“Soldados de Cristo” batem continência ao capitão (Parte I), por Emanuel Freitas

As contaminações entre o campo religioso e o campo político evidenciam-se, sobremaneira, nos períodos eleitorais, como o em que agora nos encontramos. Desde a redemocratização brasileira atores do campo religioso postam-se, sob a batuta da liberdade de opinião, de crença e de expressão, como dignos de serem ouvidos nos assuntos que dizem respeito aos “destinos da nação brasileira”, melhor, segundo dizem, da “maior nação católica” (e, agora “cristã”), do mundo! Na Assembleia Nacional Constituinte, de 1987-88, por exemplo, foi gestada a hoje tão conhecida “bancada evangélica” que, dentre suas ilustres conquistas, encontra-se a de terem conseguido “pôr o nome de Deus na Constituição”. Très bien!

Esperávamos, em 2018, que as tiradas religiosas ficariam por conta de Cabo Daciolo (PATRIOTAS), com suas mensagens recebidas durante sua “subida ao monte”, ou de Eymael (DC), o “democrata cristão” que prometia “sinais, fortes sinais” e se orgulhava de ter sido o autor da emenda que fez permanecer “o nome de Deus na Constituição” (o que isso quer dizer, em termos reais, não sei bem) e, em tempos de multiplicação dos “defensores da família cristã”, Eymael retificou uma “importante” (!) informação: há 30 anos ele faz essa defesa! Très bien! Mas, as duas últimas semanas de campanha, a passada e esta, parecem ter forçado lideranças religiosas a tomarem uma posição no pleito em curso, e esta posição foi a do antipetismo, com anúncios claros ou sutis de apoio a Jair Bolsonaro (PSL).

Comecemos pelos evangélicos. Não gastarei meu tempo nem o do leitor com considerações sobre Malafaia, Feliciano ou Malta.

Ana Paula Valadão, líder do ministério de louvor Diante do Trono (e da Igreja da Lagoinha, em BH) entusiasta apoiadora da ex-prefeita de Natal (Micarla de Sousa), divulgou vídeo em suas redes sociais, definindo-se como “pessoa de bem” e como opositora da “corrupção”.  Ana afirma a seus súditos que “não importa se você concorda ou não com Bolsonaro em tudo o que ele fala … contra a permanência do PT… se você votar nele a gente tira o PT de vez”. (https://www.youtube.com/watch?v=Aa2MQMRjWtU) o vídeo está disponível aqui: A mensagem é clara: há coisas (muitas?) defendidas pelo candidato que não são defensáveis, mas o que são elas frente a possibilidade de “tirar o PT”? Propostas, pois, não há; apenas uma antiescolha, o não-PT. Em outro vídeo, conclama, direto de “Dallas” (très chic), à responsabilidade de “se posicionar a favor dos princípios bíblicos e não deixar a trincheira, a linha de frente da batalha”, em relação ao momento político, escolhendo, segundo diz, “fazer parte da história de livramento da nação brasileira” e a pensar se seu interlocutor está usando o voto para “perpetuar a degradação moral” ou contra a “enxurrada de malignidades”. É preciso, segundo ela, “votar em quem vai derrubar a esquerda dessa nação”, “votar no Bolsonaro”. “Eu preciso tirar essa esquerda podre do país”, conclui ela (disponível aqui: https://www.youtube.com/watch?v=iiTMpUmxmIM). A direita é quem tem “os representantes dos valores cristãos”, pois a esquerda “corrompe valores morais”.

Ana Paula Valadão declara apoio a Bolsonaro #ELESIM

Depois, ainda na semana passada, foi a vez do Bispo Edir Macedo, chefe maior da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e da Rede Record posicionar-se, em sua rede social, a favor do capitão, o que significaria uma migração em massa de políticos do PRB, controlado pela igreja, e de importante segmento social liderado por suas pastores. Como se sabe, depois de “ser convencido pelo Espírito Santo”, na eleição de 1989, Macedo declarou voto em Collor e levou a cabo uma intensa campanha contra Lula, usando uma camisa, durante um dos cultos, em que se via a imagem de Collor, chamou Lula de diabo. Contudo, foi de vital importância para as vitórias de Lula e Dilma e sua legitimação em parte considerável do meio evangélico, Agora, porém, entra como soldado de fileira da campanha bolsonarista.

No último domingo, 30 de setembro, um vídeo do candidato foi exibido durante culto na Assembleia de Deus Ministério Belém, de São Paulo, sob a chefia do pastor José Wellington Bezerra. Intensamente aplaudido quando do início da exibição, Bolsonaro saúda a “defesa da família, contra o aborto, contra as drogas” levada a cabo pelo casal que liderada a igreja. “Juntos resgataremos essa nação”, diz ele, despedindo-se com seu slogan “O Brasil acima de todos, Deus acima de tudo”. Ao final o pastor, falando dos “30 dias de oração pelo Brasil”, pediu iluminação divina para reconduzir os parlamentares de São Paulo, “que já estão lá” (referindo-se à reeleição). José Wellington diz que “17 é preciso estar lá”, numa referência explícita ao número do candidato. Sua orientação aos fiéis? “Não votar à esquerda”. Em outras palavras, dar um voto antiPT. Dirigindo-se ao capitão, ele arremata: “o senhor fala aquilo que os evangélicos gostariam de ouvir, com o apoio dos evangélicos o senhor cumprirá os seus compromissos junto conosco”. Um presidente para evangélicos, pois, parece ser o desejo dessas lideranças, como se o país apenas formasse-se de tal contingente. Nesse segmento, que corresponde a algo em torno de 25% da população brasileira, o candidato, de origem católica aparece com 40% das intenções de votos, o maior dentre os candidatos.

Nada mais conforme aos discursos do candidato que já anunciou: “Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. As minorias têm que se curvar para as maiorias”.

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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