“RESSUSCITA-ME” – Alexandre Aragão de Albuquerque

O poeta russo Vladimir Maiakoviski (1893-1930), profundamente revolucionário nas formas literárias, ideias e lutas que defendeu, utiliza a linguagem do dia a dia para produzir suas composições poéticas. O músico brasileiro Caetano Veloso, com sua refinada expertise, criou uma bela canção para o poema “O Amor” do autor russo, divinamente interpretada pela eterna Gal Costa: “Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão. Ressuscita-me, lutando contra as misérias do cotidiano, ressuscita-me por isso. Ressuscita-me, para que ninguém mais tenha de sacrificar-se por uma casa, um buraco. Ressuscita-me, quero acabar de viver o que me cabe, minha vida, para que não mais existam amores servis”.

A política moderna ocidental desde Maquiavel, com a epistemologia eurocentrista de religião cristã, de ciência cartesiana e de filosofia greco-latina, pela qual o mundo ocidental foi colonizado, contém intrinsecamente grades de aprisionamento das populações e culturas invadidas, por negar desde então o agenciamento político a estas pessoas classificadas como inferiores em termos de origem, raça, renda, gênero, sexualidade, credo. Ser branco, do sexo masculino, cristão e proprietário dos meios de produção são as principais características que alicerçam a metalinguagem racista e patriarcal da dominação colonial eurocêntrica, deixando entender que essa identidade superior emerge como “algo natural” nos processos político-sociais e não como algo resultante da dominação imposta pela ideologia (força e discurso) imperialista.

 

Consequentemente, as pessoas consideradas inferiores tiveram negado também o agenciamento epistêmico pela mesma razão.

 

Por exemplo, até a chegada dos europeus – espanhóis, portugueses, ingleses, franceses e holandeses – às terras do continente do lado oeste do Atlântico, não havia índios. Existiam povos nativos com suas culturas e crenças. Como afirmou nos anos 1960 o intelectual ativista boliviano Fausto Reinaga: “Eu não sou índio, sou um aymara. Não ignoramos o que os europeus querem nos dizer e o que nos dizem quando nos chamam de “índios”. Dizem-nos, então, que somos de raça inferior, pessoas derrotadas, nação de escravos. O índio, para os “brancos”, é a besta”.

 

Da mesma forma, não havia negros no recém-descoberto continente “americano”; eles só passaram a existir, de forma escravizada, por cerca de 400 anos de sofrimento facínora e bárbaro (um tempo infinitamente maior do que a duração do nazismo europeu) somente após o massivo comércio oficial, com a cumplicidade da Igreja Católica e das Monarquias, através do Atlântico operado pelos brancos europeus. Metade deste tráfico de humanos negros foi realizado pelos portugueses para o Brasil.

 

Fausto Reinaga é um dos intelectuais nativos que analisa muito profundamente o processo de exploração colonial do continente americano que beneficiou estrondosamente a economia das potências imperialistas europeias. No século XIX foram criadas várias nações internamente colonialistas com os movimentos de independência com os quais as elites locais desses novos países latino-americanos deram continuidade ao estado de exploração e segregação fundado nestas terras pelos europeus colonizadores. Os novos Estados republicanos não foram criados para a maioria de suas populações, mas para a elite patriarcal herdeira dos colonizadores, a qual buscou manter e ampliar os privilégios históricos.
Reinaga destaca ainda, a partir da análise dos exemplos da luta desenvolvida por Mahatma Gandhi e Martin Luther King, que apesar de haver produzido grandes mudanças no cenário político, a desobediência civil sem uma “desobediência epistêmica” permanecerá sempre presa em jogos controlados pela teoria política e pela economia política eurocêntrica. Uma das realizações da razão imperial é a de afirmar-se como uma identidade superior ao produzir construtos inferiores (raciais, nacionais, religiosos, sexuais, de gênero). Neste sentido as eleições de um índio, como Evo Morales, ou de um torneiro mecânico nordestino, como Lula da Silva, ameaçam abertamente essa razão imperial global, porque comprovam que índios e trabalhadores são capazes de produzir uma lógica diferente de fazer política, mais inclusiva socialmente, contrária ao que o imperialismo o faz até hoje. Sendo assim, cabe às populações latino-americanas unirem-se para ressuscitar urgentemente o que foi golpeado.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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