Por que eu continuo lendo Balzac

A discussão atual, ou, pra melhor dizer, a polêmica, quase sempre feroz, sobre os temas da “identidade” de raça, de gênero e de classe, que resultou em fenômenos como a “cancel culture” e os ataques contra muitas personalidades, como por exemplo, o recente caso da Lilia Schwarcz, me deixa perplexa. Eu não me sinto à altura de propor uma abordagem teórica, geral, a este problema complexo. Mas posso falar a partir de mim mesma, da minha pessoa. Eu sou mulher. Eu tenho antepassados negros e índios, sou uma mistura das várias raças que compõem o Brasil. Sou nordestina, não de Fortaleza, Salvador ou Recife, mas do interior, região caririense. Nasci em família de condições socioeconômicas modestas.  E hoje vivo com trabalhos “precários”, fazendo, assim, parte do novo proletariado.

Logo, posso dizer que sou uma mistura de quase todos os “subalternos” – como chamava o filósofo marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937), considerado um dos fundadores dos estudos da cultura que constituem uma das fontes das afirmações contemporâneas da “identidade”.

A maioria dos brasileiros é uma mistura destes “subalternos” – com exceção da “elite branca” que continua a nos governar. Eu, bem como milhões de outros brasileiros e brasileiras, tenho antepassados que foram escravizados, outros que foram massacrados, outros explorados e tratados como bichos, as mulheres estupradas e ainda mais maltratadas e massacradas do que os homens. O trabalho deles e delas gerava a riqueza dos que os desprezavam. Depois, estes antepassados mudaram-se para o Sul do país para fugir da miséria, e lá foram considerados “selvagens’ por ser nordestinos. E eu, mulher, um pouco negra, um pouco índia, filha do interior, faço parte desta massa imensa, a qual, aos olhos da“elite”, vive somente para trabalhar, sofrer e calar-se. Ontem, nas plantações, hoje, em frente ao computador (no meu caso).

Portanto, eu tenho um grande interesse, um interesse pessoal em acabar com o patriarcado, com o racismo, com o domínio de uma classe sobre outra, com o domínio de um corpo “forte” sobre um corpo mais “frágil”.

No entanto, isto não significa que eu aceito tudo o que dizem os e as que pretendem falar em nome das mulheres, dos negros, dos índios, dos explorados. Mesmo que eu faça parte de quase todas as categorias dos “discriminados”, eu não aceito que outras pessoas erijam uma ideologia intolerante falando em meu nome.

Para limitar-me ao assunto: eu não quero recusar toda a cultura do passado somente porque foi realizada, em grande parte, por homens brancos. Homens brancos que causaram tantos danos, mas entre eles estavam também Flaubert e Pessoa, Beethoven e Velazquez, Tolstoi e Shakespeare. Sim, é verdade que eles em alguns momentos produziram conteúdos colonialistas, racistas, misóginos. Mas não podem ser reduzidos a isto.  A “universalidade” não é somente uma mistificação para esconder os interesses particulares dos donos. Estes autores, artistas, músicos exprimiam também conteúdos universalmente humanos nos quais eu me reconheço. Eu gosto do “Vermelho e o Negro”, de Stendhal, posso me reconhecer nas suas personagens, mesmo que o autor não seja nem mulher, nem nordestino, nem negro, nem índio, nem popular, nem nascido no Cariri. Eu gosto de Balzac e das figuras femininas de Balzac, gosto de suas “Ilusões perdidas” e “Eugenie Grandet”. Não sou russa, mas posso compreender Anna Karenina, não vivo no século XIX mas posso identificar-me com Emma Bovary, não sou homem mas poderia fazer como Julien Sorel, não sou um príncipe mas tenho dúvidas como Hamlet.  Eu poderia ser cruel como Lady Macbeth, agir como Judith na Bíblia, ou como Mesrine na França…

Enquanto proletários, escravos, mulheres  trabalharam direta ou indiretamente para os burgueses e aristocráticos, a “grande cultura” se constituía ao mesmo tempo em que grande parte desta burguesia que vivia com o suor dos outros e, normalmente, não faziam nada de criativo com o ócio e a riqueza que proletários, escravos, mulheres lhes davam e eles gastavam tudo com Champanhe, cavalos, luxos, carros, putas…, uma pequena parte desta burguesia utilizava a riqueza e o ócio para criar arte e ciência uteis para toda a humanidade.

Hoje, dezenas e dezenas de anos passados, esta criatividade deveria ser permitida, possibilitada a todas as pessoas sem a necessidade de julgar ou jogar ao mar a única consequência positiva das injustiças passadas.

É absolutamente necessário que no futuro todas as raças, todos os gêneros, todos os grupos sociais possam participar da criação cultural e exprimir as suas experiências. Mas isto, de modo algum, deve significar a renúncia da riqueza do passado. E porque deveríamos renunciar as poucas coisas boas que fizeram, nos campos da cultura, da ciência, das técnicas, das artes, da estética?

 

 

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, escritora, pesquisadora, coordenadora de Cultura em SegundaOpinião.jor Um cronópio num mundo repleto de Famas. Metade de minha alma tem quinze, a outra, duzentos anos.

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