A AUTORA
Mônica Moreira da Rocha é economista de formação, ex-auditora da Receita Federal do Brasil. Segundo a orelha do livro: mãe, avó, tia, irmã, amiga…namorada da vida, dos livros, do riso e das conversas com alma.
A PUBLICAÇÃO
O livro “e se fosse apenas ficção”, de autoria de Mônica Moreira da Rocha, foi lançado em 2025, pela Expressão Gráfica e Editora, com 161 páginas. Prefácio de Renata Moreira da Rocha. Contracapa de Osvaldo Araújo.
CIRCUNSTÂNCIAS
Monica Moreira da Rocha é uma pessoa bem-sucedida. Teve uma carreira profissional brilhante, constituiu família exemplar, viajou o mundo e tem um mar de amigos. Por que escreveria livros? A resposta é outra pergunta: Mônica lia para viver ou vivia para ler (e viajar)?
O fato concreto é que Monica leu tudo da melhor literatura: os antigos, os clássicos, os franceses, os russos… os regionais, os nacionais, em prosa, em verso, e, nem tão raramente assim, no original, poliglota que é. E Mônica sabe selecionar.
Nessa trajetória de leitora de mente organizada, encheu seus cadernos, suas agendas, sua memória, seu coração e seu computador com o que ela sentiu, com o que ela aprendeu, com aquilo que ela questiona e com aquilo que ainda a deixa revoltada.
Este livro de estreia é uma carinhosa saudação que ela faz à literatura brasileira, só que do jeito dela, com o estilo dela, com leveza encantadora, observação aguda com honestidade absoluta. E ela encanta, ao final, oferecendo seu próprio jeito de escrever e contar histórias — em contos tão breves e cirúrgicos, quanto tocantes.
A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
Monica Moreira Da Rocha produz 21 textos sobre 21 autores brasileiros, rigorosamente selecionados pelo critério de pura afinidade. Os textos de Mônica trazem singularidade: falam do autor, falam de uma de suas obras e falam do Brasil que há nas entrelinhas e por trás dos escritos de cada um, aquilo que é decisivo (ou foi) para fazer o Brasil, Brasil.
O leitor encontrará, portanto, uma palavra sobre a forma como o autor coloca sua alma no seu texto, como o seu texto se coloca no quadro (incompleto, mas geral) da literatura brasileira e como a história do Brasil genuíno se faz presente em páginas de verso e prosa.
É um empreendimento ousado e generoso da parte de Mônica. Essa leitura de conjunto, ao longo de séculos de publicações, fala a cada um de um jeito. O resultado é uma conjunção de beleza e encantamento, não necessariamente de convergência de visões do Brasil.
O LIVRO
O livro tem duas partes. Na primeira, a literatura brasileira pelos olhos da autora, que olha a história pelos olhos da literatura.
A escolha dos livros e autores consagrados da parte de Mônica se fez numa sequência que considera a cronologia, mas não só. Lá estão Gregório de Matos, José de Alencar, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Mário de Andrade, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus, Castro Alves, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Patativa do Assaré, Cora Coralina e Ferreiro Gullar. Há variedade de tons e estilos, de regiões e contextos. A leitura nunca cansa.
Nem de longe se trata de crítica literária. Nem a lista de autores expressa hierarquia. A autora se guia por sua própria, extensa e qualificada experiência como leitora e brasileira.
Na segunda parte do livro, contos da autora.
Como a autora viveu por décadas o silêncio da leitura, recentemente cedeu a publicar seus impulsos de escrita, inclusive seis contos sobre uma cidade, nove sobre fragmentos de vida e onze inspirados em livros.
Leia, avalie, critique. Vale a pena. Vai aqui uma recomendação sem reservas.
CURTAS
“A vida real, tão cheia de limites, não era suficiente. Mas havia a ficção. E que alívio era poder inventar: reinventar a si mesma, resgatar personagens, dialogar com o que nunca aconteceu…
“Os sonhos são meus esconderijos. A realidade é que me visita de vez em quando.
“O quarto vazio. A roupa ainda no encosto da cadeira. A tentativa de respirar fundo sem soluçar. Ausência tão presente que até os móveis pareciam sussurrar o nome dele.
“ — Sabe, tenho medo de mexer no que está quieto. Mas também tenho medo de deixar tudo imóvel para sempre.
“… Eu me senti viva como há muito tempo não me sentia. Quase a quebrar — é verdade. Mas também quase a dançar.
“Algumas histórias nascem tarde demais — e outras, talvez, só existam para que alguém as espere em vão.
BONS MOMENTOS
“Gregório ironiza a classe dirigente, que se arvora em moralidade, enquanto não consegue lidar com a própria desordem cotidiana. É o retrato de um Brasil onde o discurso está sempre acima da prática — e onde o poder, mesmo despreparado, se impõe como voz única.
“‘Iracema’ é fundadora porque conta como o Brasil quis se ver — não como de fato foi. A dor é sublimada. A violência, transformada em poesia. O trauma da colonização, em epifania amorosa.… Ler ‘Iracema’ hoje é como caminhar por um jardim muito bem cuidado — até perceber que ele foi plantado sobre ruínas.
“Brás Cubas, o morto que fala, é o filho da elite carioca — narcisista, inútil, vaidoso. Ele narra sua vida sem arrependimento, sem moral, sem vergonha. O que poderia ser uma confissão, vira desfile de hipocrisias. O humor de Machado é sutil, cortante, nunca gratuito.
“O livro começa olhando de cima. Mas termina com o autor tomado pela dor do que viu. Na terceira parte, “A Luta”, o tom muda de vez: o massacre de Canudos é narrado com perplexidade. Foram quatro expedições militares contra um grupo de miseráveis. O exército venceu. Mas a República perdeu a alma.
“Era um canto impossível. Tinha cores. Tinha curvas. Era como se alguém soprasse música pela primeira vez no universo. Ernesto ficou imóvel, parado diante de uma árvore qualquer, tentando identificar a origem daquele som. Mas o que encontrou foi mais do que um pássaro. Era um portal. Um chamado. Uma ferida abrindo-se devagar para revelar o lugar onde ainda doía o que ele nunca ousara sentir.
“Enquanto os modernistas agitavam São Paulo com suas vanguardas, Rachel, do Ceará, estreava com um romance maduro, corajoso e feminino. Sua personagem Conceição é discreta, mas firme: tem opinião, estuda, trabalha, escolhe. Sem fazer discurso, Rachel desenha ali o contorno de uma mulher que pensa por si — o que, em 1930, era revolucionário.
Respostas de 4
Os comentários do Osvaldo complicam a vida de quem os lê, pois fica sem saber qual redação é a melhor, a dele ou a de quem mereceu uma sua apreciação.
Ja com livro em mãos e agora mas ansiosa pela leitura.
Genial como a autora!
Adorei! Destacou pontos profundos da narrativa com clareza enriquecendo a experiência de quem ainda vai ler!