Pré-leitura do livro TRINTA NAVIOS, de Dimas Macedo

O AUTOR

 

Dimas Macedo é poeta, jurista e crítico literário. Professor da UFC.

 

A PUBLICAÇÃO

 

O livro “Trinta Navios“, de autoria de Dimas Macedo, foi lançado em 2021, pela editora Sarau das Letras, com 184 páginas, prefácio de Ítalo Gurgel, orelhas de Edmilson Caminha.
CIRCUNSTÂNCIAS
O escritor Dimas Macedo tem um vasto e qualificado público que costuma aguardar e cobrar sua próxima manifestação em forma de livro. Em termos de Poesia, seu lançamento mais recente foi de 2020 (Rimance da Infância e Outros Poemas, São Paulo, editora Penalux). Em termos de crítica literária, a espera já vinha desde o ano de 2016, quando saiu Resenhas e Perfis (editora Expressão Gráfica).
O LIVRO
Trinta Navios reúne a produção de crítica literária de Dimas Macedo nestes anos mais recentes, além de artigos, ensaios e crônicas sobre eventos e personagens da cena cultural. Não faltam leituras e releituras de recortes de sua própria trajetória. Nas ondas do livro, Breno Accioly, Machado de Assis, Sânzio de Azevedo e Juvenal Galeno, a Filosofia de Oscar d’Alva, a Estética de Alder Teixeira e a Personalidade de Paulo Ferreira da Cunha. Os poetas Padre Antônio Tomás, Eduardo Fontes, Sérgio Macedo, Joca do Arrojado, Neide Freire, Carlos Nejar. Inácio Almeida. A arte de Cláudio César e a obra de escritores como Eduardo Luz, Nilto Maciel, Cristina Couto e Marcos Antônio Abreu. Estudos sobre a obra de Clauder Arcanjo, Nelson Hoffmann e Bruno Paulino, merecendo destaque novas observações acerca de Jáder de Carvalho, Fideralina Augusto e Joaryvar Macedo.
A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
Dimas Macedo precisa ser lido, relido, interpretado e entendido. E depois lido outra vez. A cada livro dele, a comunidade da literatura acorda e se agita. E retoma conversas, renova energias, estabelece novas referências.

Nas palavras do prefaciador Ítalo Gurgel — Dimas Macedo confessa com sincero fervor: ser escritor é uma necessidade que o impede de “morrer a cada momento”. Há mais de 40 anos, esse estro vital o tem levado a lançar ao mar da literatura dezenas de embarcações de longo curso, que hoje transitam pelas caudalosas correntes da poesia, da crônica, do conto, do memorialismo, do ensaio literário.

 CURTAS

 

“Sente frio, às vezes, quando a literatura não se faz sua companheira, quando o amor que sente pelo próximo não borbulha no seu coração, ou quando não promove o intercâmbio cultural, utilizando para isso, as páginas do jornal O Nheçuano.

“Chovemos de alegria quando a palavra renasce, ou quando o sol se apresenta na nossa janela, anunciando a chegada do novo. A lua clareia o nosso esquecimento e a chuva nos redime diante da memória, refl etindo, em nós, a incerteza dos nossos idiomas.

“É como se o mapa-múndi fosse povoado de saudades e lembranças que se gravam nos recessos do sonho. É como se o Reno, o Tâmisa e o Sena refletissem a brisa serena do Salgado, o mais doce dos rios, que os meus olhos não se cansam de ver.

“Os historiadores não imaginam os fatos; mas quando são, igualmente, criadores, aí, sim, lhes é permitido imaginar a sua obra literária. Coisa rara, na história, tem sido a existência de historiadores que foram também criadores.

“Separei-me da crítica, sim, mas para viver com a proposta pregada pelo Clauder Arcanjo: separações plurais, separações sem fim, porque, leitores, o casamento entre pessoas jamais existiu, e porque a vida é uma separação entre o que existe e aquilo que nunca se tornou possível.

“O estilo literário de Alder Teixeira afasta-se do jargão acadêmico, prima pela correção do texto e pela poética da sua alocução e do seu viés comunicativo, instâncias nas quais a literatura e o cinema aparecem como pano de fundo.

“Se Antônio Sales é o melhor escritor cearense, nos domínios da expressão estética e na agitação da cena literária; Jáder de Carvalho seria o grande intelectual do Ceará, especialmente, como sociólogo e jornalista, mas também como poeta, que se destaca por sua militância política, rara e desenvolta, dentre aqueles que elegeram a Rua e a Praça como tribunas de suas trajetórias.

BONS MOMENTOS

“O norte magnético deste grande vate é constituído pela rebeldia e pela poética da dor e do espanto. Todos os instintos, uivos e clamores do corpo e da palavra, pulsam nos poemas reunidos no seu novo livro. Mas, no seu conjunto, a sua poesia parece toda ela escrita com o sangue, tornando-se o autor um arquiteto das formas com as quais reinventa as suas criações.

“A civilização do Médio Salgado, no sul do Ceará, deu ao Nordeste uma das suas maiores oligarquias, cujo apogeu efetivouse com o domínio de Dona Fideralina Augusto, que sempre se manteve no poder utilizando os velhos bacamartes e os eflúvios da sua inteligência. A despeito dos conflitos e sobressaltos com os quais se envolveu, especialmente no campo da política, nada foi maior, na sua vida, do que a decisão de invadir a vila de Princesa, no Estado da Paraíba, para vingar a morte do seu neto Ildefonso Augusto, em 1902.

“A busca do tempo compreende muitos regressos e avanços. No universo, nada me parece mais circular do que esta equação. O tempo existe para nos entreter. E quanto mais nos afastamos do presente, menos dolorida será a nossa sensação de perda, e muito mais prazerosa será a nossa satisfação. Daí a busca do tempo melhor, aquele que reluz na demão do passado, que nos faz reviver a infância e que nos leva a pensar o quanto aquilo que perdemos é essencial para nós, e o quanto aquilo que ganhamos pode implicar a nossa negação.

“Tenho consultado críticos de renome, como Vera Oliveira e Dias da Silva, mas eles apenas me confundem. Dizem que a crítica não existe e que sou um visionário em busca de uma mãe, e que a ausência que sentimos da mãe, transforma-se num princípio de dissolução que nos leva para a criação da arte. Citaram Freud e depois Montaigne, Ulisses e Guy de Maupassant. Pediram-me os escritores Sânzio de Azevedo e o Batista de Lima que eu rezasse pensando na alma de Araripe Júnior, de Antonio Candido ou de Braga Montenegro, e que fosse até Belo Horizonte e colhesse com o Fábio Lucas alguma sugestão para continuar escrevendo, mesmo diante da morte da crítica e do ensaio.

“A inquietação existencial e cosmológica, as figuras lendárias da política de Lavras da Mangabeira, as histórias contadas por minha mãe, o rumor das águas do Salgado que passava próximo à nossa casa, a mania que eu tinha de contar as estrelas em noites de muita claridade, a vontade que eu tinha de fugir do drama que eu via prosperando na minha família, o sino que plangia diariamente na torre da Igreja de Lavras, a teimosia em aceitar os limites da educação formal que me era imposta pelos meus pais, o medo de morrer de forma inesperada, assim como todas as crianças que partiam e cujos enterros passavam pela minha rua, marcando a minha voz e o meu jeito de ser com as suas despedidas.

“Fico estarrecido ao perceber o quanto esse poema responde às questões referentes à arte e ao significado da linguagem. Aos vinte e dois anos, quando escrevi esse poema, eu já me encontrava atravessado pelas interrogações do devir e da poesia enquanto pressuposto da minha existência e do ser existencial para a morte. Eu já sabia que estava condenado a escrever e a repetir o sacrifício de Sísifo como alternativa para as minhas crenças, sonhos e valores, em busca de uma resposta para as minhas dúvidas.

“Como cristão e poeta, atravesso estes tempos extremos que estamos vivendo como se fosse a ostra em seu enfrentamento com o vento, como se fosse o rumor que, às vezes, se funde com a concha e com ela se recolhe no sopro sublime da paixão. Sei que a vida é uma Graça, e que, a cada dia, eu a desfruto com a beleza que Deus nos confiou, e com os dons e os talentos que ele conferiu à minha inquietude: branda, como as águas serenas de um rio, mas incompreendida, às vezes, por aqueles que não aceitam a minha liberdade.

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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