Pré-leitura do livro ´Não Basta Dizer Não´, de NAOMI KLEIN – por Osvaldo Euclides

A AUTORA

Naomi Klein é uma jornalista e ativista canadense, além de escritora, com três livros publicados e traduzidos para mais de 30 idiomas. Recebeu o prestigioso Sidney Peace Prize, na Áustria por “inspirar em nível local, nacional e global”. Membro do The Intercept.

A PUBLICAÇÃO

O livro ´Não Basta Dizer Não´, de autoria de Naomi Klein foi publicado no Brasil pela editora Bertrand Brasil em 2017 (mesmo ano de seu lançamento nos EUA), com 290 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

Naomi Klein escreveu dois livros com ideias fortes e originais. O primeiro foi SEM LOGO – A tirania das marcas num planeta vendido, em que denuncia a força das grandes marcas corporativas globais e a invasão de todos os ambientes (governos, escolas, universidades, inclusive) pelos interesses específicos dessas organizações. O segundo foi A Doutrina do Choque: a ascensão do capitalismo de desastre, em que explica como o ´mercado´ impõe sua vontade contra a vontade da maioria, aproveitando o momento que se segue a grandes abalos. O livro Não Basta Dizer Não é a sequência e a união dos dois primeiros para analisar razões da vitória de Donald Trump nas eleições americanas e seus efeitos e desdobramentos mundo afora.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

A ascensão surpreendente do empresário Donald Trump à posição mais alta da hierarquia mundial ainda não foi entendida nem absorvida dentro da sociedade americana, nem no resto do mundo. Entretanto, sua ação de governo já produz uma onda de eventos similares no resto do mundo, como no Brasil, por exemplo, ou como no enfrentamento de uma questão global, como a mudança climática. O livro explica muitos dos elementos que deram a vitória a Trump, avalia seus primeiros movimentos de formação do governo e expõe os riscos da escalada de sua influência. Finalmente, na ideia que dá título ao livro, Klein propõe que é preciso ir além, reagir, agir. E faz sugestões claras.

O LIVRO

A obra começa explicando como Donald Trump, que não teve vida política e partidária anterior, ganha a eleição. A tese é que Trump é uma marca, sempre foi uma marca e fez campanha como uma marca. “Sou rico”, disse Trump na campanha sobre qual sua maior qualificação para presidir os EUA. Klein mostra a evolução dos negócios e conexões delicadas da marca Trump. Em seguida, explica como ele age depois do ´choque´ das sua vitória e lista e comenta seus atos iniciais como presidente e como formou sua equipe. Tudo isso forma a base para a leitura dos riscos que Trump significa e sugere. Há no livro dois grandes capítulos em que a autora descreve como as coisas podem piorar ou como as coisas podem melhorar. E finaliza propondo ir além do “não” e faz o relato das negociações para a redação do “Leap Manifesto”, um documento canadense que pode servir de referência ao mundo que queira escapar da destruição política, do desmonte administrativo, do desastre econômico e da calamidade ambiental.

INSIGHTS

“O que permitiu que ele vencesse foi um sistema de colégio eleitoral criado originalmente para proteger o poder dos proprietários de escravos.”

“O objetivo, disse ele, era a desconstrução do estado administrativo (regulamentações e agências governamentais encarregadas de proteger as pessoas e seus direitos)”

“É um golpe corporativo sem que vem sendo elaborado há décadas.”

“Ele reuniu um time de indivíduos que fizeram sua fortuna pessoal causando conscientemente danos a algumas das pessoas mais vulneráveis do planeta, e ao planeta em si, muitas vezes em meio a uma crise”.

“Não ficamos em estado de choque quando algo grande e ruim acontece; tem que ser algo grande e ruim que ainda não compreendemos”.

“Milton Friedman (do livre mercado radical) é a personificação do fato de que as ideias têm consequências. Donald Trump é uma consequência dessas ideias.”

“Foi tristeza por ver um conhecimento antigo sobre a profundidade do racismo e da misoginia nos Estados Unidos tão vividamente confirmado.”

 

IDEIAS CENTRAIS

“A expressão ´doutrina do choque´ descreve a tática especialmente cruel de usar, de forma sistemática, a desorientação pública que se segue a um choque coletivo – guerra, golpes, ataques terroristas, colapsos de mercado ou desastres naturais – para aprovar medidas radicais a favor das corporações, com frequência chamadas de terapia de choque”.

“O objetivo é uma guerra total contra a esfera e os interesses públicos, seja na forma de regulamentações contra a poluição ambiental, seja na forma de programas para combater a fome. Em seu lugar desejam colocar poder e liberdade irrestritos para as corporações. É um programa tão ostensivamente injusto e tão abertamente corrupto que só pode ser colocado em prática com a ajuda de políticas raciais e sexuais no estilo dividir para conquistar, além de um espetáculo ininterrupto de distrações midiáticas.”

“O que o gabinete de bilionários e multimilionários de Donald Trump representa é um fato simples: as pessoas que já possuem uma parcela absolutamente obscena da riqueza do planeta, e cuja riqueza aumenta ano após ano – o último relatório da Osfam mostra que oito homens valem o mesmo que a metade do mundo — , estão determinadas a ter ainda mais”.

“Rapidamente as multinacionais estavam competindo umas com as outras em uma corrida por leveza: ganhava quem possuísse menos estrutura, tivesse menos funcionários na folha de pagamentos e produzisse imagens impactantes em vez de produtos ou coisas”.

“Trabalhamos em conjunto com uma equipe de economistas para calcular como poderíamos aumentar a receita de forma a pagar pelo nosso sonho (uma sociedade genuinamente igualitária): …acabar com os subsídios para os combustíveis fósseis (cerca de 775 bilhões de dólares no mundo); obter uma parcela mais justa dos lucros exorbitantes do setor financeiro, estabelecendo um imposto sobre transações (650 bilhões de dólares no mundo, segundo o Parlamento Europeu)… uma taxa de 50 dólares por tonelada de CO2 emitido nos países desenvolvidos (450 bilhões de dólares)…”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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