Pré-leitura do livro TORTO ARADO, de Itamar Vieira Junior

O AUTOR

Itamar Vieira Junior é escritor baiano nascido em 1979. Foi vencedor do Prêmio Leya 2018 e finalista do Jabuti.

A PUBLICAÇÃO

O livro Torto Arado, de autoria de Itamar Vieira Junior, foi lançado em 2019, pela editora Todavia, com 264 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

Fazendeiros poderosos por todo o Brasil acolheram escravos fugidos e libertos e os exploraram e a suas famílias através do tempo. Ou estes eram quilombos e quilombolas (e seus descendentes) que viram suas terras tomadas por esses “coronéis”. Uma escravidão repaginada. Itamar Vieira Junior oferece um quadro completo dessa violência e de traumas, segredos e mentiras que marcaram gerações.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

A obra de Itamar Vieira Junior tem densidade. Um Brasil profundo aflora no sertão, com seus preconceitos e sua injustiça. Lá prospera o machismo. O racismo é a regra. A infância é em grande parte uma experiência cruel. Estes e outros dramas o livro expõe temperando a força e a beleza da melhor literatura.

O LIVRO

O lugar é a Chapada Diamantina, no sul da Bahia. Possivelmente, nos anos 1950/1960. Zona rural, ambiente de pobreza. A cidade é uma referência distante. A prosperidade, um sonho. A religiosidade negra tem sua força. A partir de um evento dramático na vida de duas irmãs adolescentes quase da mesma idade, Bibiana e Belonisia, o autor vai contando uma história. Mal percebe o leitor que ele passará por três gerações da família e que a crueldade das relações sociais é exposta em camadas suaves da boa literatura. A opressão contra os pobres, contra os pretos e contra as mulheres vai dar sentido especial ao livro, que também canta a natureza e a alma humana.

O título do livro (Torto Arado) refere-se a um instrumento agrícola que caiu em desuso.

CURTAS

“Foi o primeiro lugar em que vi mais gente branca do que preta. E vi como as pessoas nos olharam com curiosidade, mas sem se aproximar.

“Mas a terra é deles. A gente que não dê que nos mandam embora. Cospem e mandam a gente sumir antes de secar o cuspo.

“De tudo que vi meu pai bem-querer na vida, talvez fosse a escrita e a leitura dos filhos o que perseguiu com mais afinco.

“As velas que meu pai acendia para cada criança pareciam não querer permanecer acesas: mesmo sem vento ou golpes de ar, se apagavam.

“Tinha dias em que o sol parecia uma fogueira acesa de cabeça para baixo.

“Como se entre nós não houvesse se imposto um interdito pelo ciúme.

“Chegaram as primeiras nuvens de chuva, e da terra subiu um frescor que os trabalhadores chamavam de ventura.

“O sofrer vinha das coisas que nem sempre davam certo, me fazia sentir viva e unida, de alguma forma, a todos os trabalhadores que padeciam dos mesmos desfavorecimentos.

BONS MOMENTOS

“Meu povo seguiu rumando de um canto para outro, procurando trabalho. Buscando terra e morada. Um lugar onde pudesse plantar e colher. Onde tivesse uma tapera para chamar de casa. Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da lei, mas precisavam deles. Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores.

“Os filhos iam nascendo e iam fazendo suas casinhas e botando suas roças onde os pais já tinham. Durante muito tempo, não houve nada nem ninguém por aquelas bandas. Eram só o povo e Deus. Depois chegou a Igreja e disse que as terras da cidade lhe pertenciam. Não demorou muito e chegou até Lagoa Funda e tudo que estava em volta da cidade. Disse que nossa terra pertencia à Igreja também.

“Seu nome era coragem. Era da linhagem de Donana, a mulher que pariu no canavial, que ergueu casa e roça com a força de seu corpo. A mulher que sentiu as dores do parto e deitou em silêncio, mordendo os lábios para parir mais um filho. A que enterrou dois maridos, e só não enterrou o último porque o sangrou como se sangra uma caça. Foi cavalgando seu corpo que senti que o passado nunca nos abandona.

“Já não danço porque não recordam Santa Rita Pescadeira, porque o curador desta terra morreu, levaram suas forças e o tempo ruiu sua casa. Pairo como o ar e desço como a chuva na terra. Desço lavando o sangue que derramaram sem piedade. O sangue do passado corre feito um rio. Corre nos sonhos, primeiro. Depois chega galopando, como se andasse a cavalo.

“Acudi uma mulher que incendiou o próprio corpo por não querer ser mais cativa de seu senhor. Mulheres que retiravam seus filhos no ventre para que não nascessem escravos. Que davam a liberdade aos que seriam cativos, e muitas delas morreram também por isso. Mulheres que enlouqueceram porque as separaram dos filhos, que seriam vendidos. Vi um senhor cruel deitar com mulheres negras e abandonar seus corpos castigados à morte, como se quisesse expurgar o mal que o fazia cair.

“Participava com interesse e atenção das cerimônias da casa do curador, aprendia de forma dedicada sobre os ritos e preceitos, auxiliava nas brincadeiras, nas cantigas para chamar os encantados. Identificava com facilidade as entidades que surgiam, mudava o ritmo da cantiga, sabia em que velocidade os atabaques deveriam ser tocados, dependendo se queria agitar ou amansar algum espírito.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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