Reais e imaginários

É como se Gabriel García Márquez e Mário Vargas Llosa, por quase toda a vida, ocupassem uma mesa para escrever, a quatro mãos, contos, roteiros de cinema, crônicas e outros textos de altíssima qualidade, os quais, sob muitos aspectos, ajudassem a compreender seus processos criativos e suas percepções de mundo. O resultado, posso acreditar, seria esplêndido. Curiosamente, foi o que ocorreu a dois outros grandes escritores de língua espanhola, os argentinos Adolfo Bioy Casares (1914-1999) e Jorge Luis Borges (1899-1986).

Tudo começou, supostamente, por volta de 1936, numa fazenda de um tio de Bioy, rico produtor de leite e derivados, e tinha por objetivo apenas divulgar os produtos processados a partir do líquido precioso, o iogurte La Martona. Do ponto de vista comercial, o empreendimento não foi bem-sucedido, mas ensejou uma parceria que entraria para a história da literatura hispânica — e que só agora chega ao Brasil em tradução notável de Maria Paula Gurgel Ribeiro (Companhia das Letras, 2023).

Mas o livro, claro, não enfeixa textos assinados pelos dois autores, de cuja convivência nasceu um “terceiro homem”, Honorio Bustos Domecq*, uma espécie de heterônimo que veio ao mundo em 1941 e para quem Bioy e Borges tiveram a preocupação de traçar um perfil psicológico jocosamente atribuído à educadora Adelma Badoglio, também ela produto da inventividade desses dois monstros sagrados da literatura latino-americana.

Tudo, naturalmente, soa estranho, absurdo, rompendo os limites entre a realidade e a ficção, muito embora, aqui e além, para leitores mais familiarizados com a escrita de ambos, sobressaiam componentes estéticos que viriam a marcar o estilo e os experimentos de linguagem recorrentes em suas obras. Os contos, por exemplo, guardam a mesma atmosfera fantástica que norteia alguns dos textos mais conhecidos de Borges, bem como salta aos olhos a pegada surreal do criador de “A Invenção de Morel”.

O próprio processo de criação da obra faz-nos lembrar o incontornável “Pierre Menard, autor do Quixote”, do livro “O jardim de veredas que se bifurcam” (1942) ou o não menos genial “A Biblioteca de Babel”, com razão considerados os mais borgeanos dos textos do escritor argentino. Naquele, a cujo enterro Borges afirma ter assistido, sabe-se que se propunha realizar, numa obra invisível, a mais perfeita tradução para o francês do clássico de Cervantes; neste, o autor supõe a existência de uma biblioteca total, com todos os livros e todos os seres, mas em cujo labirinto estaria a perdição do homem. A questão do “duplo” em Menard, e o “labirinto”, n’A Biblioteca, antecipam-se em muitos dos contos deste maravilhoso “Bioy e Borges, obra completa em colaboração”. À essa altura, no entanto, deve-se observar que seus textos quase sempre remetem a outros textos. “As noites de Goliadkim”, para citar um dos mais densos do livro, traz perfumes de Agatha Christie e seu conhecido “Assassinato no Expresso Oriente”, mas noutra chave estilística, mais complexa e incompreensível.

O elemento central dessas histórias, contudo, o fio condutor propriamente dito, é a imaginação livre, a capacidade de pensar como realidade aquilo que habita o sonho, a fantasia, o engenho criativo, bem na linha do que é possível encontrar em Wittgenstein (1889-1951) e o “Tratado Lógico-Filosófico”, em que Bioy e Borges, sem o citarem, supostamente encontraram o suporte teórico para tecer narrativas tão intrigantes e tão sedutoras.

A edição brasileira desse livro indispensável (refiro-me, claro, aos leitores de Borges, sobretudo), traz ao final três textos extremamente enriquecedores e elucidativos (como é próprio dos bons posfácios): Nós é um outro, de Michel Lafon; De igual para igual, de José Pimentel Pinto, e Quando dois são três ou mais, de Davi Arrigucci Jr.

Numa época de tantos desencontros, mais que nunca a arte constitui uma alternativa de ação, um caminho para chegar ao outro, para vivenciar o sentido pleno da alteridade — a função outrativa da linguagem a que se referiu Edvard Lopes em livro por demais conhecido —, de que “Bioy e Borges”, o livro que acaba de nos chegar às mãos, constitui bom exemplo.

Mais que recomendo.

*Bustos é sobrenome de um bisavô de Borges; Domecq, de um bisavô de Bioy.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica