Sem poder não se faz política, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Nesse período natalino, onde corações e mentes deixam-se seduzir pelas ondas mercadológicas publicitárias de hiper-exaltação do consumismo, parece importante relembrar que a causa matriz dessas comemorações deve-se ao nascimento de um hebreu pobre, na inexpressiva vila de Belém, da Judeia. Desse menino pobre nasceu uma estrutura religiosa que influenciou e continua a influenciar nossa cultura ocidental, cujo momento presente encontra no Papa Francisco um líder inovador de práticas e de doutrina.

Entre nós, no século XX, uma das figuras mais expressivas do cristianismo católico brasileiro era sem sombra de dúvida o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, um dos inspiradores da teologia da libertação, originada na América Latina. Uma passagem sua é bastante conhecida de muitos. Diz assim: “Quando dou comida aos pobres, chamam-me de santo; mas quando pergunto pelas causas de sua pobreza, chamam-me de comunista”.

Para Dom Hélder, como para muitos teólogos, cientistas sociais e filósofos políticos, a pobreza que oprime a maioria os habitantes do planeta não é fruto do acaso. É resultado de formas de organização das sociedades e de sua correlação de forças que permeiam as estruturas sociais. Conforme assinalou o economista Antônio Delfim Neto, em artigo na Folha de São Paulo, o capitalismo financeiro é um avassalador produtor de concentração econômica (Ver http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/98290-marx.shtml). Sem um poder político que lhe detenha sua fome insaciável de riqueza, a tendência do século 21 será a de produzir ainda mais pobres e pobreza no mundo. De fato, a globalização, como bem demonstrou o século passado, tende a aumentar as desigualdades sociais pelos diversos níveis de integração econômica que permite aos diferentes estratos econômicos, reforçando uma violência estrutural por meio do desemprego em massa e anomia das populações e instituições nacionais. Uma de suas marcas é o enfraquecimento Estado, aumentando a privatização da esfera pública, tendo em vista o favorecimento das classes dominantes, não importando as consequências sociais, políticas e ecológicas que possa provocar. O crescimento capitalista em valores reais se apoia na exploração do trabalho vivo e da produção de bens e serviços. Controlar o trabalho é condição essencial para o lucro capitalista.

A globalização amplia essa condição de exploração no momento em que recombina a nível mundial duas estratégias de maximização dos lucros capitalistas. Primeiramente busca estender a jornada de trabalho humana associando-a com a redução do padrão de vida dos trabalhadores e da erosão do salário real (vide as “reformas” iniciadas por Temer). Em segundo lugar, somando-se à definição anterior, busca-se maximizar lucros por meios de mudanças organizacionais e tecnológicas (p. ex., a terceirização) que combinam formas avançadas com formas antigas de produção e controle do trabalho, fazendo com que haja uma alimentação mútua entre essas duas estratégias.

David Harvey anota que 1972 foi o marco do florescimento e da transformação extraordinária dos mercados financeiros, com a explosão de novos instrumentos e mercadorias financeiras, associados à ascensão de sistemas altamente sofisticados de coordenação financeira em escala global. Foi esse sistema financeiro que permitiu boa parte da flexibilidade geográfica e temporal da acumulação capitalista. O sistema financeiro alcançou um grau de autonomia sem precedentes na história do capitalismo diante da produção real, apontando para uma série de riscos financeiros igualmente inéditos. O surpreendente, na visão do autor, é o modo como o endividamento e a formação de capital fictício se aceleraram desde então, ao mesmo tempo em que foram absorvidas maciças moratórias e desvalorizações, com o ritmo de falências bancárias aumentando dramaticamente a partir de 1980. Harvey afirma que “tudo isso é um prelúdio de uma crise financeira que poderá fazer a crise de 1929 parecer uma nota de pé de página da história”.

O ano de 2016 vem trazer muitos ensinamentos para nós brasileiros e brasileiras. Vem demonstrar que, entre outras coisas, alçar-se ao governo não significa deter o poder. O poder é algo muito mais enraizado e complexo. O Golpe realizado neste ano com o impedimento de Dilma Rousseff, pensado desde há muito pelos donos do poder, foi muito parecido em certo sentido com o Golpe de 64: encontrou uma sociedade totalmente fragilizada e desarticulada diante do assalto a que foi submetida. Agora com os golpistas, o desmantelamento da economia e da institucionalidade brasileiras seguem um curso diametralmente contrário ao projeto de nação sufragado pelo voto nas urnas desde 2002.

O ano de 2016 vem demonstrar que votar é necessário, mas não é suficiente. Sem poder não se faz política, não se transforma uma nação.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Editora Dialética); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .