Sobre meninas e bruxas

Os últimos dias não têm sido fáceis. Há nuvens carregadas no céu, e nem é época de chuva. Em meio a uma mudança de casa, desafios do trabalho remoto e a maternidade real, me chegam notícias de lugares distantes, mas que queimam na pele. História de meninas e bruxas.

Houve um tempo em que vivíamos entre lobos e a magia. A natureza, cheia de mistérios, engolia e ditava o ritmo da vida social. O tempo era divindade. A Deusa-mãe emergia da terra e do fruto sagrado. O sangue que escorria entre as pernas era oferenda. Gestar era acontecimento único e inigualável: conexão misteriosa entre vida, morte e renascimento.

Mulheres e homens formavam a aldeia. O ser coletivo organizava-se, dividindo tarefas e responsabilidades, e as hierarquias existiam quase sempre em prol da hereditariedade, dos mais velhos aos mais novos. Às mulheres, o controle da dinâmica da aldeia. O artesanato, o cuidado com os animais, o preparo dos alimentos e dos ritos sagrados. Aos homens, a caça e a pesca, além da proteção do clã. Houve mulheres guerreiras e homens dentro das tarefas de organização. O critério era a força e uma atividade não era mais importante do que a outra: se complementavam.

Após algumas Luas, a escassez trouxe a guerra e a necessidade de fixar território. Não mais desbravar territórios e percorrer caminhos longínquos, mas sim permanência e plantio. Surge a agricultura e o Deus-tempo passa a ser estudado, observado e melhor compreendido.

Nesse cenário, entre guerras e plantios, surge a possibilidade de ruptura com a demanda de sobrevivência. Acúmulo. Primitivo. 

Da acumulação primitiva à escravidão, outro passo. Não mais o trabalho comunitário da aldeia, mas sim o trabalho forçado dos prisioneiros de guerra. Primeira terceirização do trabalho. E nesse processo, a Deusa-mãe, cada vez mais distante, foi sendo cada vez menos chamada às decisões. O trabalho comunitário extinto. A divisão sexual do trabalho, igualitária, enterrada. Se a guerra fez possível o acúmulo, a guerra era a atividade-divina. Majoritariamente masculina, ergue-se o falo-deus e delegam-se as hierarquias do ‘novo-mundo’. Não mais Deusa-terra. Não mais Deus-tempo. O homem como sujeito imperativo, senhores-da-guerra, geradores de riqueza. O sangue sagrado, negado. Gestar não-mágico, função social feminina: Homens como semi-deuses e mulheres, escravas.

Anos afins se passam. O projeto ocidental e eurocêntrico de sociedade se espalha violentamente pelo globo terrestre. Homens se erguem como personagens principais, desbravadores, conquistadores, líderes. Mulheres, silenciadas, trancafiadas e queimadas. Às que não aceitaram tal condição, dois caminhos: fogueiras ou forcas. 

Controle total dos corpos femininos. A ciência que emerge, a igreja que ergue a cruz, a economia que se desenvolve, tudo seguindo o mesmo caminho de justificar a submissão das mulheres. Muitas queimadas, outras tantas, violentadas.

Mais de mil Luas se passaram. A Deusa-mãe-terra chora. O Deus-tempo é implacável. Mas meninas e bruxas continuam sendo queimadas. Os algozes permanecem gritando, apontando, apedrejando cada corpo feminino não controlado. Cada menina e mulher que resiste ao destino imposto. Os algozes, às escondidas, continuam violentando e quando ninguém vê, abusam de meninas. Mas, ao nascer do Sol, vestem suas máscaras de bons homens de um Deus másculo e acusam tais meninas de bruxaria.

São meninas e bruxas, que resistem. A cada lágrima e grito silenciado no travesseiro. A cada sentença acusatória proferida pelos homens (e mulheres) de Deus pai-proprietário. A cada violação, um coquetel molotov.

Eu sei, continuam ascendendo as fogueiras. Sob a luz da Lua (cheia) do século XIX, hereges são chamadas todas as meninas-bruxas, que não voam em vassouras, mas que, de alguma forma, representam a subversão e a resistência entre os séculos dos séculos. Mas também sei que, a cada fogueira acesa, uma revolta explode. Sob a luz da Lua (cheia) nunca fugimos a luta, nem fugiremos. Por nós, por elas, por todas, as que já foram e as que ainda vão ser, resistiremos. Até que se faça possível parir um novo mundo. A revolução será parida ou não será.

Juliana Magalhaes

Juliana Magalhães é licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e mestre na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) . Atualmente é docente da UECE na cidade de Itapipoca. Mãe de primeira viagem do Fernando.