Sobre política e perversão

Há artigos que valem por livros inteiros e são capazes de esclarecer com objetividade e concisão o que parece ser um problema complexo demais para ser examinado à luz de poucas palavras. A edição da Folha de S. Paulo desta sexta-feira traz um exemplo disso. Refiro-me ao incontornável artigo do advogado e professor visitante da Universidade de Columbia, em Nova York, Silvio Almeida, intitulado Bolsonarismo, política e perversão. O tema, como o próprio título deixa ver, é o da ascensão global do fascismo e sua versão brasileira cujo substantivo deriva do atual presidente e candidato à reeleição.

Embasando-se em trabalhos de maior fôlego, o que é mesmo natural em artigos exemplarmente consistentes como o dele, Silvio Almeida traça um perfil do eleitor bolsonarista sem incorrer em categorizações repetitivas do que se pode definir como fascista, na linha do que mesmo livros clássicos sobre a matéria fizeram, a exemplo do aclamado O fascismo eterno, de Umberto Eco, no qual o autor de O Nome da Rosa e O pêndulo de Foucault estabelece 14 lições para identificar o neofascismo e o que define como fascismo eterno.

Intertextualizando o livro Crítica do Fascismo (Ed. Boitempo, 2022), Silvio Almeida  trabalha o conceito do fascismo à brasileira, numa perspectiva crítica, pelo viés da psicanálise e da economia política, e o resultado do artigo surpreende pela nitidez que dá a um fenômeno político que vem constituindo um desafio para diferentes campos da ciência política: como entender que uma liderança que sustenta sua ação no desprezo pelos pobres, manipulação da crença religiosa, mentiras, desapreço pela mulher, homofobia, racismo, ojeriza aos fundamentos da democracia, incentivo ao ódio e à violência, pode aliciar de forma impressionante quase metade dos eleitores brasileiros?

A explicação, que demanda obviamente outras vertentes de análise, concentra-se no fato de que o ‘mito’ “é a realização do desejo do homem médio, espremido pela miséria material e espiritual do capitalismo em crise”. “O mito, diz ele, é o gozo sangrento, é o prazer espetacular com a morte”. Nessa linha de interpretação, pois, é que Silvio Almeida nos faz entender por que o discurso bolsonarista centraliza-se num conceito de “liberdade ilimitada”, que, em essência, é a própria negação da liberdade democrática, aquela que deita raízes no respeito à Constituição e aos valores de um Estado democrático de Direito: “ele é presidente e não trabalha, ofende as pessoas e as deixa morrer, anda de moto sem capacete durante o expediente, faz turismo em funerais, mente descaradamente, deixa os filhos fazerem o que quiserem e nada, absolutamente nada acontece com ele”. Ele não é punido, sequer objeto de julgamentos por parte das instituições às quais caberia lhe impor limites, uma evidência na omissão desavergonhada do Procurador Geral da República e no silêncio servil de órgãos da grande imprensa.

O artigo de Silvio Almeida, a essa altura, vai ao cerne do que se tem, quase sempre em vão, procurado compreender sobre o fascismo brasileiro: “O bolsonarismo é o gozo perverso”, pois prescinde do que é indispensável ao candidato adversário, a necessidade de mostrar-se melhor para presidir o país, pautando-se pelas regras do Estado democrático de Direito, a atenção cuidadosa com os que passam fome, os que precisam de emprego para sustentar suas famílias, os que são diferentes e fazem de suas vidas um bem precioso a ser respeitado, as mulheres, os indígenas, os negros e os desassistidos de toda ordem.

Na lógica dessa liberdade ilimitada, é que se sustenta quase metade dos brasileiros aptos a votar em 30 de outubro. Para esses, que se lixem as instituições, pois que Jair Messias Bolsonaro é o mito que representa “o triunfo do que de pior habita em cada um de nós. É o fracasso orgulhoso, o fracasso triunfante da dor”.

Não à toa, pois, é que seus seguidores invertem o sentido do prazer, alimentam-se do ódio, fazem a apologia do sofrimento alheio como forma de alcançar seus objetivos malignos, projetando-se nas falas e ações de seu guia.

A duas semanas da mais importante eleição para presidente, é como desfecha seu artigo Silvio Almeida, resta aos brasileiros um único caminho: “… desarmar o fascismo e suas expressões passa por reorientar politicamente o desejo para formas de viver não alimentadas pela morte”.

Sem medo de ser feliz.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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