POR QUE O CONHECIMENTO DÓI? por Alexandre Aragão de Albuquerque

Primeiro foi um colombiano desenvolvendo uma proposta nefasta e ridícula de policiamento dos estudantes brasileiros, mandando serem filmadas sistematicamente crianças e adolescentes nas unidades de educação básica em todo o país cantando o hino nacional enfileirados hasteando a bandeira, numa alusão ao método de doutrinação nazista para o qual o Estado deve estar acima de tudo e de todos. Para impor a adoração ao Estado, o Poder autoritário exerce a violência simbólica e real sobre as pessoas retirando delas a obediência pia e irrefletida. Era o que Velez estava plantando.

Agora vem esse tal de Abraham, um irresponsável querendo ditar o que os cidadãos devem ou não estudar. Para ele cidadãos brasileiros nascidos em estados da Federação da região nordeste não podem estudar as Humanidades: nem Filosofia, nem Sociologia, nem História, nem Ciência Política. Arvora-se ao poder de ditar o que os outros devem escolher em suas vidas.

Mas por que a ciências humanas e sociais doem tanto na cabeça de Abraham?

Porque, como diria o poeta Rimbaud, as ciências sociais e humanas contêm uma “revolta lógica”. Profissionais destas áreas do conhecimento estão sempre descontentes com o mundo tal como ele é. Trata-se da função crítica destes saberes. Mas contêm também sua dimensão lógica, pois exigem discussão, debate, diálogo. Capacidade de se expressar e de escutar o outro. Submetem-se à razão com base na elaboração de argumentos com fundamentos científicos.

Esse governo bolsonarista tem demonstrado que não gosta da crítica. Evita, desde a campanha eleitoral, o debate franco e aberto, que contemple o contraditório. Xinga jornalistas, deprecia moralmente estudantes em suas ações políticas, adota o padrão-fake como norma de sua práxis. Além disso, investe na confusão dos dados e da realidade para poder implantar o seu autoritarismo. Aposta na falta de memória de nossa gente, contando com ferramentas midiáticas pelas quais emitem opiniões extremamente móveis e frágeis. Afinal, sustentar firmemente um pensamento lógico, denso e coerente não é uma tarefa fácil para o bolsonarismo. Por isso ameaçam essas ciências.

Ciências e Democracia devem andar juntas. É preciso que haja sempre uma maior compreensão das necessidades humanas a partir de processos de participação e decisão em fóruns locais e globais que possibilitem a fala dos diversos atores sociais colocando em diálogo os diversos saberes e experiências a fim de se buscar uma verdade mais abrangente. É preciso colocar em diálogo todos os saberes, sem preconceitos ou hierarquizações, onde se possa mirar a possibilidade de uma vida capaz de ser vivida na paz, na liberdade, na igualdade e na solidariedade humanas, de forma auto-sustentável, garantindo assim a vida humano-ecológica presente e para as futuras das gerações.

É necessário inclusive que a economia recupere sua vocação enquanto ciência social crítica e proponha a conhecer a realidade e não as abstrações em que se transformaram os agentes e os mercados. Inclusive ao perceber a produção como um processo coletivo realizado por homens e mulheres, investigar caminhos concretos que visem a uma distribuição da riqueza de forma mais justa e equânime.

É importante também que seja eliminada da Ciência o potencial bélico do qual é portadora, colocando-a a serviço de um projeto social em que favoreça a paz mundial e a emancipação de homens e mulheres comuns como capazes de autonomia e de definirem sobre os seus próprios caminhos, agentes de uma construção solidária da vida coletiva. Não podemos esquecer que a Ciência foi responsável pelo desenvolvimento de uma sofisticada tecnologia bélica expressa em fuzis, bombas de hidrogênio, gás mostarda, bomba atômica, mísseis teleguiados e assim por diante.

Portanto, é importante lutar contra qualquer possibilidade que queira calar um saber, que se for contado, forçaria os outros a articular-se de outra maneira; impedir que se aproveite o fato de um protesto não ser plenamente articulado para não o remeter ao domínio da opinião; barrar o caminho a uma triagem que decida o que conta e o que deveria compor-se a seguir. Se for destruído aquilo de que depende a sua humanidade, os humanos deixam de estar associados apenas a não humanos, eles são amarrados e podem ser destruídos, reduzidos à desumanidade do ódio, do cinismo ou do desespero.

 

 

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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