SINAL DE CONTRADIÇÃO – Alexandre Aragão de Albuquerque

Quando as sociedades evoluem, tornam-se mais complexas, suas pluralidades e contradições aparecem. Buscar entender as contradições é um ponto fundamental para que se possam encontrar respostas verdadeiras que favoreçam o caminho da felicidade humana em novos contextos de complexidade social.

 

A lógica pode ser entendida como o estudo dos processos pelos quais certas sentenças ou proposições podem ser deduzidas de outras. Desde a época de Aristóteles, um dos princípios básicos da lógica clássica é o da não contradição. Esse princípio estabelece a impossibilidade de uma sentença qualquer e sua negação sejam ambas verdadeiras. Por exemplo, “A” não pode ser igual a “Não-A”. Ou ainda, se eu afirmo que “vivo em Recife”, não é possível admitir, com base nesse princípio, que “eu não vivo em Recife”.

 

Porém se recorrermos a um referencial mais complexo, por exemplo, no universo das partículas atômicas, em determinadas circunstâncias elas não se comportam como partículas, mas como não-partículas (ondas). Isto significa que, sob certos contextos, elas são-e-não-são partículas. Para entender diretamente esse problema quântico, sem desvios teóricos, um dos caminhos é a utilização de outra lógica diferente daquela clássica, uma lógica que aceite contradições.

 

No início do pontificado de Francisco, diversos setores da Igreja Católica, condicionados pelo “habitus” fundado numa lógica milenar conservadora hierárquica de exercício do poder pontifício, foram surpreendidos na Semana Santa do ano 2013 pela celebração da missa do lava-pés fora dos muros vaticanos, numa penitenciária de adolescentes, em Roma, lavando os pés de sujeitos não católicos, especialmente de mulheres. Uma enxurrada de ataques foi torpedeada por esses setores, acusando o Papa Francisco de haver traído a Tradição da qual deve ser a principal garantia.

 

Mas a lógica apresentada por Francisco parece ser a mesma desenvolvida pelo Fundador do cristianismo quando afirma taxativamente que o Ser é dom. Ele não apareceu à existência para ser servido, mas para servir (Mt 20, 28), a partir daquelas pessoas mais vulneráveis, violentadas pela lógica do sistema dos poderes romano e religioso de então. Um “Rei” que nasceu pobre, numa estrebaria, fazendo-se pobre com os pobres para apontar-lhes uma lógica de dignidade universal a partir de relações vivas e reais de fraternidade e de partilha.

 

Ocorre que o Capitalismo neoliberal possui uma lógica interna diametralmente contrária, afirmando o egoísmo como centralidade do seu Ser. E para isso apropriou-se da simbólica cristã para servir-lhe de fundamento espiritual capaz de justificar sua exploração de classe em todo o planeta.

 

No tempo presente, um dos ideólogos do conservadorismo cristão chama-se Steve Bannon, estadunidense, identificado pela Revista Time (02/2017) como sendo o “cérebro de Trump”, para quem “a ideologia [não a verdade] é o aspecto mais importante de qualquer governo”. Em 11 de setembro de 2019, conforme noticiado pela mídia jornalística, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, encontrou-se num jantar privado na embaixada brasileira, em Washington, para tratar do discurso de Bolsonaro na sessão de abertura dos trabalhos da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU). O mundo pode atestar naquele discurso o que e como pensa esse grupo de Bolsonaro.

 

A centralidade da ideologia de Bannon é a guerra: “estamos em guerra, a América está em guerra”. Para isso desenvolve uma lógica em torno de códigos binários e narrativas temporais, profundamente excludentes com teor de ódio apocalíptico. Há uma série de contrastes simplificadores entre sagrado e profano, divino e diabólico, o bem e o mal, criando “Outros-Perigosos” ameaçando “Nós-Gente-de-Bem”. As categorias binárias de Bannon são:

BONS (PUROS)

MAUS (IMPUROS)

CRISTÃO

NÃO-CRISTÃO

OCIDENTE

RESTO DO MUNDO

PROPRIEDADE PRIVADA

POBREZA

VERDADEIROS AMERICANOS

IMIGRANTES

RELIGIOSO

SECULAR

POVO

ELITES

CIVILIZAÇÃO

BARBÁRIE

Importante ressalvar que numa ordem democrática, o conflito entre partidários é agonístico, ou seja, há um espírito de combate entre os concorrentes baseado no respeito mútuo pelo adversário e pelo cumprimento das regras democráticas. A lógica desenvolvida por Bannon é antagonística. Para ele não há espaço para a cortesia, consequentemente não há lugar para uma governança supranacional, nem há lugar para árbitros constitucionalmente autorizados a mediar conflitos na cena doméstica em nome de uma solidariedade mais ampla de uma esfera civil. Para ele, os lados opostos não são adversários, mas inimigos. Não pode haver regras do jogo mutuamente vinculativas. O inimigo precisa ser destruído, custe o que custar, seja ele a Democracia, o Presidente Lula ou o Papa Francisco. Eis a questão!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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