POLÍTICA, IDEIAS E SENTIMENTOS – Rui Martinho

Há uma grande politização. Muitos desejavam que assim fosse. Mas alguns, entre estes, estão insatisfeitos com o alargamento do ativismo para além dos partidos, sindicatos e demais formas de condução e tutela das massas. A razão, na constelação de fatores políticos, é uma forma de legitimação do poder. Os gregos enriqueceram o uso da argumentação com o pensamento abstrato, como esforço destinado a suavizar o potencial de conflito dos casuísmos. Olivier Nay (1968 – vivo) cita igualdade perante a lei (isonomia), participação na assembleia dos cidadãos (eclesia), liberdade, tipos de regime e o princípio da publicidade entre as contribuições dos helenos para o aperfeiçoamento político. A razão deveria diminuir a influência da força, trocando-a pela argumentação.

Sucede que os sofistas também apareceram na Grécia, que assim nos legou o relativismo cognitivo e axiológico, verdadeiro convite ao embuste e autoengano, ao lado do etnocentrismo, que abre a porta para as posturas particularistas, cerceadoras da universalidade. O solipsismo espreita o relativismo, podendo afastar a transcendência, sem a qual o sentido da res publica perece. Heráclito de Éfeso (580 – 450 a. C.), cujos fragmentos lacônicos e enigmáticos propõem um mundo fluido no qual não se toma banho duas vezes no mesmo rio, permanece atual. O homem como medida de todas as coisas, do pensamento de Protágoras de Abdera (490 – 420 a.C.) é autoreferido de modo ilimitado e enseja subjetividade independente da razão. O conhecimento como obstáculo epistemológico (Gaston Bachelard, 1884 – 1962); a cegueira e a incomunicabilidade dos paradigmas (Thomas Samuel Kuhn, 1922 – 1996); e os resíduos e derivações (Vilfredo Pareto, 1848 – 1923) são alguns dos limites ao uso da razão na busca da boa lei (eunomia).

Democracia é, entre outras coisas, uma tentativa de solução pacífica dos interesses e valores conflitantes; uma forma de organização social; uma mentalidade; um governo de algum modo participativo. O uso da razão no debate político, social e econômico padece das limitações aqui aludidas. Significativamente, quem se preocupa com a produção de bens e serviços pensa em investir, formar poupança e usar judiciosamente o crédito. Tem propensão a poupar. Quem só pensa em desfrutar só quer aumento de salários, oferta gratuita ou subsidiada de bens e serviços, igualdade, distribuição de riqueza e direitos conforme o fetichismo da norma jurídica. Produzir ou reivindicar, eis a questão; produzir versus provisão resolvida pelo Estado havido como justo.

Aristóteles (384 – 322 a.C.), em sua tipologia dos regimes políticos, mencionou a tendência deles para a decadência. A democracia degenerada é a demagogia, na tipologia do estagirita. Produzir sem investir, crédito ilimitado sem obrigação de pagar os  juros nem o principal, Estado provedor com desfrute sem custos é milagres da democracia decadente. O paraíso implantado na Europa ocidental elevou a dívida dos estados nacionais, tornando-a insustentável. Agora tentam recuar. Os “coletes amarelos” não aceitam o recuo. John Maynard Keynes (1883 – 1946), respondendo aos críticos que apontaram o endividamento insustentável do seu modelo econômico disse: a longo prazo todos estaremos mortos. Ele e os seus críticos morreram e a conta chegou. Isaiah Berlin (1909 – 1997) adverte: as utopias não mencionam oposição, nem o modo de prover as suas propostas. Só legitimam o totalitarismo. Indicadores de qualidade de vida melhoram. Não importa. A democracia decadente é demagógica, só quer reivindicar.

Rui Martinho

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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