Romance IX

A corrosão inerente começa quando adiamos as coisas, quando começamos a negociar com o tempo de uma forma que o tempo não permite: o tempo feito o mar não tem cabelos, mas também, igual ao mar, não tem uma cara em que se possa bater; mas, o mar, ao menos, é uma massa de água visível, ainda que também não se possa negociar de verdade com o mar. É difícil acordar de manhã, diz com razão certo poeta — ele usou isso no título de um livro de poesias — e tomar as atitudes que esperam de nós, que esperam que executemos sem reclamar: que desistamos dos sonhos ou que tornemos o sonho um passatempo e chamemos o passatempo de literatura, pois são outras coisas que dão dinheiro, não as flores selvagens e as borboletas selvagens, não a percepção exata da nuance de uma sombra, não a opinião precisa sobre os quadros de Eduardo Francelino, não a palavra mais certa no canto do tijolo mais exato, não a paixão incondicional pela verdade, não o amor pela beleza e o amor pela feiura das coisas, não o acorde rebelde, não o abandono sobre a relva, não a morte sob o sol enquanto existe a fome, não a memória de uma menina que quer se resgatar e dar o maior dos gritos, não o metro exato, não a rima perfeita, não a rima livre, não o verso livre, não o erotismo romântico dos corpos que se encontram no final da história, não o desencontro absoluto, o desencontro absoluto, o desencontro absoluto. Tempo é dinheiro, dinheiro é tempo. Somos tristes e precisamos sorrir; somos tristes e não podemos chorar: para nós a aleluia da indústria farmacêutica, para nós a aleluia do álcool no final de semana, para nós as flores de plástico e a ilusão dos brinquedos feitos de ouro falso. Para nós um deus que foi bondoso de nos criar e depois disso cobra nossa eterna gratidão, temor e obediência. Para nós um deus que não ri e não sabe dançar. Para nós a santidade triste ou de humor sem graça ou o destino de brutos pecadores sem ironia. Para nós o tempo marcado pelo relógio, com o qual negociamos segundo a segundo. Para nós uma esperança eterna de final de semana de gente cansada. E tudo que desejamos então é dormir um pouco mais. Para nós — a constante solidão de solitários nós. Para nós a revolução sempre adiada, para nós a negação de toda possibilidade de revolução, para nós — apenas nós mesmos — as promoções instantâneas e as loucas aventuras do consumismo. Para nós, nós que queremos o escândalo de tudo isso, nós, que queremos o avesso imediato de tudo isso, o não silencioso e eloquente de editores invisíveis. Enquanto isso, levantamos como se saíssemos da sepultura do sono, pois precisamos ir para onde não desejamos ir, pois é preciso ganhar os trinta dinheiros do sustento, pois o último segundo negociado já passou.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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