Sublime Clarice Lispector – Por Alder Teixeira

“Sou uma mulher simples. Não tenho sofisticação. Parece que me mitificaram. Eu não quero ser particular.” A frase, que cairia à perfeição se proferida por uma de suas personagens, é dita pela escritora, revelando-se avessa à fama adquirida já a partir da publicação do seu primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, em 1943.

Nessa quinta-feira 10, Clarice Lispector faria cem anos. A data foi e será comemorada nos mais importantes eventos dedicados à literatura, pois que a aniversariante, morta em 9 de dezembro de 1977, é responsável por uma obra cuja função sintonizadora, aquela que rompe o tempo e o espaço, imortalizando-se e imortalizando quem a escreveu, tornou-se quase uma unanimidade no Brasil e nos mais de trinta países para os quais foi traduzida.

O texto, inicialmente desafiador, pela ousadia do estilo e pela profundidade com que explora a alma humana, é de uma beleza estética desconcertante. Às vezes, causa um compreensível estranhamento, tamanha é a originalidade com que Clarice Lispector tece a sua urdidura, mas a palavra logo seduz pelo encanto da pegada, pela sutileza dos ardis que sua prosa vai abrindo aos olhos do leitor. Por essa razão, entre outras atinentes à forma e ao conteúdo, quem lê um livro da escritora ucrano-pernambucana (nasceu na Ucrânia e veio para o Brasil ainda bebê) tende comumente a querer ler os demais, como quem, num dia de sol escaldante, mergulha nas águas doces de um lago e não quer mais sair.

Em A Paixão Segundo G.H., de 1964, romance que começa e termina com seis travessões, como a indicar o que teria sido e o que virá a ser a narrativa, num todo vertiginoso construído de memórias e projeções por que é tragado o leitor, Clarice Lispector explora uma das mais inusitadas situações dramáticas de que se tem notícia desde A Metamorfose, de Franz Kafka: em seu apartamento, no último andar de um edifício, a narradora resolve ir ao quarto da empregada que se demitira. Lá depara-se com uma barata saindo de um armário. A consciência de sua solidão, dela e da barata, a leva a um estado de morbidez incontrolável, como se desejando tocar na barata, mais que isso, comer a barata para sentir o seu gosto e, assim, voltando à condição primitiva, de tal modo selvagem, que a purifique, despojando-a dos vícios e costumes de uma sociedade artificial, asséptica e alienante.

“Ontem de manhã — quando saí da sala para o quarto da empregada — nada me faria supor que eu estava a um passo da descoberta de um império. A um passo de mim. Minha luta mais primária pela vida mais primária ia-se abrir com a tranquila ferocidade devoradora dos animais do deserto.”

Ler Clarice Lispector é adentrar um universo desconhecido e não raro alucinante, experiência capaz, no entanto, de nos levar, sob a força de uma poesia a um só tempo doce e  profundamente dolorosa, à descoberta de nossa realidade interior   — o lado mais irrevelável de cada um: — “Mas é que a verdade nunca me fez sentido. A verdade não me faz sentido! É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo  — para que faças disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu nunca falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.”

Sublime Clarice Lispector!

 

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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