Pré-leitura do livro “SINFONIA…”, de Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu )

O AUTOR

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu) é escritor nascido em 1952. Formou-se em Letras, exerceu o magistério e teve uma carreira como servidor público federal (Banco Central do Brasil). Escreveu dez livros de crônicas e contos.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Sinfonia…— em prosa — D’uma existência (prodigiosa)”, de autoria de Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu), foi lançado em junho de 2022, pela editora Expressão Gráfica, com 964 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

Luciano Moreira (Xykolu) é artesão, gestor e amante apaixonado da palavra escrita. E produz em quantidade com qualidade. Traz do passado eventos e experiências e os relata como se desenhasse pessoas, locais e circunstâncias. Impossível dizer onde começa a ficção, onde termina a realidade, o que foi fato, o que é invenção, nem precisa.

‘Sinfonia…’ reúne textos, basicamente contos e crônicas, entremeados por alguns poemetos, que estavam (todos) amadurecendo e sendo arredondados pela mão caprichosa do autor.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

A obra de Francisco Luciano Gonçalves Moreira mostra um mestre cuidadoso na escolha das histórias e das palavras. O ritmo do autor é único, marca de um estilo singular, talvez exclusivo.

Xykolu tem se recusado a expor-se ao mercado literário e frequentar os grupo dos autores celebrados. Em algum momento futuro breve, o alto nível de seu texto terá o reconhecimento em forma de prêmios ou fama, que ele não busca, mas que seus fiéis leitores já lhe deram em forma de legítima e serena admiração.

O LIVRO

O livro se estrutura como uma peça musical: Preludio (Allegro), Andante, Interlúdio, Minueto (Scherzo), Poslúdio (Rondó) e uma ‘porta de saída’. Entre contos, crônicas e poemas são 144 histórias bem apanhadas, selecionadas e muito bem contadas. O autor não perde o fio da meada, e põe densidade nas tramas — as palavras parecem cuidadosamente escolhidas, polidas, iluminadas, cada aposto, cada linha, cada adjetivo é um detalhe relevante a agarrar e não soltar a atenção do leitor.

A leitura exige fôlego. Os parágrafos de Xykolu são longos. Os eventos são fartos em detalhes. Graficamente, também, é obra singular. Afinal são quase mil páginas num papel especial de alta gramatura. Por seu peso e volume, deve ser lida por alguém sentado e apoiado numa mesa. Em boa parte, certamente autobiográfico. A leveza e a beleza que se oferecem ao leitor se encontram na busca de chegar no máximo de detalhes e de emoções nos textos.

BONS MOMENTOS

“De uma beleza singela, única, inigualável, o rosto aparentemente pequeno, mas de uma expressividade elegantemente manifesta, os cabelos brancos e lisos, corte curto até a nuca, penteados para trás, airosamente adornados por uma fina tiara rósea com laço de fita lateral de igual cor, os olhos irrequietos, de um azul claro generosamente atraente, e ligeiramente nipônicos, o sorriso de uma graciosidade pueril, candidamente cativante, o corpo franzino, frágil, angelical, embora exuberante na simplicidade de suas vestes, a voz agradavelmente sussurrante, límpida, suave, ela afirmou ter apenas 82 anos e sustentou chamar-se Aparecida…

“Até o mar,
Em plena fúria,
E com o vento,
Sem lamúrias,
Se emparceira,
Vira procela
E, lá na praia,
Em altas ondas,
Se esfacela.
E, já abatido
Ou satisfeito
Ou arrependido
Ou contrafeito,
Ele se recolhe,
Ele se acalma.
Há quem o olhe
E até veja…

“Antes, em sonhos — silentes e fluidos como água de nascente; edulcorantes e frugais como favos de mel —, sinto, com a alma fértil de encantamentos, a esplendorosa invasão de meus pré-textos, em fase embrionária. Ao acordar-me, eu os recolho e os acolho e os abraço. E, como se fossem filhos recém-nascidos, indóceis e agitados, mas carentes de cuidados, embalo-os enternecido. Então, eu os crio. E, à medida que ganham alma, eu os recrio, adaptando-os ao meio em que vão adolescer e, adquirindo massa corpórea, amadurecer…

“Um jovem casal de rola-caldo-de-feijão, aformoseado em seu natural paramento marrom e apaixonado em seu canto pouco melodioso, monótono e sequenciado — uú-uú-uú —, demonstrando ainda não ter expertise no assunto, teimou em construir seu ninho num lugar que, no concernente à estratégia, em nada revelou a natural competência que deveria ter sido herdada dos ancestrais, nem a observância aos graves ensinamentos e orientações exemplares dos pais. Esses jovens! Pobres jovens!…

“A poucos metros dali, entre uma moita e o muro de um terreno baldio, sob a frágil e romântica luz prateada da lua, outra gestante ultimava os preparativos para a sua miserável estreia como parturiente. Marialva, antes de deitar-se na sua cama improvisada — o chão duro recoberto com papelão —, ainda encontrou forças para ir até a entrada do motel, onde pediu (Pelo amor de Deus!, que nessas horas por mais ingrato que Ele nos pareça ser, Deus sempre será lembrado!) que lhe dessem um lençol velho ou uma toalha…algo que pudesse protegê-la do frio da noite, no meio da noite, no meio da rua. Ganhou, como presente natalino, um lençol cheirando a limpo…

CURTAS

“Afinal, são elas e eles — as minhas filhas e os meus textos — o que de melhor fui e sou capaz de ré-produzir…

“Perco-me na profundeza — ou seria profundidade?! — das palavras que gostaria de usar. Elas me traem…

“…O céu não sorri pra mim. Esconde-se sob amplo manto cinza-claro. Uma lufada de vento frio submete o corpo a arrepios, enquanto o espírito me alerta para maus presságios…

“Ela, jovem de pouco mais de vinte anos, esforçava-se para não sucumbir aos efeitos danosos das recentes perdas — emprego, marido e mãe —, todas decorrentes da pandemia…

“Nanico, claudicante e magricela, ninguém lhe sabia o próprio nome, pois todos conheciam o pobre homem apenas pela alcunha: Cabidela. Por ele não se dava um vintém de mel coado…

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

1 comentário

  1. FRANCISCO LUCIANO GONÇALVES MOREIRA

    Mestre e amigo,

    Só me resta agradecer pelo tratamento dispensado a um dos meus “filhos muito amados”.

    Um abraço fraterno.
    Xykolu.