo que se descobre. Eu só agradeço por poder fazer parte disso.

    Enquanto Fernando corre com o menino-tempo, eu me conheço e reconheço no espelho, todos os dias. Me permito sentir tudo que posso dentro desse mar grande que é o maternar. Olho no olho comigo mesma, encontro a menina que já foi e a abraço. Não sou a mesma depois de Fernando. Ainda tenho aprendido a me ser. 

    Peço todos os dias, um pouco da sabedoria do Velho-tempo, a energia do tempo menino e a força das entranhas que toda mulher carrega dentro de si. Aprender a amar e florescer não é fácil. Mas entre todas as coisas dessa vida, me permitir aprender é a coisa mais inteira que eu posso ter. 

 

Juliana Magalhaes

Juliana Magalhães é licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e mestre na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) . Atualmente é docente da UECE na cidade de Itapipoca. Mãe de primeira viagem do Fernando.

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Juliana Magalhaes

Juliana Magalhães é licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e mestre na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) . Atualmente é docente da UECE na cidade de Itapipoca. Mãe de primeira viagem do Fernando.