Sem meias-palavras, por ALDER TEIXEIRA

Neste mesmo espaço, para a irritação de muitos com o que consideravam tendencioso de minha parte, escrevi e reescrevi sobre os muitos e muitos indícios de que o então juiz Sérgio Moro, na Lava Jato, agia de forma aética e persecutória contra Lula e o PT. Por vezes, antevi os objetivos que perseguia a fim de limpar o terreno para o então candidato a presidente Jair Bolsonaro, tirando Lula do processo e atrapalhando, às escancaras, Fernando Haddad como segunda opção do Partido dos Trabalhadores. Ainda assim, mesmo quando, despudoradamente, Moro tornou pública a delação imoral de Antônio Palloci, a seis dias do primeiro turno, sabia-se com que intenção, não faltaram críticas ao blog. Vida que segue, dizia eu para com os botões.
Hoje, até onde posso ver, excluindo-se os “olavistas” de plantão, gente cega e burra, e uma elite que lambe os beiços com seu próprio veneno diante das circunstâncias, o prestígio do agora ministro Sérgio Moro parece ir mesmo de ladeira abaixo. A repercussão internacional é de enrubescer, com o Brasil se tornando objeto de piadas que vão do rasteiro ao sofisticado. Deste último, um bom exemplo é a forma como o embaixador sueco Per-Arne Hielmborn despediu-se na Câmara do Comércio referindo à terrinha: “O Brasil não é um país monótono”. A frase, está óbvio, ecoa aquela atribuída a Charles de Gaulle em visita ao país: “O Brasil não é um país sério!”.
Mesmo leigos na matéria, como este escriba, sabem que o Código de Processo Penal é claro em considerar “suspeito” o juiz que se revele parcial, isto é, que se manifeste minimamente ligado por aconselhamento à acusação ou à defesa do processo em tramitação (artigo 254, IV). Nesse caso, não há uma segunda orientação a seguir: Anulam-se as decisões tomadas pelo juiz (artigo 564,I).
Ora bolas! Quem, com um mínimo de vergonha na cara, haverá de negar que as gravações levadas a efeito pelo site The Intercept Brasil mostram evidências de que o juiz Sérgio Moro aconselhava o procurador Deltan Dallagnol a fim de enrolar o ex-presidente Lula? Quem, com vergonha na cara, insisto, negará o que é uma obviedade: Moro e Dallagnol agiam como “parças”, como está no léxico do jogador Neymar, para “criar” provas que incriminassem Lula, impossibilitassem a sua candidatura e, injustamente, o levassem à prisão?
Na sequência, numa demonstração de que é indefensável, mais uma vez, divulgadas as conversas impróprias, Moro veio a público para evidenciar o seu despreparo e a sua desfaçatez: “Basta ler o que tem lá e verificar que o fato grave é a invasão criminosa do celular dos procuradores”. Como se não fosse grave um juiz indicar testemunhas a um procurador, recomendar cuidados, indicar estratégias, e festejar com cinismo a sua popularidade e de seus cúmplices até então.
A direita brasileira, os golpistas de 2016, uma certa imprensa (Globo à frente) e parte significativa da elite que tira proveito direto dessa canalhice, mais uma vez e de forma agora incontrastável, conduzem o país a uma crise moral que põe em risco a imagem do Brasil lá fora e fere de morte a nossa combalida democracia. Triste realidade a nossa!
Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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