SOB O SIGNO DE UMA MALDADE PLANEJADA, por Alexandre Aragão de Albuquerque

A verdade é sempre a primeira vítima quando da instalação de um golpe, seja ele de formato clássico ou híbrido, como ocorreu no Brasil a partir de 17 de abril de 2016. Consequentemente, é preciso estar atentos para a formulação das narrativas originadas a partir dos poderes golpistas, entre estes os meios de comunicação que lhe dão suporte, no sentido de não se deixar enganar pela manipulação ideológica dos fatos, passados e presentes, que pretendem nos impor.

Um dos documentos muito importantes para o registro da verdade e para a análise do tempo presente trata-se do histórico “MEA-CULPA” do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), publicado no jornal o Estado de São Paulo no dia 13 de setembro de 2018, sobre os erros praticados pelos quadros do seu partido a partir o resultado da eleição de 2014, na qual Dilma Rousseff (PT) foi reeleita legitimamente presidente do Brasil. No documento, Tasso fala de “erros memoráveis, um gesto que não foi digno de um partido que se dizia inscrito no processo democrático”. Como consequência, a primeira pergunta que emerge a partir dessa revelação é: com quais motivações os tucanos perpetraram conscientemente esses “erros memoráveis”?

Vamos aos erros relacionados pelo senador. Em primeiro lugar Tasso denuncia o questionamento pelo partido do resultado das eleições começando no dia seguinte do resultado. Aécio Neves moveu uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para anular a eleição de Dilma Rousseff por puro revanchismo, conforme declarou em uma das gravações da delação premiada de Joesley Batista. Ou seja, um partido que nasceu do processo de redemocratização do País, com um compromisso programático socialdemocrata, age de forma totalmente irresponsável, com objetivos obscuros, questionando a soberania popular e as instituições democráticas brasileiras. Por quê?  Com que interesses não explicitados?

O segundo erro foi adotar o comportamento do quanto pior melhor, pela sanha de impedir Dilma de governar, chegando a votar pautas totalmente contrárias aos princípios socialdemocratas, inclusive no campo econômico. Em março de 2015, quando se iniciavam as manifestações da Avenida Paulista, o senador Aloísio Nunes, vice na chapa de Aécio, afirmava nas diversas edições dos jornais nacionais a seguinte sentença: “Quero ver Dilma sangrar”.

Por fim, Tasso Jereissati atesta que o último grande erro, “a gota d´água”, foi o PSDB ter composto o governo golpista de Michel Temer, ocupando vários ministérios. Inclusive, logo após a posse, Aécio retirou do TSE a ação contra a chapa Dilma-Temer.

Portanto, essa confissão de Tasso constitui um importante documento para a história, confirmando por sua vez a articulação golpista que estava sendo orquestrada no Brasil. Basta pensarmos a Lava Jato como uma operação estruturante do Golpe, na medida em que criava o clima passional e ideológico visando a legitimar a ruptura democrática planejada. Constata-se claramente nos diálogos revelados pelo Site Intercept a parcialidade da operação ao blindar Fernando Henrique Cardoso (PSDB –SP) quando o então juiz de Curitiba afirmou que “não poderia melindrar FHC pois o seu apoio era muito importante”.

Apenas relembrando, o governo FHC notabilizou-se, entre outros escândalos, por um fato de altíssima gravidade assim chamado “A FARRA DO PROER” (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional), pela qual os sete maiores bancos do País, literalmente quebrados, receberam muito dinheiro público de FHC para evitar suas falências. Um dos socorridos foi o Banco Nacional, da família Magalhães Pinto, a qual tinha como agregado um dos filhos de FHC. Para economistas da Cepal, os gastos chegaram a 12,3% do PIB brasileiro, cerca de R$112 bilhões, em valores da época. Por isso FHC é conhecido por aí como o grande amigo do capital financeiro.

Com a desmoralização da Operação Lava Jato tornada pública pela revelação da podridão dos seus porões, promovida responsavelmente pelo Site Intercept e parceiros, o “MEA-CULPA” de Tasso Jereissati vem a ser um importantíssimo documento no acervo da verdade histórica brasileira.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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