São João, por JESSIKA SAMPAIO

“Os brasileiros são estranhos” – Me fala o boy que acaba de ver um vídeo do São João da Paraíba. Fiz questão de sentar e mostrar a festa tão dançada e cantada no meu Nordeste. Apresentei o xote, baião, forró, Luís Gonzaga, a fogueira, o teatro antes da quadrilha e a dança propriamente dita. Só não falei muito da comida – esse é assunto delicado aqui em casa -, tudo que envolve muita mistura de ingrediente ele acha um pouco estranho. Fica meio sem entender quando mostro comidas como pizza com M&M’S®, mungunzá, cachorro quente com carne moída, batata frita com queijo e bacon e por aí vai. Aqui o pessoal não inventa muito em cima da comida tradicional. não. e apesar de comida junina ser tradicional para a gente, sei que é bem diferente para ele. O assunto ‘comida de São João’ vou introduzir no dia que eu fizer o bolo de milho. Até cuscuz eu comprei na última ida a Bruxelas para fazer a iguaria.

Coloquei no Google® e falei da festa da colheita, da importância dos santos no Brasil, das brincadeiras, que esse é um momento muito alegre e muitos desses costumes que mantemos são portugueses “apresentados” pelos jesuítas, afinal o Brasil é país colonizado. Eu sempre deixo isso claro. Quando começamos a falar sobre diferenças dos países, o argumento irrefutável é este. Eu não uso para vencer discussão, é só para lembrar que a nossa história é outra, e se gente como eu, que se criou na Barra do Ceará (comunidade pobre de Fortaleza e hoje dominada pelo tráfico), tem alguma coisa, é com ajuda de muitas pessoas e com muita teimosia.

Quando a cabeça viaja mais que a Glória Maria, olho para mim, sinto que vivo um pouco das peças de teatro que vêm antes das festas juninas. Eu, colonizada me amancebando (morando junto) com colonizador. Parece drama nordestino mesmo, né? Mas os tempos são outros, não há tanto drama entre a gente, não há apagamento cultural e o boy tem consciência, ou pelo menos sempre tenta entender que a construção do país em que ele vive foi feita às custas de colônias, como o Congo, por exemplo, e isso diz muito sobre as possibilidades oferecidas aqui e sobre as riquezas do país.

Eu, colonizada, corro atrás de melhores oportunidades. Não é fácil, e olha que sou privilegiada com a pele clara, os cabelos claros e uma polidez que sei que trago de meus avós. Mas quando falo, veem que não sou daqui e já estranham. Respiro fundo e tento explicar que no país do futebol, Rio de Janeiro e carnaval, há muita desigualdade social, não se fala inglês desde pequeno, não se viaja tanto, muitas vezes a escola é refúgio das violências do lar e da fome, onde se mata ainda muitas mulheres e LGBTQ+ e o abandono parental (pais que abandonam seus filhos) ainda é uma constante. Explico e sou resistente. Se você leu “resiliente”, a palavra da moda, volte meia linha e leia de novo.

Eles não processam a desigualdade na magnitude que vivemos no Brasil, a fome como já passaram e ainda passam os conterrâneos, a luta por terra e o coronelismo até hoje presente. Trabalhei alguns anos com a Caatinga (típica floresta do Nordeste Brasileiro) e sei que ela é verde e cheia de vida quando bem cuidada e quando não serve de moeda para politicagem, mas que nosso povo ainda é pobre e sofre muito sem serviços básicos. Vivo falando para o boy – O nordeste deveria se separar do Brasil! Ele sabe que tenho orgulho de onde venho e que eu desejo uma nova Confederação do Equador — se acontecesse, era capaz até de eu voltar só pra entrar na briga.

Mês de junho me traz tanta lembrança massa. Era a época de esperar a nota das provas e torcer para passar de média, era ensaiar em casa a dança da apresentação, e na faculdade era juntar a galera para ir para os “Arraiá” comer pratinho, ver as quadrilhas e beber São Braz. Fazer a grande roda, dançar com vestido rodado e ouvir as músicas de que nunca cansamos.

Lembro que meu primeiro beijo, aquele valendo, sem ser com primo, foi em uma festa de São João. Eu sou meio chata e não aderi ao São João sertanejo que veio dos outros estados. Aqui em casa impera é a sanfona, e ainda invento de tentar uns passos. Ando enferrujada. Mas o forrozim encoxado ainda sei dançar. E é bom, viu?!

Só me entristece uma coisa nessas festas e não estou falando do bucho cheio após tanta comilança. Sei que a macaxeira, a farinha e muitas coisas trazemos das nossas raízes, literais e culturais. Sei que a gente nunca é puro de história e essência, sempre pegamos algo do que vivemos e adaptamos, muitas vezes. E aqui falo no micro e macro, pessoa e país, principalmente quando se é colônia. Vez ou outra me pergunto: o que tinha antes do São João dos Portugueses? O que os verdadeiros donos da terra faziam nessa época do ano? O que o genocídio e o apagamento cultural não deixou que conhecêssemos.

O que os colonizadores viram que acharam estranho pelas nossas terras?

Jessika Sampaio

Curiosa, tagarela, viajante, feminista, caótica e contraditória. Ignorante sobre quase tudo e em constante aprendizado sobre o vazio da existência. Além de ser bicho humano, já atuei como jornalista, radialista, assessora de imprensa e de comunicação, coordenadora de comunicação e em lutas ambientais e LGBTQIA+. Em processo de aceitação da escritora que grita aqui dentro.

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