Quiprocó ou: do capitalismo como religião secular, por Pedro Henrique

Quid pro quo. Termo latino que designa: “tomar uma coisa por outra”. Em termos cotidianos atuais poderíamos compreendê-lo como: “trocar alhos por bugalhos”. Dessa maneira, um quid pro quo acaba por gerar grande confusão.

No Grande Dicionário Houaiss é feita uma referência ao primeiro dicionário da língua portuguesa, de Raphael Bluteau, denominado Vocabulário portuguez e latino, que assim situa o termo: “Os Boticarios tem hum livro, a que chamão com termos Latinos, Quid pro quo. Quando não tem hũa droga, achão nelle outra, para porem em seu lugar. Daqui veyo o dizerse, Livrenos Deos de hum Quid pro quo; porque às vezes ha erro nas drogas, & em lugar de mezinha, dão os Boticarios veneno”.
Essa passagem refere-se às “pharmacias” do medievo latino, às quais se recorria em busca de um “phármakon”, de uma substância para um dado problema de saúde. Quando não havia a tal substância, o farmacêutico então consultava um grosso livro denominado Quid Pro Quo para a substituição do “phármakon” em falta. O que parecia ser uma operação simples acabava por se desdobrar num grande problema, num grande quiproquó.

No primeiro capítulo de O Capital, Karl Marx se utiliza do termo para definir o fetichismo da mercadoria, que é “inseparável da produção de mercadorias”:
“[O caráter misterioso da forma- mercadoria consiste, portanto, simplesmente em que ela apresenta aos homens as características sociais do seu próprio trabalho como se fossem características objetivas dos próprios produtos do trabalho, como se fossem propriedades sociais inerentes a essas coisas; e, portanto, reflete também a relação social dos produtores com o trabalho global como se fosse uma relação social de coisas existentes para além deles.] É por este quiproquó que esses produtos se convertem em mercadorias, coisas a um tempo sensíveis e suprasensíveis (isto é, coisas sociais)”.

Outros termos, aliás, são utilizados por Marx nesse primeiro capítulo: “’segredo’, ‘subtilezas metafísicas’, ‘argúcias teológicas’, ‘misterioso’, ‘caprichos’, ‘forma bizarra’,​​‘caráter​​místico’, ‘caráter enigmático’, ‘forma​fantástica’, ‘região nebulosa’, ‘enigma’, ‘hieróglifos’, ‘misticismo’”, como nos alerta Anselm Jappe em seu livro As aventuras da mercadoria. Algo que expressa não só a dificuldade da questão e o porquê de “o espírito humano… [ter] tentado em vão devassá-la” (Marx), mas também o fato de as relações modernas terem um negativo comum às relações pré-modernas: o fetichismo, que inverte a relação entre sujeito e predicado, entre criador e criatura.

Como diria Voltaire nas Cartas Inglesas: “Entrai na Bolsa de Londres, praça mais respeitável do que muitas cortes. Aí vereis reunidas, para a utilidade dos homens, deputados de todas as nações. O judeu, o maometano e o cristão negociam como se pertencessem todos à mesma religião. Só é infiel quem vai à bancarrota”.

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Terapeuta Holístico em formação pelo espaço Ekobé.

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3 comentários

  1. Avatar

    Pedro

    Tudo em volta esta deserto; tudo certo. Tudo certo como dois e dois sao cinco. Um comentario e sempre bem vindo, senao vira um certo autismo. E a mercadoria permanece sendo o enigma da esnfige, o quiproco fundamental, desse colosso que edificamos e chamamos de civilizacao. Grato!

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      Pedro

      Tudo em volta esta deserto; tudo certo. Tudo certo como dois e dois sao cinco. Um comentario e sempre bem vindo, senao vira um certo autismo. E a mercadoria permanece sendo o enigma da esnfige, o quiproco fundamental, desse colosso que edificamos e chamamos de civilizacao. Grato!

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