Sanatório, sanatório, se não acabar, me leva – HELIANA QUERINO

O rosto de Acácia, iluminado pela alegria do carnaval, refletia o êxtase de uma festa cearense. Sentada numa pontinha do banco, para ganhar fôlego por dois minutinhos, enquanto Pingo de Fortaleza, no palco, embalava Paz de Oxalá. Mayara Rogério segurava a minha mão direita, derretida de suor. A mão esquerda, Renan Medina segurava com a alegria de um irmão que volta para casa. Um professor do curso de jornalismo mostrava as coxas peludas. num vestido vermelho sexy de bolinhas brancas, e Frida, moderna e Kahlo, era a fantasia favorita no meio da multidão. Sanatório Geral, Gentilândia, dois mil e alguma coisa.

No Sanatório, mendigos, altivos e faces de toda cor, cada um trilha seus próprios caminhos de felicidade. Dias de fevereiro e março separam o homem das medíocres filas de supermercados com seus carrinhos cheio de enlatados, pacotinhos disso e daquilo, engradados de cervejas e carnes com sal grosso para churrasco de fim de semana, ticket de estacionamento, porta de escola 7h e 11h da manhã. Marido e mulher – filho na piscina – posto de gasolina, casa, sofá, boletos e bucho cheio de cerveja no entardecer de domingo.

É hora de deitar. Dormir cedo, amanhã é segunda feira. Tudo milimetricamente ajustado pelo relógio do sistema. Tanto faz se tem carro ou vai a pé, se tem bike ou anda de circular. Mas, finalmente, “despausa”, desarrumação para dias certinhos. Tira-se a gravata, soltam-se os cachos do cabelo, desce do salto, se despenteia e veste a fantasia dos sonhos mais ousados. A praça recebe o Sanatório.

Então aproveita cada segundo vivido, cada letra e batuque da diversidade rítmica e as leves fantasias que iluminam as trevas de qualquer consciência nos dias de carnaval. A angústia de ruas alagadas, aldeota iluminada, periferias insalubres, árvores violentadas, engarrafamentos e filas para todo lado, não são coisas que atingem os fortalezenses nos três ou quatro dias de festa. Depois disso, tudo volta ao normal, muitos de nós adormece. Mas por hoje, é uma terça feira gorda, estamos no sanatório.

Acácia não se preocupa com o batom rubi que escorre por meio das linhas dos lábios setentistas. Ela, a dona do sanatório, o próprio sanatório. Se divertia com as fantasias de cada um dos que dançavam à sua frente. A acumulação de mentiras num paletó velho de um lord, uma completa confusão numa bolsa de madame desinformada, fingindo ser do “new povão”, um poeta esquizofrênico tentando resistir à folia do tempo com humildes sandálias de falsas correias, a língua excitante dos casais recém-apaixonados e a alegria contagiante de crianças com palitos de algodão doce. Novas gentes, novas siglas, novos sentidos.

Alegria, alegria, é carnaval, é folia. Acácia desde sempre sabia. Valia a pena o auge dos seus setenta anos. Brilhosa, irônica, ofegante e afagante – brincava com todo mundo – sanatório, sanatório, se não acabar, me leva…

Todos, no entanto, quando a fome apertava, escolhiam em qual barraquinha comprar a bebida e a comida. Opções mil. Espetinho cult, cachorro-quente cult bacaninha, risole vegano universitário, pratinho karl Marx, caipirinha FreudNietzscheana… Com tantas panelinhas de vatapá, paçoca e baião embaixo das copas bonitas das árvores do Benfica, era difícil alguém se frustrar com suas escolhas, pelo menos até quarta-feira-de-cinzas.

Amigos e amigas de Acácia, antes do final da tarde já se espalhavam por outros cantos carnavalescos, – Mocinha, Dragão, Mercado do Pinhões.

Tantas praias, tantos versos, tantas coisas são a cara de Fortaleza…

–  Mayara, escuta isso, é a minha loa favorita!!

Renan sorria que nem menino, Mayara esbanjava alegria e nós três e toda a Praça, com e sem turbante, em terra onde o mar se deita na areia, os filhos de toda cor, além da tarde e uma noite azul, cantávamos junto com Pingo, a loa Paz de Oxalá:

…Vem meu rei Obatalá

 Abençoar filho de Santo

Traz pra todos tua paz

Epà Epà Bàbá, nossa paz é de Oxalá…

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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