Quando deixaremos de não-ser e enfrentaremos de fato a realidade?

Ser ou não ser, eis a questão. Uma das frases célebres do príncipe Hamlet. Vários autores a traduzem, em função da amplitude de significados que o verbo to be adquire na língua inglesa, para “existir ou não existir, eis a questão”. Mas o que teria uma obra clássica, escrita nos anos 1600 a nos dizer hoje, no campo da política?

Segundo vários intérpretes da obra de Shakespeare, Hamlet é o primeiro homem moderno que toma decisões a partir de lógicas e estratégias, sem apelar para os preconceitos metafísicos de sua época. Ele crê no poder de sua ação e de sua liberdade pessoais, concebendo-se como agente de sua própria história: “eu sou o senhor do meu destino”. Procura assumir-se enquanto tal ao buscar ter uma consciência brutal de si e das coisas, perguntando-se sobre o sentido de sua existência.

Tomar consciência é, de fato, um fardo. A consciência nos obriga a pensar sobre a realidade das coisas. Quando uma pessoa toma consciência de si e da vida ao seu redor, ela já não sorri o tempo todo, porque vê mais profundo, e isso pesa. Alguém consciente percebe que uma mudança de governo não implica uma mudança de estrutura injusta: mudar uma estrutura demanda tempos e engajamentos bem maiores, num longo amanhecer de lutas e conquistas. Descobre também que os problemas apresentados na televisão global são falsos: são exibidos justamente para não sabermos dos problemas reais. Que imagens e reportagens editadas em revistas e jornais são enganos de consciência para que não vejamos, por exemplo, os reais ganhos estratosféricos do capital financeiro globalizado, beneficiário do sistema da dívida, em detrimento da fome mundial que massacra humanos como nós. Que festas e mais festas são produzidas em ritmos frenéticos para não termos tempo de expressar nossa dor e melancolia pela situação em que muitos se encontram.

Noutra passagem célebre, Hamlet exclama: “há algo de podre no reino da Dinamarca”. O reino apodrecido manifesta a microfísica do poder pela qual se compreende o mal presente nas mais diversas relações sociais. O mal jamais estará localizado apenas num indivíduo, num grupo social ou num único partido político. E aqui há de se ressaltar o grande valor da democracia, diferentemente dos regimes autoritários e fascistas, pois com ela podemos ter a consciência do que acontece. E com essa consciência, agirmos livremente em busca do mundo que desejamos.  Se de fato queremos continuar a fazer com que nossa democracia recente produza resultados que aprofundem nosso processo inclusivo civilizatório, e não retornemos à barbárie de ditaduras do passado, precisamos encarar os fatos de frente em vez de comportarmo-nos como marionetes nas mãos de determinados setores da sociedade, detentores do poder financeiro nacional e multinacional. A hybris de hoje pode ser altamente pedagógica e frutífera se dela conseguirmos, pela tomada de consciência e pela ação sapiente, aprofundar nosso processo democrático, por meio da mais diversificada participação, indispensável para qualquer democracia que se deseje saudável e sólida.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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