SALVEM O BRASIL DO “MARICAS” – AINDA HÁ TEMPO!

O presidente Jair Bolsonaro, ao nos chamar a todos de maricas, como o fez na última terça feira, foi, a um só tempo, misógino e homofóbico, revelando preconceito e nenhum respeito pela população. Até tudo normal, e não deve surpreender a ninguém, pois esse é o sentimentoreiteradas vezes manifesto, que ele nutre pelas mulheres, pelos integrantes do movimento – LGBT e a sociedade em geral. Agora, chama atenção essa fixação que o Presidente tem pela sexualidade alheia, o que revela insegurança em relação à sua. Quanto mais intenso o sentimento homofóbico, maior o medo, há mais insegurança em relação à própria sexualidade, Presidente!

Em seus vários significados, o vocábulo maricas (antropônimo de Maria + –icas), substantivo masculino de dois números, na modalidade depreciativa, significa homem que revela comportamento ou traços tradicionalmente associados ao gênero feminino”, – efeminado; também é adjetivo de dois gêneros e dois números”, para indicar características “atribuídas à homossexualidade masculina”; este o único significado que ele conhece.

O que certamente o Presidente desconhece, por padecer de escassos recursos mentais e múltipla ignorância, é que ainda como adjetivo invariável, ma.ri.cas, indica “pessoa que tem medo de tudo; medricas; cagarola; repleta de covardia”. Portanto,não é o pretenso estilo machão, que ele faz questão de demonstrar, a distanciá-lo da definição de maricas, como nos rotulou no início da semana.

Nesse sentido, é cabível e necessário questionar o Presidente e perguntar: quem é, e/ou são os marica(s)? Os homens e mulheres, gays, lésbicas, transgêneros, trabalhadores do campo e da cidade que, apesar do seu desgoverno, enfrentam a luta diária sob o risco da pandemia sem ter medo de nada ou o senhor que, por incapacidade e covardia, prefere desdenhar da doença e se omitir, em vez de enfrentá-la, enquanto mais de 163 mil já perderam a vida no Brasil?

Como substantivo ou adjetivo, quem é, e/ou, são o(s) marica(s), aqueles que, mesmo desempregados, invisíveis, vivendo na pobreza extrema, submetidos a vários formatos de violência, inclusive pelas agressões verbais que lhes são assacadas diariamente em rede nacional de televisão, e redes sociais, mas que, de maneira honesta, buscam com o seu trabalho construir uma sociedade plural e multicultural, ou quem, investido do cargo de Presidente da República, não é capaz de cumprir com o primeiro fundamento de chefe de Estado, que é respeitar a Nação, e a Constituição que jurou cumprir?

No contexto do significado de medo e covardia, quem é, e/ou são os marica(s), nós jornalistas integrantes da “urubuzada”, como fomos qualificados, por termos a coragem de desvendar e revelar para a Nação o possível cometimento de crime de responsabilidade do Presidente, pelo uso da Policia Federal, Receita Federal e ABIN, para tentar levantar informações, numa tentativa desesperada de anular o relatório do COAF, que revelou a movimentação financeira suspeita nas contas do senador Flavio Bolsonaro, agora denunciado pelo MP, do Rio de Janeiro, por corrupção, lavagem de dinheiro e comando de organização criminosa?

Sobre esse crime, é imperioso afirmar que, na mesma terça-feira em que fomos chamados de maricas, o STF encaminhou à PGR pedido de investigação sobre a utilização dos órgãos do Estado, pelo Presidente Bolsonaro, em defesa do Senador, pois, pelo medo de ver o filho que caminha a passos largos em direção à prisão, utiliza-se do cargo para colocar a estrutura do governo a fim de defendê-lo. Em razão de tal abuso de poder, cabe perguntar: quem é mesmo o maricas?

Aliás, ante todas essas evidências, devemos também perguntar ao presidente da CâmaraRodrigo Maia: o que falta para abertura do processo de impeachment?

Examinando essa realidade, deve ser dito quese o deputado Rodrigo Maia não tomar uma posiçãoem face das suas conveniências político-eleitorais, seja para sua recondução à Presidência da mesa diretora, seja visando à sucessão presidencial em 2022, corre o risco de também ser considerado tão maricas quanto o Presidente Bolsonaro, por se acovardar perante todas essas denúncias e não fazer nada.

Definitivamente, essa semana foi turbulenta para o governo, e é para ser esquecidaprincipalmente pelos brasileiros. Em um intervalo de 48 horas, o Presidente, de tão atormentado pelo indiciamento do seu filho zero um, pelo MP, do Rio, suas ações variaram da ameaça do uso de pólvora contra os EUA à comemoração da morte de um voluntário que participava dos testes da vacina Coronavac, o que provocou a suspensão dos ensaios clínicos pela Anvisa, tendo sido obrigada a recuar da decisão dois dias depois, numa demonstração cabal de uso político da instituição, ferindo sua reputação e credibilidade.

Em um esforço de compreensão desses desatinos, vamos imaginar um político com quase 30 anos de vida pública, com sete sucessivos mandatos para o Parlamento, exercidos na marginalidade do chamado baixo clero, consciente da sua insignificância política e despreparo intelectual para participar do debate substantivo em favor do País, mas que, pelo valor maior da democracia (que ele tanto despreza), que é o direito de participar de eleições livres e diretas, esse homem, mesmo sendo debochado pelos seus iguais, se lança candidato à Presidência da República, ação considerada por todos uma aventura, só comparada ao sebastianismo português; o resultado dessa aventura sentimos hoje no clima de divisão e instabilidade em que vive a população, bem como no bolso, na saúde, na ciência ou melhor, na negação desta etc.

Agora imaginemos o que sente esse mesmo homem, sem cognição que lhe possibilite entender a realidade, e que após dois anos de mandato e um governo, moral e administrativamente vergonhoso, em que a bandeira de combate à corrupção se revelou uma falácia, pois ela percorre os gabinetes de seus líderes, e os corredores do seu gabinete por onde eles transitam livremente, passeia pelas contas bancárias de seus familiares, e em termos administrativos os resultados são: a iminência de uma segunda onda do coronavírus, uma dívida pública explodindo e beirando aos 100% do PIB, com um défice que deverá ultrapassar os 900 bilhões, até o final do ano, o desemprego aumentando e a inflação batendo a porta, onde o próprio ministro, Paulo Guedes, admite o risco de hiperinflação.

Some-se a todos esses desmandos a derrota iminente nas eleições municipais de amanhã, naprincipais capitais brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, onde o governador Romeu Zema é seu aliado de primeira hora, além de Recife e Fortaleza, onde seus candidatos também deverão perder as eleições.

As evidências estão a indicar que o Presidente está com medo, muito medo, conforme sentem os maricas; não só dos demônios que alimentam processo criminal contra seu filho Flavio Bolsonaro, mas também do fracasso inexorável do seu governo, que aceleradamente se aproxima do abismo econômico, risco esse admitido pelo ministro Paulo Guedes, o que compromete sua tentativa de reeleição em 2022, transformada no seu objetivo de vida. Um fim em si mesmo.

Em razão de todos esses fatos, não é difícil perceber que essa alma está atormentada, vendo diabinhos quando fecha os olhos, e, por mais maricas que ele seja, somos cristãos, e por isso essa alma merece de todos nós comiseração, e do Congresso Nacional, a manifestação cívica e democrática, de outorga do seu impeachment, mandando-o de volta para casa, de onde aliás nunca deveria ter saído, livrando-o desse tormento que é governar sem ter capacidade para tanto. Esse é o apelo que fazemos nesta reflexão.

Por fim, não é demais lembrar que precisamos respeitar o luto do Presidente Bolsonaro, pela viuvez que está tendo que superar em razão da derrota de Donald Trump, seu grande ídolo e “amigo”. A propósito, alguém saberia explicar qual dos significados de maricas se aplica a essa relação de amizade entre os dois chefes de Estado?!

 

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Arnaldo Santos

Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.

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