Stratovarius em Fortaleza (24/11/2019): o dia em que a cidade abraçou uma lenda

Diário de bordo, data estelar – algum ano entre 1997 e 2000:

Eram os idos de minha adolescência. Uma época de poucas preocupações, cujas mais urgentes eram: lidar com a puberdade (espinhas no rosto e um cabelo ridículo), não reprovar em Geometria e conseguir alguma paquerinha na escola, tentando combater minha timidez pela raiz. No âmbito dos meus lazeres, uma das poucas coisas que eu começava a descobrir bem era ouvir bandas que não conhecia, além de arranhar os primeiros acordes no violão.

Quando ainda engatinhava meus sentidos pra aprender o que era rock ou heavy metal, certo dia um colega (que escrevia no caderno os nomes de bandas das quais eu nunca tinha ouvido falar e costumava bater cabeça* no meio da aula) levou uma fita K7* lá pra casa depois da aula. Na caixinha toda arranhada da fita, naqueles adesivos brancos onde se escrevia, havia um nome que na época achei engraçado e aparentemente sem sentido. Peguei e li pausadamente na letra garranchada:  Stra-to-va-ri-us. E ao lado, o nome do que seria o álbum ali copiado, um tal de “Visions”.

Capa do álbum "Visions" da banda Stratovarius

“Visions”, álbum referência de 1997 – e o primeiro que ouvi!

Ao dar o play, meus ouvidos foram invadidos por um tipo de rock que ainda não conhecia: era veloz, pesado, vocais mais agudos que o normal, guitarras tocando notas na velocidade da luz. Era o tal power metal, variante do heavy metal tradicional, que traz mais melodia e velocidade que o estilo clássico. Comecei a ouvir quase tudo dessa banda finlandesa, procurando outras fitas K7 ou CDs (na época, a busca era manual mesmo: não tinha as facilidades do YouTube ou Spotify de hoje) buscando conhecer mais aquela banda tão legal. Fui descobrindo, então, um estilo tão rico e empolgante em elementos que te dão um poder, uma sensação de grandeza, de imortalidade, uma liberdade e uma energia tão positivas que chega arrepia até os cabelos do dedão do pé. As letras, também, trazem muitas histórias interessantes, mitológicas e cheias de frases de efeito. Dali pra frente, foi só ladeira acima.  

Fundada lá em 1984, tendo como principais membros mais clássicos o antigo guitarrista Timo Tolkki, o já mencionado Jens e o fantástico vocalista Timo Kotipelto, seu nome forma uma sonora brincadeira com a fusão das palavras Stratocaster (modelo de guitarra famoso da tradicional fabricante americana Fender), Stradivarius (em referência aos lendários violinos dos sécs. XVII e XVIII feitos pelo italiano Antonio Stradivari) e ainda uma possível interpretação de stratosphere (estratosfera). Até hoje, são 15 álbuns de estúdio, diversos registros ao vivo, compilações e DVDs que fazem da banda o crème de la crème do metal finlandês.

Foto atual da banda Stratovarius

Stratovarius de hoje (da esq. para dir.): Matias Kupiainen (guitarra), Lauri Porra (baixo), Jens Johansson (teclado), Rolf Pilve (bateria) e Timo Kotipelto (voz). | Foto: nacionmetal.net

A banda tem por marca registrada a velocidade, linhas melódicas bastante empolgantes e um teclado que flerta apaixonadamente com a música clássica, sobretudo com efeitos que imitam orquestras e também sequências harmônicas, escalas e simulação de instrumentos que remetem a esse gênero. Isso veio bastante graças ao tecladista Jens Johansson, um dos dois únicos membros originais da banda. Johansson tocava na década de 80 com o guitarrista Yngwie Malmsteen, que também é outro expoente da música neoclássica aplicada ao rock heavy metal. 

 

Diário de bordo, data estelar – 24 de novembro de 2019:

Saltamos mais de 20 anos à frente no tempo. Era a semana de meu 33º aniversário, e eu já sabia qual presente antecipado eu teria para viver. Aquele dia 24 de novembro era também o domingo em que vozes estridentes de fortalezenses extasiados, guitarras melódicas e bateria furiosa ecoariam até os céus de nossa capital. Mais ainda, eu diria: até a estratosfera.

Anúncio do show do Stratovarius em Fortaleza

Anúncio oficial do show feito em agosto de 2019 | Imagem: Inbeats Produções (@inbeatsproducoes)

Anunciado ainda em agosto do ano passado, a notícia caiu como uma bomba de felicidade e expectativa. Finalmente acontecia naquele domingo, 5 dias antes do meu aniversário, um dos momentos que mais esperávamos desde nossa adolescência: o show do Stratovarius em Fortaleza. Ao se iniciarem as vendas, logo que possível tratei de dar meus pulos com o cartão de crédito e comprei o ingresso, antecipando meu auto-presente de aniversário em quase 3 meses.

No dia do evento, cheguei ao local alguns minutos antes do início, e logo me arrepiei ao ver lá no palco os bumbos da bateria e alguns totens laterais estampados com o símbolo da banda: a Estrela Polar. Dali pra frente, uma torrente de adrenalina já era constante nas veias de cada um ali presente, ao mesmo tempo em que a expectativa pelo início aumentava.

Era pouco mais de 20h30 quando as luzes se apagaram e uma introdução épica ressonou nos P.A.’s para um público que, àquele momento, já se encontrava ensandecido. Uma leve luz azul se projetava sobre o palco poucos momentos antes de Rolf Pilve (bateria) entrar e sentar em seu banquinho, o já mencionado Jens Johansson entrar sob uma chuva de palmas e gritos para tomar o posto no seu teclado, Lauri Porra (sim, ele tem esse sobrenome mesmo!) tomar seu lugar com seu baixo e o sensacional Matias Kupiainen entrar com sua icônica guitarra branca e assim todos iniciarem a introdução da primeira canção. Por último, Timo Kotipelto entrega as primeiras notas de sua potente voz aos ouvidos fortalezenses para todos cantarmos juntos, a plenos pulmões, o glorioso refrão de Eagleheart, um dos singles de maior sucesso da banda – inclusive no Brasil, com a nossa saudosa TV União ajudando na época a tornar a banda bem mais popular por aqui.

Imagem do show do Stratovarius

Stratovarius na atividade em Fortaleza | Foto: acervo pessoal

Terminada a euforia da primeira canção, a plateia emanava uma energia fantástica. Aproveitando isso, a banda não deixa cair a peteca e emenda logo o set com a poderosa Phoenix, já um clássico do álbum Infinite (2000). Na sequência, Oblivion dá uma esfriada nos ânimos, mas logo é obliterada pela empolgante Shine In The Dark, sendo estas duas exemplos mais recentes da “nova era” do Stratovarius – com uma formação consolidada após a conturbada saída de Timo Tolkki, ex-guitarrista. A esta altura, a banda encaixa um petardo atrás do outro: a clássica SOS, seguida de Enigma (uma de minhas favoritas dentre as mais recentes da banda) e daí outra esfriada com 4000 Rainy Nights, primeira balada do show.

Foto da banda Stratovarius tocando no show de Fortaleza

Stratovarius na atividade em Fortaleza | Foto: acervo pessoal

Nem é preciso falar da competência de cada músico, o que é mais reforçado ainda em momentos como os solos de guitarra e de teclado – uma coisa que eu acho bastante chata nesses shows, justamente porque você já sabe que os músicos são muito competentes, e não necessitava desses exibicionismos de virtuose! Mas enfim, faz parte do showbizz. A noite continuou com muito mais clássicos, e a banda encerrou seu espetáculo com um encore de 4 canções, mandando inclusive as clássicas The Kiss Of Judas e Black Diamond, ficando a saideira por conta de Hunting High And Low, onde a casa praticamente cantou em uníssono da primeira à ultima nota.

A energia dos membros em palco mostra que a banda está mais viva do que nunca, e é de invejar o quanto Timo e Jens estão musicalmente “inteiraços” no auge de seus 50 e 56 anos de idade. Sem contar na simpatia com nosso país: na segunda metade do show, o guitarrista Matias retorna ao palco vestindo uma camiseta da seleção brasileira. É pra desejar um “volte sempre” ou não??

Tão especial também foi curtir esse show encontrando tanta gente boa e também ao lado de dois grandes amigos que tocaram juntos comigo numa banda cover do Stratovarius da qual fui felizmente parte entre 2016 e 2018. E por falar em amigos, no meio da plateia encontrei até aquele meu amigo que me apresentou a banda, agradecendo por ser culpa dele que eu conhecia aqueles artistas sensacionais. Sem dúvidas, aquela fita K7 mudou minha vida.

Foto pessoal com amigos no show

Celebrando com amigos da saudosa banda cover de Stratovarius | Foto: acervo pessoal

Ver o Stratovarius em Fortaleza foi mais do que um espetáculo: foi uma experiência e uma jornada no tempo, revisitando a adolescência com aquele desejo antigo de qualquer garoto louco por heavy metal de ser um guitar hero. Bandas como essa e como outras “das antigas” que já tive a grande satisfação e o prazer de ver ao vivo (como o Iron Maiden, Whitesnake e Scorpions) merecem todo o nosso respeito: esses caras – em seus respectivos momentos – ajudaram a (re)escrever a história do rock, da música. Muitos continuam felizmente na ativa, fortes, mesmo após mais velhos. São como um bom vinho: melhoram com o tempo. E que venham mais shows assim para nossa cidade, para que possamos cada vez mais valorizar e abraçar sempre que possível algumas das maiores lendas vivas do rock, metal ou de qualquer estilo.

Up the Stratos!

 

Serviço:

Stratovarius em Fortaleza

Data: 24 de novembro de 2019 

Local: Complexo Armazém

Setlist:

1 – Eagleheart

2- Phoenix

3 – Oblivion

4 – Shine In The Dark

5 – SOS

6 – Enigma

7 – 4000 Rainy Nights

8 – Bass Solo

9 – Visions (Southern Cross)

10 – Keyboard Solo

11 – Black Diamond

Encore:

12 – Forever

13 – The Kiss Of Judas

14 – Unbreakable

15 – Hunting High And Low

——

*Movimento frenético realizado ao ouvir rock/heavy metal durante algum show  (ou ouvindo música em qualquer lugar) que consiste em balançar rapidamente a cabeça pra cima e pra baixo (ou girando circularmente) com sérios riscos de fraturar alguma vértebra ou distender um músculo do pescoço.

**Formato de mídia analógica muito popular nos anos 80/90, contemporânea dos vinis e sendo uma das que antecedeu os CDs.

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: [email protected]

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