O AUTOR
Geraldo Jesuino é professor aposentado da Universidade Federal do Ceará. É escritor, jornalista, quadrinista e ilustrador. É membro da Academia Fortalezense de Letras, do Instituto do Ceará e da Academia Cearense e Literatura e Jornalismo, entre outras.
A PUBLICAÇÃO
O livro “Estilhaços”, de autoria de Geraldo Jesuino, foi lançado em 2025, pela editora Poetaria, com 126 páginas. Projeto gráfico e capa do próprio autor. Ilustrações de Felipe e Geraldo Jesuino. Prefácio de Hermínia Lima, orelha de Fernando Lima.
CIRCUNSTÂNCIAS
A prefaciadora Hermínia Lima propõe que a leitura de recortes dos 11 contos escolhidos por Geraldo Jesuíno para compor o livro trazem à memória a narrativo de dois autores, um contista brasileiro e um português. São eles Moreira Campos e Miguel Torga.
Geraldo Jesuíno escreve de modo tão original e singular, que essa distinção aos três contistas não retira de nenhum deles a sua personalidade e o seu estilo. Os três se mantêm únicos. As afinidades acontecem de forma pontual, em forma de “flashes” literários quase imperceptíveis. Aproxima os três o fato de escreverem com excepcional intensidade.
Geraldo Jesuíno concebeu eventos cheios de detalhes impensáveis, com personagens muito particulares (pense numa parteira cega na comunidade carente…), inseridos em ambientes variados (realistas, misteriosos, místicos..), em tramas vivas (algumas dolorosas, outras estranhas…) e com final eventualmente “súbito e surpreendente”.
A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
Geraldo Jesuino produz uma ficção cheia de vida e surpresa. Ele muda de ambiente e muda de tom, sem perder um instante da atenção e do interesse do leitor ou leitora. Escreve um conto sobre o sertão, com linguagem e ritmo sertanejo, e salta na página seguinte para um drama humano íntimo capaz de emocionar, ou para uma esquecida questão social e a olha de uma perspectiva improvável. O autor demonstra ter o domínio firme dos elementos que definem a dimensão das palavras quando reunidas, do andamento da história.
É uma literatura plena, presente no mais simples e no mais absolutamente inesperado adjetivo (como “repetidas novidades”), como na concepção da estrutura de cada parágrafo, cada conto e do livro inteiro.
O LIVRO
O livro se estrutura em 11 contos. A sequência em que estão dispostos não diz nada sobre o texto. Você pode ler na sequência normal ou de trás para a frente, a qualidade e a satisfação só crescem. É inevitável que você leia de novo (todos ou quase todos), eles merecem, e a releitura aporta descobertas significativas. A primeira mineração não mostra todas as pedras preciosas.
A experiência positiva, entretanto, começa antes. Em termos de peça gráfica, o livro atrai e encanta. Basta tomá-lo nas mãos para ver e sentir o capricho do autor nas escolhas dos elementos como capa, contracapa, textura, orelhas, ilustração, diagramação, numeração, papel, margens…
Leitura recomendada. Sem reservas.
CURTAS
“…Num dia era um, no seguinte, outro, mas sempre o mesmo.
“… Um poste bêbado e abalroado teimando em manter-se de pé e sustentar acesa sua lâmpada de luz encardida, mal garoando claridade sobre a calçada suja.
“Um olho soltando fogo, um ódio rasgando a alma, um ferro crispando a mão. Taquicardia marcando o compasso do tempo, do ritmo das veias e do coração.
“… Cônscio da minha limitação, aprendi naquele encontro um jeito de sorriso simples e verdadeiro, sem preço, nem direção ou propósito.
“Todo mundo sabia que era filho dele. Corre a fama de que ele fazia filho em quase todas as escravas. Depois dava sumiço, fosse macho ou fosse fêmea.
“ … Tinha bicho, tinha fruta, tinha feijão e farinha. Tinha garapa de cana, tinha reza, ladainha, tinha risada à fartura. Tudo o que se carecia, tinha.
“…Ela sempre brincava de fazer um sorriso para cada coisa.
“Dona Lua, Dona Lua! Já estamos fora do ninho! Pode trazer uma luz para clarear o caminho, e cintilar nos brilhantes dos cabelos das meninas! Dona Lua, Dona Lua!
BONS MOMENTOS
“… um tempo veio em que ventinho brando, que fazia dançar o roçado, se enfureceu e se arremessou com violência, arrastando planta, bicho, água e até terra de cima do chão. No pleno do vendaval, Horácio, no quintal da frente, largou seu chapéu de festa, levantou a mão pro céu e cantou sua oração. — Vento, vento, se abrande. Se você me quer, sou seu!
“O som seco do desligamento do telefone desperta Adama para um estado de tristeza. Nem mesmo o severo aprendizado foi suficiente para impedir que umas lágrimas, há muito represadas e substituídas por dureza e severidade, rompessem as barragens, afogassem os seus olhos e lhe emprestassem um tremor até então nunca experimentado. Por vinte e cinco anos, foram suas aquela missão e honra. Agora, o merecimento parecia ter acabado. Era hora de aceitar.
“… Aconteceu como era comum acontecer. O coronelato, com a força do seu domínio, dita quem deveria existir ou desaparecer, até mesmo das lembranças. O povo, obediente e dependente, acomodou-se na segurança do silêncio que modificou um robusto acervo de fatos.
“Tempo de seca braba, de arribação. Miséria das mais perversas que já teve. Capoeira esturricada, bicho chocalhando osso dentro na carcaça. Tudo o quanto era de gente e de animal bruto, amofinado, mastigando só a fome. Vivendo debaixo de desespero. Para comer, calado se vendia a alma. Ninguém alcançava coragem da vida.
“… De súbito, como se tivesse acabado de acordar vejo-me enlaçado por um abraço quente, macio e afetuoso que me leva a um estado de sobressalto, mas, também, a uma sensação de conforto. Sinto vontade de ficar ali, quieto, aconchegado naqueles braços de carinho.
“O imaginário popular chega a esses níveis de criatividade. Tem um inegável valor cultural, é bem verdade, mas também pouca valia para construção de verdade histórica.
“… Onde reinava o cansanção e o espinheiro, assentou-se um sitiozinho de mato e passarinho. Um verde danado de bonito até no meio da secura, quando a chuva escasseia.
“… É assim. Quando a gente anda, meu fio, o pé que fica atrás é quem dá o sustento até o da frente alcançar amparo. É assim que se chega aonde se quer chegar. Sempre tem um pé atrás quem quer avançar…
Uma resposta
O livro está uma belezura. Coisa de gente grande. Estilhaços nasceu com vigor e potência.