Por que Moro e Bolsonaro são uma coisa só?

DA TRAGÉDIA GREGA aprendemos que seus heróis estão submetidos ao julgamento sobre o bem ou mal que cometeram. Como anota Aristóteles em seu livro A Poética, os humanos possuem uma ou outra qualidade conforme seu caráter, mas são bem ou mal-aventurados pelas ações que praticam. Nas tragédias gregas, os heróis deverão responder pelos seus atos. É um debate estabelecido entre o passado mitológico com o pensamento político-jurídico do presente, colocando em confronto os valores da vida democrática da polis grega com a tradição particularista defendida pela aristocracia de então.

 

Segundo Jean-Pierre Vernant, em seu livro “Entre mito e política”, a tragédia grega nasce quando se começa a olhar o mito com as lentes da cidadania, que passa a ser questionado em sua validade para a vida democrática. Para a consciência trágica, não existe uma resposta previamente estabelecida ou imposta, mas o mito é sempre motivo de interrogação a partir da realidade concreta e do direito dos cidadãos atenienses. É um salto civilizacional de um humano que no passado justificava suas ações devido às forças divinas, para outro humano totalmente diferente, político e cívico, que assume as responsabilidades por seus atos. O herói trágico grego não se apresenta acima do plano humano, mas como um ser passivo de problemas induzindo nos espectadores a reflexão para a busca das soluções. A tragédia testemunha uma mudança da teogonia(mundo dos deuses) titânica, movido pelas forças sobrenaturais, para um mundo da sociabilidade humana baseado nos preceitos que estão sendo elaborados na polis grega.

 

No século XX, houve mudanças profundas dessa concepção do herói trágico grego. Primeiramente o nazi-fascismo, ao desenvolver os conceitos de “guerra total” (extermínio e destruição em massa) e a ideologia do “destino manifesto” de uma nação que deveria alcançar os ideais místicos da raça ariana superiora, não importando os meios, vai colocar em prática de forma perversa o heroísmo amoral. Na sua propaganda de massa, comanda por Joseph Goebbels, o super-herói nazista é aquele cujas ações se orientam unicamente pelos ideais (de suaverdade e sua justiça) que devem ser buscados, nem que seja ao custo da morte de milhões de vítimas. Diante dos corpos dos campos de concentração, o herói nazistanada lamenta, a não ser o tempo perdido para alcançar a Solução Final.

 

Em segundo lugar, no século XXI os valores dos heróis da indústria cultural e do entretenimento massificaram os EUA como os heróis do mundo, interessados em destruir tudo aquilo que eles definem como terror, por meio de ações truculentas. Desde a 2ª. Guerra Mundial, os super-heróis estadunidenses vão assimilar várias características ideológicas dos heróis nazistas, como o traço e a estética, seguindo o modelo físico ariano até a sua amoralidade. Os ícones desses super-heróis são o Capitão América (dos Vingadores), Batman, Super-Homem. Em nome de sua verdade e de sua justiça”, os heróis estadunidenses não se submetem à Justiça, o importante é realizarem a Vingança para a qual estão determinados a cumprir. Não têm consciência nem se importam pelas consequências de um conflito aberto em áreas densamente povoadas por cidadãos. O super-herói não faz cerimônia alguma de lutar contra “os monstros”, “os malfeitores”, “os inimigos”, em ruas congestionadas: carros vão pelos ares, explosões para todos os lados, causando uma enormidade de perdas materiais e humanas em larga escala. Mas para estes “super-heróis”, o que importa é cumprir a sua verdade e a sua justiça. Conforme o cineasta Wilson Ferreira, do Blog Cinegnose, outro traço marcante desse “novo” herói contemporâneo é a PARANOIA NARCÍSICA: heróis dotados de poderes sobrenaturais, que se situam acima da lei, que se acham perseguidos por organizações ou grupos de conspiradores que tentam ataca-los. O caráter narcísico dessa paranoia vem reforçar as ações amorais do herói capaz de detonar o mundo em nome de sua verdade e de sua justiça.

 

Em 1999, quando ainda era deputado federal, Bolsonaro disse que o país só mudaria se partisse para uma guerra civil interna assassinando umas 30 mil pessoas, a começar pelo presidente da República, na época Fernando Henrique Cardoso: “Vão morrer uns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra, morrem inocentes”, afirmou. No dia 20 de abril, respondendo a uma pergunta de um jornalista sobre as mortes da “gripezinha” da COVID-19, na época com 19.000 mortos (hoje já estamos com 30 MIL ÓBITOS, 01/06), o Presidente Mito afirmou: “E daí? Eu não sou coveiro, tá. E ponto final”. E no vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, ele deixou revelar seu objetivo central por trás dos decretos sobre armas: armar a população para o enfrentamento político. Por fim, diante do mandado judicial do Supremo Tribunal Federal autorizando a Polícia Federal a fazer apreensões dos computadores de integrantes do Gabinete do Ódio, o Ressuscitado-da-Facada-por- Deus exclamou no cercadinho do Palácio da Alvorada: “Ordens absurdas não se cumprem. Temos que botar um limite nestas questões. Acabou, porra!”.

 

No mesmo segmento, à frente da Operação Lava-Jato, Sérgio Moro comportou-se como um super-homem. Ele era a Lei. O importante era cumprir a missão de condenar o Presidente Lula, com o apoio intensivo da Rede Globo,mesmo se para isso tivesse de corromper o processo legal, coordenar as ações dos procuradores, dar respaldo jurídico para a apresentação do powerpoint de Dallagnol, prolatar sentença baseada apenas em convicções, impedir o cumprimento do Habeas Corpus deferido por desembargador na soltura do Presidente Lula. Cumprida sua missão de super-herói, largou 22 anos de magistratura federal para associar-se ao grupo de “Vingadores bolsonaristas”, inaugurando sua entrada de forma triunfal com o perdão a Onix Lorenzoni, réu confesso por dois episódios de caixa 2, o crime de pior magnitude na concepção do antigo juiz Moro.

 

Além das características acima, um dos laços que une os dois – Bolsonaro e Moro – é o “Excludente de Ilicitude”, mais conhecido como LICENÇA PARA MATAR. Ilicitude refere-se quando o comportamento ou ação de uma pessoa desrespeita alguma lei. Excludente é um mecanismo legal que permite que uma pessoa pratique uma ação legalmente que seria considerada como um crime. Moro e Bolsonaro propõem que “o juiz poderá reduzir a pena até a metade ou deixar de aplicá-la se um excesso cometido por um agente público (policial) decorrer de medo, surpresa ou forte emoção”. Além disso, querem garantir que o policial em vez de reagir a uma ameaça (legítima defesa), tenha a permissão para “agir preventivamente”, ou seja, realizar o ataque antes de uma ameaça concreta ocorrer. Como no caso do assassinato do adolescente João Pedro, 14 anos, que brincava na casa do primo, e foi acertado por um tiro de fuzil numa ação da polícia fluminense.

 

Ambos, Moro e Bolsonaro, são expressão da amoralidade dos super-heróis contemporâneos. Julgam-se acima do Bem e do Mal, além da Justiça, para praticarem sua índole vingativa. É preciso barrá-los já.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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