POLÍTICA E ANTIPOLÍTICA

Da revolução do conhecimento promovida pela mecânica quântica, sabe-se que toda partícula existente na Galáxia possui uma antipartícula com a qual podem aniquilar-se mutuamente. Uma partícula de elétron possui sua antipartícula denominada posítron, um quark possui o seu antiquark. No caso de um encontro entre partícula e antipartícula o resultado será o desaparecimento de ambas por meio de liberação de forte radiação e alta energia.

Então por que existe o Universo?

Segundo os teóricos da física quântica, as grandes massas como o planeta Terra são constituídos mais de matéria do que de antimatéria (muito mais quarks do que antiquarks), pois se houvesse grandes regiões de antimatéria na Galáxia, seriam esperadas  grandes quantidades de radiação provenientes do contato entre as regiões de matéria e antimatéria, aniquilando-se mutuamente. O Universo não existiria.

Entre 2007 e 2009, realizamos em Fortaleza – CE uma escola de formação política para juventudes, denominada Escola Civitas de Fortaleza, cujo objetivo era o de realizar reflexões teóricas e práticas sobre os fundamentos que deveriam nortear uma política voltada para a emancipação humana a partir do princípio democrático da fraternidade.

De fato, a partir da perspectiva da teoria democrática, liberdade e igualdade, como categorias políticas, qualificam o relacionamento entre as pessoas, na afirmação dos direitos humanos, com base no direito fundamental de cada pessoa ser sempre mais livre de poderes absolutos e autoritários, discutindo no espaço público, de igual para igual, a respeito dos seus direitos e garantias.

A liberdade inspira a normatização dos direitos, enquanto a igualdade dita as condições para a distribuição de riquezas materiais e imateriais. Todavia, é a fraternidade que define uma pessoa em relação a outra, ao possuírem o mesmo gérmen humano, a mesma procedência, denominando-os assim de “germanus” (irmãos). Portanto, seres livres e iguais que se somam e se completam numa humanidade comum.

Um dos eixos de nossas reflexões foi o estudo comparativo entre as noções de Política e Antipolítica, buscando conceituar e distinguir o que seriam atos políticos dos atos antipolíticos. Primeiramente estabelecemos uma diferença básica. Enquanto um ato político visa emancipar e humanizar pessoas e coletividades em suas relações, um ato antipolítico visa à reificação, à desinformação e ao domínio desses sujeitos.

Em segundo lugar, a formulação a que nossa Escola Civitas de Fortaleza chegou quanto à definição de um ato político diz respeito àquelas ações voltadas para a emancipação social baseadas no cuidado da casa comum e de seus habitantes, em âmbito universal, qualificando sempre  mais a consciência e a reflexão sobre todas as nossas atitudes diárias, para que sejam consoantes com esse compromisso.

Como anota a filósofa brasileira Marilena Chauí, “uma das práticas mais importantes da política democrática consiste justamente em propiciar ações capazes de unificar a dispersão e a particularidade das carências em interesses comuns. Graças a essa generalidade, fazê-las alcançar a esfera universal dos direitos. O alcance da cidadania popular somente tem força quando é capaz de desfazer privilégios de alguns, orientando a luta política para transformar as carências à condição de direitos universais”.

Um segundo passo dado nessa formulação baseou-se no exercício de pontuar alguns princípios que nortearam o estudo da categoria da fraternidade por nós realizados. Didaticamente conseguimos identificar e elencar cinco princípios básicos. 1- O princípio da universalidade: sendo a humanidade a primeira de todas as nossas comunidades, todos os sujeitos por possuírem o mesmo gérmen humano são considerados “germanus”, ou seja, irmãos. 2- O princípio da gratuidade: ao tomar consciência de nossa soberania popular, cada um deveria gratuitamente assumir o compromisso pessoal de engajamento político na renovação da vida social. 3- O princípio da responsabilidade: tornar-se responsável pela vida em nossa casa comum, uma vez que a fraternidade não se baseia em valor de troca, mas no sentido de coexistência. 4- O princípio da alteridade:ação política é resultado de um relacionamento entre os sujeitos acima identificados como “germanus”; sendo assim, exercita-se a capacidade de escuta, de percepção das carências e potencialidades, para que a ação política seja resultado do diálogo intercultural e não como um projeto imposto ou previamente estabelecido. 5- O princípio da reciprocidade: a atitude de escuta e diálogo gera uma dinâmica de reciprocidade fraterna, contribuindo qualitativamente para a renovação da vida do tecido social e da cada um de seus membros.

Assim, entendemos como ato político aquele que busca retirar o sujeito contemporâneo do seu isolamento existencial imposto pela cultura hiperindividualista neoliberal, repensando e recriando formas eficazes de participação dos cidadãos e cidadãs nos diversos níveis de decisão da esfera pública e na construção de novas convivências sociais, produzindo vínculos locais e planetários, no sentido de reencontrar a atração pelo convívio capaz de restaurar um mundo possível de ser vivido entre humanos. Para tanto, é preciso a formulação de uma ética da fraternidade pela qual o espaço público seja percebido como espaço de encontro entre “germanus”.

Desde que Bolsonaro assumiu o poder em 2019, (muito explicitamente já se via em sua campanha eleitoral violenta, mentirosa e medrosa em 2018), o que se vê no Brasil é o avanço da antipolítica. Em vez da ampliação das lutas sociais pelos direitos universais, o que se constata é o avanço dos privilégios de grupos religiosos, capitalistas, militares, ruralistas, midiáticos, por meio da contrarreforma trabalhista, da previdência, da PEC 186, do desmonte do SUS, da Universidade Pública e da perseguição a movimentos sociais, a cientistas e a educadores. Como disse Salles, “o importante é passar a boiada”.

Muitos dos que se dizem hoje arrependidos é devido apenas ao avanço da Covid-19, por estarem ameaçados em suas vidas e em seus negócios. Chega a ser grotesco ver alguns padres da Igreja Católica produzirem vídeos pelas redes sociais lamuriando-se pelo corte do gasto público direcionado às suas instituições. São indivíduos e grupos apoiadores de primeira hora de Bolsonaro, preocupados apenas com seus interesses, incapazes de olhar a política a partir de um espectro mais amplo.Recusam fazer a autocrítica pública de reconhecer que o seu apoio ostensivo na campanha eleitoral em 2018 e ao governo da extrema-direita neoliberal nos fez chegar ao inferno do tempo presente brasileiro. E devido a este apoio, a destruição da antipolítica bolsonarista continua seguindo seu caminho.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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