Pérolas e Porcos, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Nenhum ato humano é insignificante. Expressa a realidade de uma pessoa, manifesta uma cultura, uma forma de pensar e sentir a si próprio e o mundo ao seu redor.

No mundo ocidental, coube à filosofia grega em particular uma investigação metódica e sistemática sobre estas questões, na busca de obter uma verdade mais profunda. Segundo Stephen Tolmin, filósofo e educador britânico, o Logos da filosofia grega incluía o conjunto da argumentação e do pensamento sobre qualquer assunto: nessa cultura, as razões desempenham um papel central.

Outra matriz criadora do ocidente foi o pensamento cristão. A experiência original cristã é fruto não tanto de um conhecimento filosófico sistematizado, mas da vivência de suas primeiras comunidades relativas ao Acontecimento revelador de Deus como amor encarnado na mensagem e na vida de Jesus de Nazaré. De fato, a filosofia grega não se atreveu a conferir ao Logos o atributo do amor, porque segundo aquela filosofia, o amor tem sua origem última numa carência. A experiência cristã transpõe esse umbral porque para o pensamento cristão o amor não correspondia a um sinal de falta, mas a uma plenitude que se comunica continuamente.

Consequentemente, para o pensamento cristão, a liberdade do ser humano não é pensada a partir de uma ordem cósmica, mas decorrência de uma liberdade originária. Isto implica um novo horizonte para pensar o humano e sua liberdade, pois a fundamentação da ordem do mundo na livre ação de Deus é algo profundamente diferente da fundamentação do mundo num movimento cíclico como pensavam os gregos.

A partir desses fundamentos antropológicos grego e cristão, o professor Paulo Freire, ainda muito moço, dirigiu-se aos córregos do Recife, a seus manguezais, às zonas rurais de Pernambuco, indo ao encontro de empobrecidos homens e mulheres camponeses, pescadores, operários, favelados, movido por sua lealdade a Jesus Cristo, para desenvolver sua razão pedagógica. Ao encontrar diante de seus olhos a realidade dura daquelas gentes, a pobreza em grau extremo, e constatar a negação pelo sistema político-econômico de suas liberdades e dignidades humanas, sentiu-se fortemente provocado a desenvolver ferramentas pedagógicas que possibilitassem a reflexão daqueles oprimidos sobre a opressão a que eram submetidos para lhes capacitar uma reflexão crítica da realidade. Nascia assim a pérola: o Método Paulo Freire de Alfabetização de Adultos. Uma leitura das palavras a partir da leitura crítica da vida.

Freire desenvolveu seu Método baseado no diálogo como apreensão do conhecimento e aumento da consciência cidadã. Defendia que os educandos fossem ouvidos, que exprimissem as suas ideias como exercício democrático e de construção de autonomia, de preparação para a vida. Propunha o diálogo efetivo, crítico, respeitoso, sem que o professor abrisse mão de sua responsabilidade como educador no preparo das aulas e no domínio dos conteúdos.

Passados tantos anos de reflexão, experimentação, debates acadêmicos e produção literária, nos quatros cantos do mundo, em torno do pensamento freireano, hoje, no Brasil, vemos alguns grupos extremistas, liderados pelos filhos do capitão, atacando abertamente em redes sociais a pessoa de Paulo Freire e o seu valiosíssimo legado, resultado da sua fidelidade ao Cristo e de sua solidariedade concreta às pessoas oprimidas desse mundo.

Diante desta agressão grosseira e beócia a Paulo Freire, vem-nos à mente a sentença proferida pelo Nazareno: “Não lanceis pérolas aos porcos”.
Porcos não ruminam. “Ruminar”, na simbólica filosófica hebraica, exprime a ideia de “recordar”, “repensar algo”, “ponderar lentamente”. Por isso a ingestão de animais ruminantes, segundo a cultura judaica, ajudaria o ser humano a pensar e repensar, a refletir dispondo de tempo para tal, a fim de absorver e produzir “ideias éticas e verdadeiras”, rejeitando a mentira e o mal. Por isso Jesus rejeitava os porcos.
Porcos não sabem diferenciar uma pérola de um caroço de milho. Porcos são simplesmente porcos.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.