PRECISAMOS SER MAIS EGOÍSTAS

No universo das palavras egoísmo, ou ser egoísta, vem ao longo do tempo ganhando um sentido pejorativo. O Dicionário Aurélio define egoísmo como sendo “amor excessivo ao bem próprio, sem consideração aos interesses alheios” e o egoísta sendo a pessoa “que demonstra egoísmo, egocêntrico, pessoa egoísta.” Em escrito anterior nos posicionamos contrário às definições contidas nos dicionários pela ausência de texto e contexto em relação às palavras (autoritariamente) definidas pelos (autores) dos dicionários. Um amontoado de definições sem nexo, na realidade.

Em nosso escrito pretérito afirmamos da necessidade de refletir sobre a solidariedade e, naquele momento, deixamos em aberto tal reflexão. Entendemos ser a solidariedade um ato egoísta de onde somente nosso ser, em seu sentido egoísta, pode realizar. Ninguém pode ser solidário por nossa pessoa. Daniel Gilbert em entrevista a Gardiner Morse para a Coleção Inteligência Emocional afirma que “uma das coisas mais egoístas que você pode fazer é ajudar os outros. Seja voluntário em um abrigo. Você pode ou não ajudar os desabrigados, mas certamente vai ajudar a si mesmo.” (GILBERT, Daniel In Felicidade, p. 45) apontando para a necessidade de atos, ou atitudes, que somente nossas pessoas podem realizar, a partir de uma decisão egoísta, para fazer a nossa pessoa feliz. 

A posição de ser egoísta não significa, de maneira alguma, ser uma pessoa contrária à felicidade alheia ou a sua própria felicidade. Pelo contrário. Quando agimos de forma egoísta ajudando ao próximo, que vem a ser o Outro, estamos realizando aquilo que mais desejamos: ser felizes. Esta atitude é nossa e de mais ninguém. A decisão de ajudar alguém não pode ser tomado por outra pessoa e realizada pelo nosso ínfimo ser. O problema reside, portanto, nas definições postas pelos dicionários em relação às palavras e que destoam do real sentido/signo/significado destas. O egoísmo dos dicionários é o negativo, enquanto nosso egoísmo é positivo. Somos egoístas em relação aos nossos filhos e não percebemos ser, a educação deles, uma atitude egoísta de nossa parte. Afinal, ninguém gosta de que um terceiro venha a dizer o que nosso (a) filho ou filha venha a fazer. 

Ser egoísta em sentido positivo – olhar para o Outro a partir de uma decisão nossa – é o caminho à construção da felicidade a partir da solidariedade. Somente nós, na condição de indivíduos, podemos ser solidários em relação a alguém, a um Outro, e este resultado nos põe um sorriso no rosto ao mesmo tempo que massageia nosso ego: estamos felizes. Felizes em dupla condição: a felicidade interior e felizes por colocar algum sentido na vida de alguém a quem estendemos a mão. 

Solidariedade e Felicidade, portanto, tem seus alicerces no egoísmo que não aprendemos a cultivar porque fomos ensinados a decorar (o que não significa aprender) o sentido/signo/significado da palavra egoísmo, ao tempo em que nossos pais diziam para não sermos egoístas. Rousseau em O Emílio ou Da Educação nos apresenta o caminho à felicidade em seu sentido egoísta em um plano filosófico. São inúmeras as passagens em que Emílio não deve fazer isso ou aquilo, mas deve apreender a tomar suas próprias decisões. Tais decisões devem ser fruto de seu aprendizado e não simplesmente postas ao mesmo. São decisões, portanto, egoístas em sentido positivo. O professor em sala de aula não deve ensinar tudo a seu aluno, mas deve deixar que este apreenda o conteúdo ministrado. Eis o professor sendo egoísta em sentido positivo mesmo a negar o tempo inteiro tal fato. E como os professores negam seu lado egoísta!!!

Para comprovar o que estamos a dizer vamos viver ao que almejamos: a felicidade. Quando estamos felizes com algo, com alguém ou com alguma conquista somos extremamente egoístas. E que pecado existe neste ato? Nenhum. Estamos, apenas, felizes. Felicidade construída a partir de nossas conquistas menores a nos elevar a algo maior: a felicidade. Estamos felizes em nosso aniversário por ser nosso aniversário; estamos felizes com uma conquista por ser nossa conquista. Não existe nada de errado neste egoísmo.

O mesmo se aplica à solidariedade. Ficamos felizes com o sorriso alheio por sermos partes daquele sorriso. Conquistamos o sorriso para alguém a partir de uma atitude egoísta nossa. E não existe nada a ser recriminado em tais atitudes egoístas. 

Entretanto, um alerta deve ser posto. O excesso de empatia em relação a alguma pessoa de nosso círculo deve ser afastado. A empatia não pode ser em excesso sob pena de não vermos atos equivocados realizados por aquela pessoa e, sendo assim, estamos impedidos de julgar tais atos. Atitudes morais e éticas em sentido negativo são, por nossas pessoas, encobertas pelo excesso de empatia a nos impedir de julgar tais fatos. A empatia não deve ser confundida com proteção ao ato equivocado a necessitar de julgamento por nossa pessoa. 

Todavia, crescemos julgando os egoístas e colocando os mesmos na fogueira da inquisição moderna. Seu, seu egoísta!!! Deixe de práticas egoístas!!! Você não enxerga o Outro? Tais posições comuns em nossa sociedade impedem de que possamos visualizar o homem em sua plenitude a lutar pelos outros. Prometeu ao roubar o fogo dos deuses para passar aos homens foi egoísta? Claro que sim. O egoísmo não significa ficar com a coisa para si, mas tomar uma decisão em favor de uma coletividade. Ocorre que esta decisão somente pode ser tomada por nossa pessoa. 

Quem poderia realizar os 12 trabalhos de Hércules? 

Quem poderia lutar por Aquíles?

Quem poderia afirmar que existe uma força a atrair os corpos ao solo?

A resposta a estas perguntas, aparentemente novas, é uma só. Um ser egoísta realizou as tarefas de Hércules; Aquíles lutou por ele e por sua glória, Newton nos presenteou com suas leis. São estes mitos e homens postos como egoístas? Não. Claro que não. Fizeram em nome de uma sociedade, da sociedade em que viveram. Quando nossos pais fizeram algo por nossas pessoas nós os chamamos de egoístas? Não. Nos glorificamos de ter pais a lutar, sozinhos, por nossas pessoas.

É chegada a hora, portanto, de sermos mais egoístas e lutarmos por nossas pessoas e pelas pessoas que dedicamos um sentimento seja ele qual for. Fica, aqui, a lição da irracionalidade contida no reino animal quando as mães protegem, de forma egoísta, seus filhos. É, sim, o momento de salvarmos a sociedade com mais egoísmo que nos traga mais solidariedade, mais felicidade. 

Basta de corrermos em direção ao nada. Precisamos aprender em direção ao Outro.     

E, antes de criticar este escrito egoísta indico ao leitor a rever suas práticas em relação à solidariedade e ao território, pantanoso por sinal, da felicidade. 

 

Medeiros Júnior

José Flôr de Medeiros Júnior é Mestre em Direito Econômico - PPGD/Unipê e em Ciências Jurídicas - PPGCJ/UFPB, Pós-Graduado em História (UEPB), graduado em Direito - Unifacisa – PB e em História - UEPB. Professor de Direito e Consultor em Educação. Autor de livros, capítulos de livros e artigos sobre meio ambiente, cidadania e o tempo enquanto discussão filosófica. Apaixonado pela literatura com especial olhar aos escritos de Dostoiévski, Camus, Kafka, Borges, Saramago, James Joyce, Mário Vargas Llosa, George Orwell, Umberto Eco. Leitor de Nietzsche, Foucault e Certeau, mas prefere conversar com Walter Benjamin.

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