O AUTOR
Andrew Hussey, nascido em 1963, é jornalista, historiador e escritor inglês. Na Inglaterra, ele dirige centros universitários de altos estudos sobre a literatura e a cultura francesa, área em que tem publicado seus livros.
A PUBLICAÇÃO
O livro “A História Secreta de Paris (ou L’Histoire Cachée de Paris)” foi publicado inicialmente em 2006. No Brasil, a editora Amarilys o lançou em 2011, com 581 páginas, sendo seis dezenas de páginas com referências bibliográficas, notas e índice remissivo, apontando o rigor da pesquisa.
CIRCUNSTÂNCIAS
Andrew Hussey viveu por muitos anos em Paris, experiência que influenciou profundamente sua produção literária.
A História Secreta de Paris nasce de uma pesquisa criteriosa e de longos estudos. A cidade inspira uma obra vibrante, provocadora e nada convencional. Hussey passa longe de repetir os roteiros turísticos ou a mitologia da “Cidade Luz” e, como historiador, o britânico mergulha nas entranhas políticas, sociais e culturais de Paris, revelando os aspectos mais ocultos, sombrios e rebeldes da cidade — aqueles que os guias de viagem costumam silenciar.
Seu trabalho combina investigação acadêmica com um estilo narrativo mais acessível e provocador, aproximando-se do jornalismo literário.
Hussey é conhecido por sua visão crítica da França contemporânea, denunciando o fracasso da república em integrar suas periferias e minorias, e mostrando como isso alimenta o ressentimento, o radicalismo e a violência.
A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
O livro de Andrew Hussey é fundamental por revelar uma Paris que escapa aos roteiros turísticos e às idealizações românticas. Em vez da “Cidade Luz”, ele nos apresenta uma cidade marcada por revoltas, marginalidade, erotismo, violência e pensamento radical. Ao dar voz a figuras esquecidas — como anarquistas, poetas malditos, imigrantes e excluídos —, Hussey mostra como esses personagens moldaram a alma rebelde de Paris.
É um livro essencial para quem quer compreender Paris além do mito — e a história além das versões oficiais.
O LIVRO
O livro é estruturado como um percurso geográfico e temporal que vai das origens da cidade à Paris contemporânea, com ênfase nos bairros populares, guetos, becos e subúrbios. Cada capítulo funciona como um retrato urbano e humano, cheio de histórias de marginais, revolucionários, poetas, prostitutas, anarquistas, artistas, terroristas, vagabundos e loucos.
Entre os personagens destacados, estão o Marquês de Sade, Baudelaire, os situacionistas de maio de 68, as gangues da periferia nos anos 2000 e muitos outros que compõem o lado menos visível da história oficial. Hussey mostra como Paris sempre foi palco de disputas violentas e fervores ideológicos — da Comuna ao terrorismo contemporâneo — e como os subterrâneos da cidade espelham seus conflitos de superfície.
Um dos méritos do autor é combinar erudição com irreverência, sem perder o rigor histórico. Ele cita fontes clássicas, memórias, documentos e literatura, mas escreve com estilo direto, vivo, muitas vezes ácido. O livro funciona como uma arqueologia da revolta, onde cada camada da cidade esconde novos episódios de resistência, repressão e reinvenção cultural.
CURTAS
“… Carlos V pergunta a François I qual a cidade mais bonita da França. O Rei responde: “Rouen…porque Paris não é uma cidade, mas um país inteiro”.
“… não havia dúvida de que a Comuna era um movimento genuinamente popular.
“… como a colunista de fofocas escreveu em La Presse: “O céu está escurecendo. Um banquete em um vulcão! Tudo isso só pode acabar em revolução…
“… Naquele momento, a causa comum, de tornar insuportável a vida dos ocupantes alemães, era a preocupação da maioria dos parisienses…
“… Em 1817, a população de Paris era de 700 mil pessoas, e alcançaria 1 milhão em 1844. O planejamento urbano, no entanto, era notavelmente sem ambições, refletindo o humor dos mercados e especuladores…
“… Um ano antes de François Mitterrand chegar ao poder, Jean-Paul Sartre morreu aos 75 anos de idade idade…
BONS MOMENTOS
“… As garotas mais caras e sofisticadas frequentavam o Café de Foy (o lugar onde Camille Desmoullins, um advogado desempregado e propagandista, havia feito um discurso inflamado para uma multidão em 12 de julho de 1789, o qual culminou com a tomada da Bastilha). Algumas das prostitutas mais elegantes ocupavam um apartamento no segundo andar, onde ofereciam outras diversões, como jantares e recitais de piano. Outras transações eram mais primitivas e comerciais.
“… Um dos mais improváveis heróis da Revolução foi, portanto, o Marquês de Sade, que por pouco não foi um dos prisioneiros libertados durante a tomada da Bastilha. Sade estava na prisão desde 1778, primeiro em Vincennes e depois na Bastilha. Ele havia originalmente sido preso por acusações de envenenamento e sodomia, mas foi inocentado. Desde então, era mantido preso sem julgamento, empanturrando-se, masturbando-se e escrevendo os manuscritos de “Os 120 dias de Sodoma “, o pesado compêndio de perversões sexuais publicado em 1787 que se tornaria sua obra-prima.
“… As recém-estabelecidas livrarias parisienses do começo do século XVIII eram lugares barulhentos e sociáveis. Como registrado por um comentarista, grupos de leitores ficavam como que “hipnotizados ao redor do balcão; eles ficam no caminho do dono da livraria, que retirou todos os assentos para forçá-los a ficar em pé; mas isso não os impede de permanecer horas debruçados sobre livros, ocupados olhando panfletos, fazendo julgamentos antecipados de seus méritos e destinos… Ler um texto erótico à luz de uma vela em uma dessas lojas era, para muitos rapazes e moças da época, o equivalente do século XVIII a um aperitivo sexual, o aguçado estimulante físico antes de aventurar-se pelas ruas escuras da cidade em busca de satisfação.
“… Em termos estritamente políticos, a história da cidade também foi feita pelo movimento entre o espaço abstrato do controle do Estado e do governo e o espaço real, habitado pelo sonhador, o dissidente, o subversivo, o agitador. Paris foi literalmente feita da interação dinâmica de ideias e desejos. Isso explica a paixão, o derramamento de sangue, o glamour e o fanatismo que são, como sempre foram, uma parte integrante da vida cotidiana nesse lugar antigo.
“… A matança continuou, parando apenas quando, enojado pela carnificina, um grupo lançou um contra-ataque a Robespierre, o “incorruptível“ grande inquisidor e chefe terrorista. O pálido assassino, que havia sido pessoalmente responsável por 6000 cabeças cortadas na Place de la Revolution, foi ele mesmo encaminhado ao cadafalso e decapitado em 28 de julho de 1794. Multidões notaram que seu rosto estava ensanguentado e deformado, resultado de uma mal-sucedida tentativa de suicídio que ele cometeu, em pânico, na noite anterior à sua prisão.
“… Os cafés também desempenhavam diversos papéis na vida da cidade; ofereciam não apenas comida, bebida e (na maioria dos lugares) sexo comercial, mas também ideias, discussões, companhia, um refúgio do trabalho, um ponto de encontro, um lugar para ser contratado ou despedido, sem mencionar o fato de ser um ambiente quente e iluminado. Os cafés de Paris eram, com toda razão, vistos com suspeitas pelas autoridades governamentais, que estavam bem cientes do papel que eles haviam tido, desde 1789, como transmissores do vírus da revolução.
Respostas de 2
Exatamente, Charlene. O livro é gostoso de ler, e se você simpatiza com a cidade, aí é um encanto…
Belíssimo texto, Osvaldo. Bem esclarecedor e verdadeiramente engrandecedor da París real, de debaixo dos panos. Aquela que não se mostra, mas que é a verdadeira, a revolucionária, a que tem história.